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SÁBADO, 30 DE MAIO DE 2015

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Um mundo sem intolerância é possível?

A mesma Casa de Justiça tem sido como bússola para parte do mundo ao nos oferecer o diagnóstico completo dos desafios hercúleos que nos confrontam e tanto infelicitam: “Líderes de nações bem intencionados e pessoas de boa vontade estão ao abandono na tentativa de reparar as fraturas evidentes na sociedade, e são impotentes para impedir sua expansão. Os efeitos de tudo isso não são somente vistos diretamente no conflito ou no colapso da ordem. Na desconfiança que põe vizinho contra vizinho e rompe laços familiares, no antagonismo de tanta coisa que passa por discurso social, na leviandade com que apelos a motivações humanas ignóbeis são usados para ganhar poder e acumular riquezas – em tudo isso há um sinal inequívoco de que a força moral que sustenta a sociedade esvaiu-se gravemente.”

  • Washington

    • Sou Washington Araújo, jornalista, escritor e professor. Acredito que ‘a Terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos’.

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  • Política

    • As terceirizadoras são vazias de sentido social

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  • Economia

  • Último Assentamento

    • Cuba pode se tornar uma potência em minério e petróleo?

      Cuba vem buscando reservas de petróleo no fundo do mar

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    • ‘Pela primeira vez no Brasil temos gente rica assustada’

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    • Catadora relembra ‘massacre de autoestima’ em lixão de Gramacho

      (Por Fernanda Nidecker)

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    • França: o mais perigoso é a islamofobia (Rogério Faria)

      O atentado fascista em Paris contra a redação da revista semanal “Charlie Hebdo”, que arrebatou a vida de 12 pessoas, entre elas as de quatro cartunistas, Charb, Cabú, Wolinsky e Tignous, deixa uma dupla ou tripla sensação de horror. Ela é agravada por uma espécie de eco amargo e sujo, além de  uma sombra de ameaça iminente e geral. Há, sem dúvidas, o horror da matança por parte de assassinos que, independentemente de suas motivações ideológicas, situaram a si próprios à margem de qualquer ética comum, e por isso mesmo fora de todo marco religioso em seu sentido mais rigoroso e preciso.
      Mas há também o horror pelo fato de suas vítimas se dedicarem a escrever e a desenhar. Não é que alguém não posso prejudicar escrevendo e desenhando – em seguida falaremos disso -; é que escrever e desenhar são tarefas que uma longa tradição histórica compartilhada que se situa no extremo oposto da violência; em se tratando da sátira e do humor, ninguém nos parece mais protegido do que aquele que nos faz rir. Em termos humanos, sempre é mais grave matar o bobo da corte do que o rei, porque o bobo da corte diz o que todos queremos ouvir – ainda que seja improcedente ou até mesmo hiperbólico – enquanto os reis falam somente de si mesmos e de seu poder. Quem mata um bufão mata a própria humanidade. Também por isso os assassinos de Paris são fascistas. Somente os fascistas acreditam que existem objetos não cômicos ou não ridicularizáveis. Somente os fascistas matam para impor seriedade.
      Porém, há ainda um terceiro elemento de horror que tem menos a ver ainda com o ato do que com suas consequências. Agora mesmo – confesso – é o que mais medo me dá. E é urgente advertir. A urgência não é em impedir um crime que já não podemos impedir; também não é condenar os assassinos. Isso é normal e decente, mas não é urgente. Também não é, claro, esbravejar contra o Islã. Pelo contrário. O que é verdadeiramente urgente é alertar contra a islamofobia, exatamente para evitar o que os assassinos querem – e já estão conseguindo – provocar: a identificação ontológica entre o Islã e o fascismo criminoso. A grande eficácia da violência extrema tem a ver com o fato de que se apaga o passado, o que não pode ser evocado sem justificar de alguma maneira o crime; tem a ver com o fato de que a violência é atualidade pura, e a atualidade pura está sempre carregada do pior futuro imaginável. Os assassinos de Paris sabiam muito bem em que contexto estavam perpetrando sua infâmia e que efeitos produziriam.
      O problema do fascismo e de sua violência atualizadora é que se trata sempre de uma resposta. O fascismo está sempre respondendo; todo fascismo se alimenta de sua legitimação reativa em um marco social e ideológico no qual tudo é resposta e tudo é, portanto, fascismo. O contexto europeu (pensemos na Alemanha anti-islâmica destes dias) é a de um fascismo ascedente. Na França, concretamente, este fascismo branco e laico tem alguns protetores intelectuais de muito prestígio que, à sombra da Frente Nacional de Le Pen, agitam o ambiente a partir de púlpitos privilegiados com base no pressuposto, anunciado com falso empirismo e autoridade midiática, de que o Islã é um perigo para a França.
      Pensemos, por exemplo, no último romance do grande escritor Houellebecq, “Submissão” (tradução literal do termo árabe “islã”), em que um partido islâmico ganha da Frente Nacional nas eleições de 2021 e impõe a “charia” na pátria das luzes. Ou pensemos no grande êxito das obras do ultradireitista Renaud Camus e do jornalista político do jornal “Le Figaro” Eric Zemour. O primeiro é autor de “Le grand remplacement”, em que se defende a tese de que o povo francês está sendo “substituído” por outro, neste caso – obviamente – composto por muçulmanos alheios à história da França. O segundo, por sua vez, escreveu “O suicídio francês”, um grande sucesso de vendas que reabilita o general Petain e descreve a decadência do estado-nação, ameaçado pela traição das elites e pela imigração. Faz alguns dias que o escritor Edwy Plenel, no “Le Monde”, referia-se a estas obras como depósito de uma “ideologia assassina” que “está preparando a França e a Europa para uma guerra”: uma guerra civil, diz – “da França e da Europa contra elas mesmas, contra uma parte de seus povos, contra esses homens, essas mulheres, essas crianças que vivem e trabalham aqui e que, graças às armas do preconceito e da ignorância, foram previamente construídos como estrangeiros em razão de seu nascimento, sua aparência ou suas crenças”.
      Este é o fascismo que estava já presente na França e que agora “reage” – puro e presente – diante da “reação” – pura atualidade assassina – dos islâmicos fascistas de Paris. Dá muito medo pensar que, às 7 da noite, enquanto escrevo estas linhas, o trending tipic mundial no Twitter, após o tranquilizador e emocionante “Je suis Charlie”, é o aterrorizante “matar todos os muçulmanos”.
      A islamofobia tem tanto fundamento empírico – nem mais nem menos – do que o islamismo jihadista;  os dois, de fato, são fascistas reativos que se ativam reciprocamente, incapazes de fazer essas distinções que caracterizam a ética, a civilização, o direito: entre crianças e adultos, entre civis e militares, entre reis e bobos da corte, entre indivíduos e comunidades. “Mate todos os infiéis” é contestado e precedido por “mate todos os muçulmanos”. Mas há uma diferença.   Enquanto se exige que todos os muçulmanos do mundo condenem a atrocidade de Paris e todos os dirigentes políticos e religiosos do mundo muçulmanos condenem, sem exceções, o ocorrido, o “mate todos os muçulmanos” é justificado de alguma forma por intelectuais e políticos que legitimam com sua autoridade institucional e midiática a criminalização de cinco milhões de franceses muçulmanos (e de outros milhões mais em toda a Europa).
      Essa é a diferença – sabemos isso historicamente – entre o totalitarismo e o delírio marginal: o totalitarismo é o delírio naturalizado, institucionalizado, compartilhado ao mesmo tempo pela sociedade e pelo poder. Se, além disso, nos lembrarmos de que a maior parte das vítimas do fascismo jihadista no mundo também são muçulmanas – e não ocidentais –, deveríamos talvez medir melhor nosso senso de responsabilidade e de solidariedade. Pinçados entre dois fascismos reativos, os perdedores são os de sempre: os imigrantes, os esquerdistas, os bobos da corte, as populações dos países colonizados. Uma das vítimas dos islâmicos, por certo, era policial. Chamava-se Ahmed Mrabet e era muçulmano.
      Do jihadismo fascista, não espero senão fanatismo, violência e morte. Ele me repugna, mas me dá menos medo do que a reação que precede – valha o paradoxo einsteniano – seus crimes. O “matai todos os muçulmanos” está, de alguma forma, justificado pelos intelectuais que “preparam a guerra civil europeia” e pelos próprios políticos que respondem aos crimes com discursos populistas religiosos laicos.
      Quando Hollande e Sarkozy falam de “um atentado aos valores sagrados da França” para se referir à liberdade de expressão, estão raciocinando da mesma forma que os assassinos dos caricaturistas da “Charlie Hebdo”. Não aceito que um francês me diga que defender os valores da França implica necessariamente defender a liberdade de expressão. Por mais laica que se pretenda, essa lógica é sempre religiosa. Não temos que defender a França; temos que defender a liberdade de expressão. Porque defender os valores da França é talvez defender a revolução francesa, mas também o Termidor; é defender a Comuna, mas também os fuzilamentos de Thiers; é defender Zola, mas também o tribunal que condenou Dreyfus; é defender Simone Weil e René Char, mas também o colaboracionismo de Vichy; é defender Sartre, mas também as torturas da OAS e o genocídio colonial; é defender maio de 68, mas também os bombardeios de Argel, Damasco, Indochina e, mais recentemente, Líbia e Mali. É defender agora, frente ao fascismo islâmico, a igualdade diante da lei, a democracia, a liberdade de expressão, a tolerância e a ética, mas também defender a destruição de tudo isso em nome dos valores da França.
      Dá muito medo ouvir falar dos “valores da França”, “da grandeza da França”, da “defesa da França”. Ou defendemos a liberdade de expressão ou defendemos os valores da França. Defender a liberdade de expressão – e a igualdade, a fraternidade e a liberdade – é defender a humanidade inteira, viva onde viver ou acredite no Deus em que acreditar. A frase “os valores da França”, pronunciada por Le Pen, Hollande, Sarkozy ou Renaud Camus não se distingue em nada da frase “os valores do Islã”, pronunciada por Abu Bakr Al-Baghdadi. São, na realidade, o mesmo discurso frente a frente, legitimado por sua própria reação assassina, que bombardeia inocentes de um lado e metralha inocentes do outro. Perdem os de sempre, os que perdem quando dois fascismos não deixam nem o menor resquício para o direito, a ética e a democracia: os de baixo, os do lado, os pequenos, os sensatos. Disso sabemos muito na Europa, cujos grandes “valores” produziram o colonialismo, o nazismo, o stalinismo, o sionismo e o bombardeio humanitário.
      Dois mil e quinze mal começa. Em 1953, “refugiado” na França, o grande escritor negro Richard Wright escrevia contra o fascismo que “temia que as instituições democráticas e abertas não sejam mais do que um intervalo sentimental que precede o estabelecimento de regimes inclusive mais bárbaros, absolutistas e pós-políticos”. Proteger-nos do fascismo islâmico é proteger nossas instituições abetas e democráticas – ou o que sobrou delas – do fascismo europeu. A islamofobia fascista, na Europa e nas “colônias”, é agrande fábrica de islâmicos fascistas e tanto uma como outra são incompatível com o direito e a democracia, os únicos princípios – e não “valores” – que ainda poderiam nos salvar. Boa parte de nossas elites políticas e intelectuais estão mais interessadas no contrário.
      Descansem em paz nossos alegres e valentes companheiros bufões da “Charlie Hebdo”. E que ninguém em seu nome levante a mão contra um muçulmano nem contra o direito e a ética comuns. Essa sim seria a verdadeira vitória dos fascismos dos dois lados.
      (*) O Rebelión publicou este artigo com a autorização do autor mediante uma licença Creative Commons, respeitando sua liberdade para publicá-lo em outras fontes.

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