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Últimos Assentamentos
Último Assentamento
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Toledo: Adolescência interminável
8 mai 2012
O mundo nunca foi tão adolescente. A cada quatro terráqueos, um tem entre 10 e 24 anos. São 1,8 bilhão de pessoas nessa idade especial. Mas desde quando um marmanjo de 24 anos é adolescente? Num passado recente não era, mas passou a ser -ou melhor, não deixou de ser. E isso pode virar um problema. Segundo a revista científica “The Lancet”, a adolescência vem espichando a cada geração, nas duas pontas: a puberdade chega mais cedo, e a maturação do papel social dos jovens ocorre cada vez mais tarde.
Basta observar como tem avançado a idade média dos jovens ao terminar os estudos, com que conseguem seu primeiro emprego fixo, quando se casam, e com que as mulheres se tornam mães. Todos esses marcos do fim da adolescência foram adiados nas últimas gerações. As repercussões sociais dessa mudança são maiores do que nos damos conta. Daí o dossiê da “The Lancet”.
A palavra “adolescente” deriva do latim “adolescere”, que significa “crescer”, “desenvolver-se”. Adolescente é quem está crescendo, e adulto, quem já cresceu, já se desenvolveu. Mas o crescimento não se mede pelo número do sapato nem pelo comprimento da barra da calça ou da saia. É uma questão de amadurecimento, de andar com as próprias pernas sem a muleta dos pais.A adolescência começa quando os hormônios da puberdade mudam a fisiologia e a fisionomia das crianças. É uma revolução que transforma todo o corpo, com repercussões do comportamento à capacidade cognitiva do cérebro. Jovens púberes, por exemplo, tendem a questionar regras, buscar novas experiências e tomar atitudes de risco com mais frequência que os impúberes.
O coquetel hormonal em ebulição tem impactos diretos sobre a mortalidade. O gosto por arriscar-se faz com que os adolescentes estejam entre as principais vítimas das mortes violentas. Se a adolescência se prolonga, a chance de sucumbir aos seus efeitos também. Nas últimas décadas, o mundo conseguiu reduzir drasticamente a morte na infância. Mas os avanços na redução da mortalidade de adolescentes foram bem menos impressionantes. O Brasil não é exceção.De 1996 a 2010, as mortes de crianças brasileiras com menos de cinco anos caíram praticamente à metade, de 88 mil para 47 mil por ano. A taxa de mortalidade por 100 mil habitantes dessa faixa etária regrediu quase na mesma proporção. Já as mortes e a mortalidade de adolescentes de 10 a 24 anos permaneceram estáveis. Em 2008, pela primeira vez na história do Brasil, morreram mais adolescentes do que crianças. E a tendência só se acentuou desde então.
Nesses 15 anos, as mortes por causas naturais diminuíram, e as violentas aumentaram. Morreram mais adolescentes brasileiros por tiro e acidentes de carro e moto, e menos por doenças infecciosas como Aids, ou por problemas cardíacos. Foram e continuam sendo vítimas de causas de morte evitáveis, que podem ser amainadas por políticas públicas. Esse não é o único impacto sobre a longevidade. É na adolescência que se formam os hábitos alimentares que vão influenciar a saúde pelo resto da vida.
A adolescência tardia também tem consequências positivas, principalmente econômicas. A extensão do período sob o mesmo teto dos pais permite aos adolescentes permanecerem mais tempo na escola. Por isso as novas gerações têm potencial para formarem a força de trabalho mais qualificada que o Brasil já teve, com impactos positivos sobre a produtividade e a renda. Mas para esse potencial se concretizar é preciso que haja oportunidades de emprego compatíveis com essa escolaridade mais alta.
O ano de 2011 foi rico em exemplos de como a adolescência estendida tem impactos profundos sobre áreas improváveis, como a política. Os levantes árabes foram impulsionados por essa população adolescente, gente tão jovem quanto os indignados espanhóis, os saqueadores de Londres e os ocupadores de Wall Street. Todos eles buscando seu lugar na sociedade e topando com obstáculos maiores do que seus pais para encontrá-lo. E enquanto não encontram, sua adolescência é interminável.
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Mensagem conjunta da ONU e da Unesco
8 mai 2012
Liberdade de expressão é um dos nossos direitos mais preciosos. Sustenta toda a liberdade aos outros e fornece uma base para a dignidade humana. Imprensa livre, pluralista e independente é essencial para o seu exercício. Esta é a mensagem do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A liberdade de imprensa implica a liberdade de ter opiniões e de procurar receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras, como previsto no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Essa liberdade é essencial para as sociedades saudáveis e dinâmicas.
As mudanças no mundo árabe demonstraram o poder das aspirações de direitos, quando combinado com novas e velhas mídias. A recém-descoberta liberdade de imprensa está prometendo transformar as sociedades através de uma maior transparência e responsabilidade. É abrir novas formas de comunicar e compartilhar informações e conhecimentos. Poderosas novas vozes estão mais altas – especialmente as dos jovens – onde ficavam caladas antes. É por isso que este ano o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa é centrado no tema “Novas vozes: a liberdade da mídia ajudando a transformar sociedades”.
A liberdade de imprensa também enfrenta pressões severas em todo o mundo. No ano passado, a Unesco condenou o assassinato de 62 jornalistas que morreram em decorrência do exercício da função. Esses jornalistas não devem ser esquecidos e os crimes não devem permanecer impunes. Como a mídia se move virtualmente, outros jornalistas online, incluindo blogueiros, estão sendo perseguidos, atacados e mortos por seu trabalho. Eles devem receber a mesma proteção que os trabalhadores tradicionais da mídia.
Em 13 e 14 de setembro de 2011, foi realizada na Unesco a primeira reunião interinstitucional das Nações Unidas sobre a segurança dos jornalistas e a questão da impunidade. Foi produzido um plano de ação da ONU para construir um ambiente mais livre e seguro para os jornalistas e profissionais de mídia em todos os lugares. Ao mesmo tempo, continuaremos a fortalecer as bases legais para a mídia livre, pluralista e independente, especialmente em países submetidos à transformação ou à reconstrução após conflito. Em um momento de sobrecarga de informação, temos que ajudar especialmente os jovens a desenvolver habilidades críticas e um melhor conhecimento de mídia.
O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa é a nossa oportunidade de levantar a bandeira na luta para avançar na liberdade dos meios de comunicação. Apelamos aos Estados, meios profissionais e organizações não governamentais em todos os lugares para unir forças com as Nações Unidas para promover a liberdade online e offline de expressão, de acordo com princípios internacionalmente aceitos. Este é um dos pilares dos direitos individuais, uma base para sociedades saudáveis e uma força de transformação social.
(Fonte: Observatório da Imprensa)
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Queria hoje escrever apenas com o coração
1 mai 2012

Queria hoje escrever apenas com o coração.
Nada de dedos e muito menos de teclado.
Queria escrever com ondas do mar, dessas em que a crista se sobressai.
Nada de lamentar o tempo perdido e muito menos fazer considerações sobre o que ainda há de vir.
Queria escrever com o sentimento mais puro e por isso mesmo, mais refinado e precioso.
Nada de rebuscar lenha colocada na fornalha da mente, sempre fumegante.
Queria escrever apenas com os olhos, olhos que vêem perfeição.
Nada de olhos que buscam a todo momento aperfeiçoar o imperfeito.
Queria escrever tudo em tonalidades de azul, do escuro ao claro, passando pelo meio, onde nuvens poderiam ser colocadas sem alterar um piscar de olhos da paisagem.
Nada de cores muito sóbrias e sombrias e muito menos de furta-cores.
Queria escrever com a luz decrescente do sol que se põe, as palavras seriam fulgores arroxeados, as frases seriam claras como o luar depois das onze da noite.
Nada de luzes ofuscantes, holofotes exagerados, nada que incadesce a pupila e cansa a vista.
Queria escrever palavras em fogo líquido, sendo derramadas pouco a pouco sobre minha consciência, deixando marcas e mais marcas.
Nada de coisas que queimam e machucam a sensibilidade.
Queria escrever sinais de fumaça sem usar parágrafos longos e sem fazer uso de verbos intransitivos.
Nada de sinais muito permanentes e muito menos desses que demoram muito a se evaporar.
Queria escrever mil páginas com um só sopro, sopro de vida, sopro de alma.
Nada de lufadas criando sensações de desalinho e de desalento.
Queria escrever um bilhete que começasse assim: “Apesar de tudo, nunca me afastei de ti.”
Nada de bilhetes rebuscados, com vocativos e saudações finais.
Queria escrever uma frase que começasse assim: “E amanheceu em meu coração uma nova sensação, uma sensação de que faço parte do todo.”
Nada de frases banais e corriqueiras nem de pedaços de pensamento que o tempo de encarregou de lhes dar cabo.
Queria escrever um poema sem nome, desses que se acerta com o nome à medida que se vai lendo.
Nada de poemas fabricados com as placas duras e cinzentas do concreto que tanto se enraízam em Brasília.
Queria escrever um verso que pudesse ser lido de mil diferentes maneiras.
Nada de métrica nem de observação a teorias literárias.
Queria escrever apenas manchetes para jornais.
Sem notas explicativas e sem seções do tipo “entenda o caso”. A própria manchete daria conta do recado.
Queria escrever uma palavra de consolo e esperança aos que tombam, inocentes, nas guerras inúteis e sem sentido que povoam nossos noticiários.
Nada de lágrimas de luto nem de desespero incontido.
Queria, como o poeta, compor uma sinfonia que contivesse uma pausa de mil compassos.
Nada de novos ritmos, frenéticos, bem arrumadinhos e nem extremamente delirantes.
Queria escrever algo duradouro como a criança escreve seu nome e faz um desenho à beira-mar, inconsciente da onda que se aproxima, inexorável.
Nada de tratados verborrágicos nem de verbetes para aprisionar o senso comum.
Queria escrever traços que me lembrassem de todos os que amei, amo e virei a amar.
Nada de imagens fugidias que em nada marcaram minha peregrinação pela vida.
Queria escrever a quem me alfabetizou que fiz bom uso da maioria das letras do alfabeto.
Nada de x, y ou z e muito menos de palavras que vagam pelos dicionários sem qualquer senso de direção, desnorteadas em meio a tantos milhares de verbetes.
Queria escrever como quem leva flores ao túmulo dos vencidos da Terra.
Nada de algazarra nem de piedosas intenções.
Queria escrever aos meus companheiros de viagem que continuem o que deve ser continuado e que vivam cada dia como se fosse o seu último dia.
Nada de conselhos, provérbios populares, histórias que foram recolhidas na terceira margem do rio da vida.
Queria escrever aos amigos que conheci ainda aos dezessete anos, algo que começasse assim com a sentença forte do “a gente ainda nem começou…”
Nada de planos e projetos de caminhada a dois, a três ou a quatro e muito menos de multidões desencantadas de futuros amigos.
Queria escrever um testamento que tivesse a leveza do vôo do bem-te-vi, suspenso no ar como se presenciasse o milagre da insustentável leveza do espírito.
Nada de coisas materiais e imateriais e nada de nome de possíveis herdeiros.
Queria escrever neste momento meu epitáfio: “Nasceu. Viveu. Sonhou”.
Nada de triste e profundo, nem muito menos algo que lembrasse que passei por aqui.
Queria escrever para os meus mortos mais queridos e mais amados e dizer o que não foi dito enquanto aqui estiveram.
Nada de angústias, lamúrias, lamentações.
Queria escrever para o Abbas na velocidade do som e dizer-lhe que ele vive e sobrevive escondido no íntimo de minha fé. E lhe dizer que nunca envelhecerá: será sempre feliz, cabelos ao vento, sorriso aberto.
Nada de contar o que aconteceu despois do 4 de outubro de 2005.
Queria escrever o que não pode ser escrito.
Mas que pode, muito bem, ser sonhado, amado e vivido. -
Eugênio Bucci: A imprensa livre deve prestar contas ao leitor
21 abr 2012
“Uma imprensa que não se antecipa a compartilhar com a sociedade os seus critérios editoriais, os seus métodos e as suas condutas operacionais tem menos chances de ser defendida ativamente pelo seu próprio leitor. É ele, o público leitor, que tem direito à imprensa livre – é, portanto, a ele que a imprensa livre deve prestar contas. O cidadão tem mais apreço pelo jornalismo quando é convidado a compreendê-lo, a fiscalizá-lo e a sustentá-lo. No mais, uma imprensa que não pratica a transparência tem menos autoridade para cobrá-la do Estado.” (Eugênio Bucci, jornalista, professor da ECA-USP e da ESPM)
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Todos os dias são dos índios
19 abr 2012
“Leve nosso clamor, a nossa voz para outros territórios que não são nossos, mas que o povo, uma população mais humana lute por nós, porque o nosso povo, a nossa nação indígena está desaparecendo do Brasil. Este é o país que nos foi tomado.” (Marçal de Souza, da tribo Guarani)****
Hoje é o Dia do Índio. Mas não deveria ser assim. Todos os dias são dias dos índios. O mesmo com as mulheres: todos os dias são dias das mulheres. Meu primeiro livro foi “Estamos desaparecendo da Terra”, é de 1991. O título já era uma denúncia. Estávamos nos acercando a Cúpula da Terra (Eco92). A verdade é que hoje é mais um dia triste para todos os que lutam pelos direitos humanos.
Os índios são os verdadeiros condenados da Terra: sem terras, sem meios que assegurem sua sobrevivência, motivo do escárnio do homem branco, alvo de ridículo da dita sociedade civilizada e sempre às voltas com fazendeiros, posseiros. Nada a comemorar neste 19 de abril. Os índios estão aprisionados em uma impenetrável solidão de espírito. E fomos nós que os aprisionamos.
Viva Marçal. Uma lástima que este bravo Guarani tenha sido assassinado ainda nos primeiros anos de 1980. Eu o conheci. E sinto imensa falta dele e de sua voz ecoando em Manaus, quando em momento de profunda comoção, representando as nações indígenas do Brasil, ousou devolver ao Papa João PauloII, um exemplar da Bíblia, com estas palavras: “Receba Santo Padre, esta Bíblia… ela foi a causa de nossa miséria, de nossa escravidão, de nosso sofrimento. Nós nem conhecíamos o pecado, nem os impostos. Eramos feliz e, de repente, tudo desapareceu. Receba-a de volta. Muito obrigado.”
Leonardo Boff me contou, tempos depois, que a reação do Papa foi ”… então, naquele silêncio, ele baixou a cabeça… e chorou.” Leonardo me dissera que Marça havia sido muito bem “instruído” por padres sobre o que deveria ser sua locução a…o Pontífice, haviam inclusive preparado um longo discurso escrito, com bom espaçamento etc., mas que na hora, Marçal deixou o discurso de lado, pegou uma Bíblia, ergueu-a e despejou o que estava há muito represadoem seu coração. Estaé a história.
Aqui, um pouco mais sobre quem foi Marçal. Marçal de Souza, Tupã-i, ou ainda Tupã-Y, que significa “pequeno Deus”, nasceu em Rincão Júlio, região de Ponta Porã (MS) no dia 24 de dezembro de 1920, foi assassinado em 25 de novembro de 1983 em emboscada feita por fazendeiros.
Recentemente Tupã-i foi condecoradocom a honrade Herói Nacional do Brasil pelo governo federal. Como sempre, índio só é admirado, louvado, condecorado, passa a ser nome de praça, rua e avenida… depois de morto.
Pois bem, quando lancei meu livro na Eco92, durante a Conferência dos Povos Indígenas, chamada “Quinhentos anos de resistência”, fui o único branco convidadoa dirigir a palavraaos representantes de dezenas de nações indígenas do Brasil e outras dezenas vindas de todas as Américas. Naquela ocasião, homenageei Marçal, falei de sua nobreza de caráter e destemor diante dos poderosos. Os índios prendiam a respiração e tudo era a mais pura emoção. Ao final, um rapaz índio Kaiapó veio meu abraçar,com olhosavermelhados e disse-me um tanto encabulado: “Professor, queria muito que meu avô estivesse vivo e estivesse hoje aqui, apenas para ouvir o senhor falar bem da gente. Nunca pensei que um dia seríamos tão bem falados.” Choramos. Nós dois.
Ainda sobre Marçal, na condição de representante da comunidade indígena para discursar em homenagem ao papaJoão PauloII durante sua primeira visita ao Brasil, em 1980, é oportuno resgatar essas suas outras afirmações em discurso ao pontífice: “Nossas terras são invadidas, nossas terras são tomadas, os nossos territórios são invadidos… Dizem que o Brasil foi descoberto. O Brasil não foi descoberto não, o Brasil foi invadido e tomado dos indígenas do Brasil. Essa é a verdadeira história”.
Ainda em 1980, Marçal (Tupã-i) envolve-se na luta pela posse de terras na área indígena de Pirakuá,em Bela Vista. Ademarcação é contestada pelo fazendeiro Astúrio Monteiro de Lima e seu filho Líbero Monteiro, que consideram a região parte de sua propriedade. Após diversas ameaças e agressões, em 25 de novembro de 1983, Tupã-i é assassinado a tiros no rancho de sua casa, na aldeia Campestre. Os acusados do crime, Líbero Monteiro de Lima e Rômulo Gamarra, acabam absolvidos em julgamento realizado somente dez anos depois, em 1993.
Um pouco antes da sua morte ele teria dito: “sou uma pessoa marcada para morrer, mas por uma causa justa a gente morre…”. O dia de seu assassinato – 25 de novembro – é sim, o verdadeiro dia para se homenagear todos os povos indígenas do Brasil. O resto é querer tirar onda porque se sente prepotente. Coisas de nossa sociedade.
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Claude Lelouch: Les uns et les autres, Retratos da Vida
19 abr 2012
Um dos filmes mais famosos do francês Claude Lelouch. Com dança, música e guerra, ele fez um grande painel que começa em 1936 e vai até os anos 80. Lelouch mostra os caminhos cruzados de quatro famílias e em quatro cantos do mundo: Moscou, Paris, Berlim e Nova York. De alguma forma, as quatro famílias têm os seus caminhos ligados à Segunda Guerra.
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Samy Adrghini: “Não há diversão no islã”
17 abr 2012
Meses depois de fundar a República Islâmica do Irã, em 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini fez um discurso em cadeia nacional de rádio que definiu boa parte do padrão social e cultural promovido até hoje pelo regime.Khomeini declarou o seguinte:
“Alá não criou o homem para que ele pudesse se divertir. O objetivo da criação é pôr à prova a humanidade por meio de dureza e oração. Um regime islâmico deve ser sério em todos os aspectos. Não há piadas no islã. Não há humor no islã. Não há diversão no islã. Não pode haver diversão e alegria naquilo que é sério. O islã não permite nadar no mar e se opõe a seriados de rádio e televisão. O islã, entretanto, permite tiro ao alvo, andar a cavalo e competição”
A fala ecoa em todos os aspectos da vida no Irã de hoje. Difícil achar por aqui alguém que não conheça esse discurso. Mesmo duas décadas após a sua morte, Khomeini continua onipresente _para satisfação de uns e desgosto de outros. A cara de mau do aiatolá espalhada por incontáveis outdoors e murais espalhados nos mais diversos recantos do país parece vigiar o respeito às regras que ele impôs.
A lei iraniana não estipula abertamente o veto ao humor e à diversão. Mas a Revolução Islâmica aboliu bares, álcool, discotecas, shows e festasem lugares públicos. Músicaé área reservada aos homens, que só podem cantar ou tocar instrumentos após submeter suas obras à avaliação do regime.
Dias atrás o governo anunciou que proibirá aulas de dança e canto nos jardins de infância por considerar as práticas “imorais” (reportagem completa na Folha de hoje, só para assinante). Em compensação, as crianças desde cedo aprendem tudo sobre a temática mórbida dos mártires, obsessão do regime. Os principais feriados religiosos têm a ver com as sanguinolentas mortes dos imãs Ali e Hussein, descendentes do profeta Maomé que originaram a facção xiita dentro do islã. Em todas as cidades há murais com os rostos sérios, geralmente reprodução de fotos de identidade, de soldados mortos na guerra contra o Iraque do então aliado do Ocidente Saddam Hussein (1980-1988).
Nos primeiros anos da revolução as pessoas praticamente só usavam roupas escuras. Mulheres evitavam sair de casa maquiadas. Hoje em dia muitas iranianas andam nas ruas enfeitadas até as unhas. Há inclusive véus e roupas em tons berrantes, mas que ainda destoam do preto predominante na multidão. Os escassos programas de humor no rádio e na TV são caretas ao extremo. Conversas sobre pegação e namoros só ocorrem entre amigos íntimos. Nenhum taxista se atreveria a comentar com um passageiro sobre a belezura que acaba de atravessar a rua.
As cidades são todas austeras e sisudas. Os prédios quase só têm tons marrons ou cinzas, embora em Teerã o atual prefeito tenha mandado instalar dezenas de painéis coloridos abstratos. Os poucos outdoors publicitários evitam mostrar pessoas e quando o fazem, os eventuais sorrisos são pra lá de contidos.
Mas esta ideia de um islã incompatível com a alegriade viver é amplamente rejeitada. O humor e as artes, aliás, são características comuns em quase todas as sociedades muçulmanas, do Marrocos à Indonésia, passando por Senegal e Egito. Prevalece na maioria dos países de fé islâmica a cultura da festa e da ironia, sob formas muito diferentes, é claro. Sim, há outros lugares ultrapuritanos além do Irã, como Arábia Saudita e Paquistão, mas a felicidade cabe perfeitamente no islã.
Alguns teólogos sustentam até que o Corão é muito mais bem resolvido do que a Bíblia ou a Torá no que diz respeito aos prazeres da vida. No islã, a vida e os sentidos são um presente de Deus aos homens e devem ser aproveitados sem culpa, desde que de forma lícita. O sexo, inclusive, está longe de ser um tabu na fé islâmica, segundo o sociólogo tunisiano Abdelwahab Bouhdiba, autor de “A sexualidade no islã” (lançado no Brasil pela editora Globo). Bouhdiba sustenta que o homem e a mulher foram feitos para dar prazer um ao outro uma vez casados. Machismos à parte, eis um trecho pouco conhecido do Corão: “Vossas mulheres são, para vós, como campo lavrado. Então, achegai-vos a vosso campo lavrado, como e quando quiserdes.” (2:223).
Muito estudiosos dizem que o islã em sua forma mais rígida só cresceu e se propagou na era moderna. Afirmam ainda que pensadores, teólogos e clérigos muçulmanos de antigamente eram muito mais hedonistas e liberais que os atuais. Há abundantes relatos de viajantes islâmicos dos séculos passados que voltavam para casa espantadoscom a intransigênciamoral que dominava então as sociedades europeias.
Essas contradições estavam presentes até no espírito de Khomeini. O mesmo homem que decretou não haver diversão no islã também afirmou: “o fato de eu ter dito alguma coisa não significa que eu deva ficar preso ao que eu disse”.
(Samy Adghirni é correspondente da Folha de S.Paulo em Teerã)
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Luiz Cláudio Cunha: Os dez livros fundamentais do jornalismo
17 abr 2012
É difícil e injusto estabelecer um filtro, sempre indevido, para as obras que são importantes ou marcam a vida de um jornalista, até pela visão pessoal e diversa de cada um. Mas, ao longo do tempo, existem bons exemplos de contadores de histórias que resumem este ofício. A começar pelo mais antigo de todos, o ateniense Tucídides, do quinto século antes de Cristo, que pode ser considerado de fato o primeiro repórter da história, mesclando nele as virtudes e os atributos que a academia identifica no profissional da imprensa: o historiador do presente, o repórter da atualidade que, pelo conhecimento acumulado, acaba de fato registrando a história do passado que vai prevalecer no futuro. Minha lista dos “Dez Mais” pode ser discutida, contestada, certamente é incompleta pela injusta restrição da dezena, mas todos os exemplos abaixo trazem um ou outro atributo essencial da profissão: o testemunho do repórter, o talento do texto, o sabor da frase, o tempero da inteligência, a relevância da história, qualidades que podem garantir a eternidade do reconhecimento para um trabalho geneticamente amaldiçoado pelo efêmero, pelo transitório, pelo passadiço. Estes textos, estes autores, nunca passaram, nunca passarão. Ficaram na história. E na minha memória.
Minha lista dos “Dez Mais”:
1. A Primeira Vítima, de Phillip Knightley (lançamento, 1975) Phillip Knightley, repórter do The Times e do The Sunday Times de Londres, disseca aqui o sonho profissional de muitos jornalistas: a função de correspondente de guerra. Das frentes de batalha da Criméia (1854) ao Vietnã (1975), Knightley desfia uma coleção espantosa de histórias que tornam o jornalismo uma experiência de vida fascinante. Uma edição mais recente, de 2000, inclui relatos de correspondentes do conflito das Malvinas, da primeira guerra do Golfo e dos combates no Kosovo. Um livro soberbo, viciante, que conta histórias reais que parecem inventadas por serem tão inacreditáveis. Mas é apenas a essência da reportagem, deslizando sobre o gume quente, afiado, arriscado, eventualmente letal dos conflitos humanos.
2. A História da Civilização, de Will Durant (lançamento entre 1935 e 1975) O historiador e filósofo Will Durant produziu uma prodigiosa história do mundo em onze volumes, os últimos cinco deles em autoria com sua mulher, Ariel Durant. É a série historiográfica de maior sucesso editorial de todos os tempos, redigida ao longo de quatro décadas num estilo leve, agradável, bem humorado, inteligente, irônico, sem nunca perder a densidade, o contexto e a abrangência de 25 séculos da civilização. No volume sexto, sobre a Reforma, ao descrever um afamado humanista francês do século 16, Guillaume Budé, que se dizia “companheiro, sócio e amante da filosofia”, Durant dá um exemplo de sua picardia: “[Budé] lamentava que tivesse de roubar tempo aos estudos para comer e dormir. Em um momento de distração, casou-se e teve 11 filhos”. Quando se lê a última linha do último volume, dá vontade de começar tudo outra vez. Não existe maior homenagem a um contador da história.
3. Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Winston Churchill (lançamento entre 1948 e 1954) Figura decisiva da guerra, o primeiro ministro inglês Winston Churchill teve a férrea disciplina de registrar toda noite, sob os bombardeios da Luftwaffe sobre Londres, a rotina dramática das graves decisões que influíram no maior conflito da história humana. Tirou dali, com o talento de sua prosa inigualável, o mais rico relato da resistência ao nazismo e da vitória aliada, em seis volumes envolventes de 4.135 páginas na edição inglesa (a brasileira, num único volume, tem 1.193 páginas) que lhe deram em 1953 o Nobel de Literatura. Concentrava nele o papel de um jornalista talentoso que era, simultaneamente, um dos maiores estadistas do mundo num momento singular da história. Uma dupla raridade que desponta, íntegra, nesta obra impressionante pela dimensão dos fatos e dos personagens.
4. Todos os Homens do Presidente, de Bob Woodward e Carl Bernstein (lançamento em 1974) A reportagem política de maior impacto do Século 20. A investigação de dois repórteres obstinados (Bob Woodward e Carl Bernstein) e de um jornal determinado (The Washington Post) confronta o presidente mais vigarista (conhecido como Dick Tricky) da história americana, desafiando a Casa Branca e as mentiras do homem mais poderoso do mundo. Um clássico do jornalismo como ofício ético devotado à denúncia de um poder imoral e a serviço do interesse público. Tem a carga elétrica de um thriller policial com a dramaticidade de um evento real, que levou Nixon à renúncia e deu ao jornalismo a enganosa indulgência do mito.
5. Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon (lançamento entre 1776 e 1788) Obra em seis volumes do século 18, Declínio e Queda… é o trabalho que deu fama ao historiador e cético iluminista Edward Gibbon, apontado como o autor da primeira ‘obra moderna de história”. Ancorado em fontes primárias, desprezando a interpretação religiosa vigente em tempos de forte influência da Igreja, Gibbon desprezava visões místicas da história para apoiar seu relato em fatos induzidos pela sociedade, pela cultura, pela política. Em três mil páginas, a história de 1.400 anos do esplendor e decadência de Roma imperial descia do plano celestial para a realidade da vida terrena. Dono de um estilo refinado e pujante, com um ritmo literário que dá leveza e elegância à narrativa, Gibbon, já na primeira frase de seu monumental trabalho, exibe a força e a índole de uma obra que sobreviveria ao império dos Césares: “No segundo século da era cristã, o império de Roma abrangia a mais bela parte da terra e o segmento mais civilizado da humanidade”. É a porta de entrada para o que de melhor existe no espírito humano.
6. Os Sete Pilares da Sabedoria, de T.E. Lawrence (lançamento em 1935) Winston Churchill, que entendia do ofício, definiu: “Um dos maiores livros já escritos na língua inglesa”. A guerra de guerrilhas das tribos árabes contra os opressores do império turco, unificadas sob a inesperada liderança de T.E. Lawrence, acontece nas areias escaldantes do deserto, oculta na periferia mais distante e empoeirada da I Guerra Mundial. Ali assoma a figura mítica do arqueólogo que virou militar, do inglês que assumiu a identidade de árabe, do homem anônimo que ganhou a dimensão de lenda ainda em vida como Lawrence da Arábia. Tudo isso graças a este livro autobiográfico escavado no subsolo da memória. Lawrence perdeu todos os manuscritos numa troca de trens, na Inglaterra, em 1919. Insatisfeito com a segunda versão, refeita no ano seguinte, destruiu tudo. A nova e definitiva versão só brotou em 1935, depurada na versão viva, quente, imortal de um dos personagens mais fascinantes da fronteira entre dois mundos, o Ocidente e o Oriente. É um monumento único de estilo, erudição, história, filosofia e reportagem, que inspira e emociona.
7. 1964: a Conquista do Estado, de René Armand Dreifuss (lançamento em 1981) O historiador e cientista político uruguaio René Armand Dreifuss produziu uma obra seminal da história brasileira: desfez a lenda de que a derrubada de João Goulart em 64 foi uma mera quartelada, provando que ela foi resultado de uma científica, longa conspiração de militares, empresários, grande imprensa e a Igreja conservadora, unidos no que foi, de fato, um clássico golpe civil-militar. Confirmou esta tese debulhando documentos, relatórios e atas de arquivos áridos que, tratados com habilidade e visão política, renderam um trabalho devastador, fonte obrigatória para historiadores e exemplo didático para todo repórter no manuseio correto de papéis aparentemente burocráticos. O livro de Dreifuss revelou, para sempre, os nomes ocultos e os ilustres sobrenomes de quem trabalhou para a derrocada do governo constitucional e a tomada do aparelho de Estado para impor ao país a mais longa e sangrenta ditadura (1964-1985) de sua história. Uma aula meticulosa de jornalismo preciso para repórteres interessados nos documentos e arquivos que iluminam a história e jogam luz sobre seus poucos heróis e muitos vilões.
8. Cinco Dias em Londres, de John Lukacs (lançamento em 1999) Autor de três dezenas de livros, a maioria deles sobre o duelo de gigantes entre Winston Churchill e Adolf Hitler no limiar entre civilização e barbárie, o historiador húngaro John Lukacs, naturalizado americano, conseguiu lapidar uma joia histórica neste enxuto (204 páginas), clássico e inovador relato sobre cinco dias cruciais de maio de 1940 que mudaram a história do mundo. Reconta a assunção de Churchill ao poder em maio de 1940, três semanas antes da épica retirada de Dunquerque, quando a vitória nazista e a rendição britânica pareciam iminentes. Percorrendo meandros nunca antes trilhados pela multidão de historiadores que dissecam o rico universo churchilliano, Lukacs descobriu um detalhe instigante do líder britânico recém-chegado ao poder. A teimosa, brava resistência de Churchill entre sexta (24 de maio) e terça-feira (28) contra a corrente derrotista no governo de Londres que defendia uma trégua precoce, quase uma rendição ao poder avassalador da blitzkrieg de Hitler, salvou o mundo de uma impensável capitulação ao nazismo. O trabalho de repórter feito por Lukacs, num livro construído com o suspense do choque de pensamentos que poderia decidir o futuro da humanidade naqueles cinco dramáticos dias, é uma inspiração e um estímulo para o jornalista sagaz e persistente.
9. Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais (lançado em 1994) O livro marca o encontro de duas figuras memoráveis: o repórter Fernando Morais e seu personagem central, Assis Chateaubriand. Conhecido pelo apelido de “Chatô”, era o dono de um império que inaugurou a moderna comunicação no país na primeira metade do Século 20, que ele dominou como uma versão real, ainda mais poderosa do que o Cidadão Kane da ficção do cinema. Chefe de uma corporação que reunia uma centena de emissoras de rádio e TV, jornais e revistas (incluindo a maior do país, a semanal O Cruzeiro), “Chatô” tinha o estilo de um jagunço, a ousadia de um conquistador, a criatividade de um revolucionário, que agia com a determinação invulgar de um homem onde se mesclavam charme, truculência, sedução, brutalidade, invenção, rudeza e modernidade. Era o personagem ideal em busca de um grande repórter. “Chatô” teve a sorte de encontrar Morais, responsável talvez pela mais impressionante biografia do jornalismo brasileiro. O texto brilhante, vivo, abrangente, quase sempre cômico, inevitavelmente trágico, é uma exaltação ao talento do repórter e o ponto supremo do jornalismo biográfico. O Chatô de Fernando Morais é uma aula de Brasil, uma lição para jornalistas e uma delícia para leitores que apreciam uma bela história narrada de forma admirável.
10. História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides (edição inglesa em 1628, brasileira em 1982) O primeiro repórter da história, Tucídides, nasceu em 460 a.C, quando o “pai da história”, Heródoto, era um jovem curioso de 25 anos. Ao contrário do mestre, porém, Tucídides produziria este clássico, fundamento da história como ciência, em oito volumes calcados na experiência e no testemunho direto de quem, como general ateniense, acompanhou a guerra por dentro. Tucídides registrava a história como produto das escolhas e das ações dos seres humanos, não como resultado da ira dos deuses. Desprezando lendas, superstições e relatos de segunda mão, Tucídides preferia ouvir testemunhas oculares e entrevistar participantes dos eventos, relegando a suposta intervenção divina nos assuntos humanos. O tradutor Mário da Gama Kury lembra que Dionísio, um crítico literário nascido quatro séculos depois em Halicarnassos, terra natal de Heródoto, definiu as qualidades maiores de Tucídides, que valem ainda hoje para um bom repórter: “Concisão monolítica, pungência austera, veemência, capacidade de inquietar e comover e, sobretudo, um profundo comando do patético”. O olhar soberano do repórter, como ensina esta longa e viva reportagem realizada no campo de batalha há 25 séculos, quando ainda não existia Google nem Twitter, prova que a receita do bom profissional continua a mesma: é preciso estar lá, para ver e sentir a notícia, sem intermediários.
*** [Luiz Cláudio Cunha é jornalista, autor de Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios — uma reportagem dos tempos da ditadura - Fonte: Observatório da Imprensa]
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Palavras de ‘Abdu’l-Bahá sobre a tragédia do Titanic
13 abr 2012
Centenário do terrível desastre – TITANIC – Palavras de ‘Abdu’l-Bahá, logo após o ocorrido.
(…) Nesses últimos dias aconteceu algo terrível no mundo, um acontecimento que entristece todo coração e aflige toda alma. Refiro-me ao desastre do Titanic, no qual muitos dos nossos semelhantes se afogaram, numerosas almas deslumbrantes passaram para além desta vida terrena. Embora um acontecimento como… este seja realmente lamentável, devemos saber que tudo o que acontece é devido a alguma sabedoria e que nada acontece sem alguma razão. Há um mistério nisso; mas qualquer que seja a razão e o mistério, foi uma ocorrência triste, algo que arrancou lágrimas de muitos olhos e angustiou muitas almas. Eu fui muito afetado por este desastre. Alguns dos que morreram, viajaram conosco no Cedric até Nápoles e depois embarcaram no outro navio (o titanic). Quando penso sobre eles, fico realmente muito triste. Mas quando considero esta calamidade de outro ponto de vista, consolo-me com a percepção de que os mundos de Deus são infinitos; que embora eles tenham sido privados desta existência, eles têm outras oportunidades na vida do além, tal como Cristo disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas.” (João 14:2) Eles foram chamados do temporário e transferidos para o eterno; abandonaram esta existência material e entraram pelos portais do mundo espiritual. Superando os prazeres e confortos da vida terrena, eles agora participam de um júbilo e alegria muito mais duradouros e verdadeiros, pois eles se apressaram para o Reino de Deus. A misericórdia de Deus é infinita, e é nosso dever lembrarmos dessas almas que partiram, em nossas orações e súplicas, para que elas possam se aproximar mais e mais da própria Fonte(…)
Ademais estes acontecimentos têm razões mais profundas. Seu objetivo e propósito é ensinar certas lições ao homem. Vivemos numa época de confiança nas condições materiais. Os homens imaginam que o imenso tamanho e a solidez de um navio, a perfeição de sua maquinaria ou a habilidade do navegador garantem a segurança, mas algumas vezes estes desastres acontecem para que o homem saiba que Deus é o verdadeiro Protetor. Se for a vontade de Deus proteger o homem, um pequeno navio pode escapar da destruição, ao passo que o maior e o mais perfeitamente construído dos navios, com o melhor e mais hábil dos navegadores, pode não sobreviver ao perigo, como aconteceu no oceano. O propósito é que o povo do mundo possa se volver a Deus, o único Protetor; que as almas humanas confiem na Sua proteção e saibam que Ele é a verdadeira salvação.Os acontecimentos ocorrem para que a fé do homem possa crescer e se tornar mais forte. Por isso, embora nos sintamos tristes e abatidos, devemos suplicar a Deus para dirigir nossos corações ao Reino, e orar por essas almas que partiram, com fé em Sua infinita mercê, para que, embora elas tenham sido privadas desta vida terrena, possam desfrutar uma nova existência nas supremas moradas do Pai Celestial. Que ninguém imagine que estas palavras significam que o homem não deve ser completo e cuidadoso nos seus afazeres. Deus dotou o homem de inteligência para que possa se salvaguardar e proteger. Por isso, o homem deve prover e se proteger com tudo que a experiência científica pode produzir. Deve ser determinado, cuidadoso e íntegro em seus propósitos, construir o melhor navio e providenciar o mais experiente capitão; mas que confie em Deus e considere Deus como seu único Protetor. Se Deus proteger, nada pode ameaçar a segurança do homem; e se não houver Sua vontade em proteger, não há preparativo ou precaução que possa ajudar.”Fonte: Palestra proferida por ‘Abdu’l-Bahá, em 23/4/1912, em Washington, D.C.A comunidade bahá’í americana tinha enviado milhares de dólares instando `Abdu’l-Bahá para deixar o navio Cedric, na Itália e, na Inglaterra, navegar na viagem inaugural do RMS Titanic. Ao contrário, ele devolveu o dinheiro para a caridade e continuou a viagem no Cedric até New York.O Titanic chocou-se com um iceberg, aproximadamente às 23:40, do dia 14/4/1912, durante sua viagem inaugural, entre Southampton, na Inglaterra, e Nova York, nos EUA, e afundou duas horas e quarenta minutos depois. Com 2.240 pessoas a bordo, o naufrágio resultou na morte de 1.523 pessoas hierarquizando-o como uma das piores catástrofes marítimas de todos os tempos. O Titanic provinha de algumas das mais avançadas tecnologias disponíveis da época e foi popularmente referenciado como “inafundável”.
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Aprendi em Liechtenstein
21 mar 2012
Em 1912, quando ´Abdu’l-Bahá visitou a Alemanha para uma série de conferências sobre a paz mundial, ele visitou uma cidade onde ocorreu um fato muito interessante. Era uma manhã de sol e o sábio persa, junto com diversos amigos, estava atrasado para um compromisso. Como o lugar era muito próximo do hotel em que estava hospedado, decidiram ir caminhando. De repente, ele muda a direção que estava seguindo e, olhando uma senhora com uma criança de colo no outro lado da rua, resolve cruzar a avenida. Demora um pouco conversando com essa senhora, abraça afetuosamente aquela criança e depois retorna. Está emocionado. Alguém lhe pergunta quem era aquela senhora com a criança. Abdu’l-Bahá responde que era a mãe de uma criança especial. Ficou entendido que o “especial” referia-se ao fato de a criança ser portadora da Síndrome de Down. Então o mestre diz que, quando essas crianças falecem e alcançam a presença de Deus, Ele lhes pergunta: “Como vocês foram tratados em minha Terra?”. E é assim que Deus fica sabendo como está a sua criação, pode avaliar como estão os seres humanos no exercício de virtudes como bondade, amor, compaixão, solidariedade. Essa foi a imensa lição que aprendi naquele minúsculo principado de Liechtenstein. A propósito, como nos comportamos em relação às pessoas portadoras de necessidades especiais?
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