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DOMINGO, 25 DE JANEIRO DE 2015

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Revolução Francisco

O Papa Francisco tem mais de 12 milhões de seguidores. Segui-lo no twitter é uma experiência muito interessante: em tudo se posiciona, nada é dogma, nada parece ser tabu e o que importa mesmo para o Papa é manter esse que é o maior luxo humano – o luxo das relações humanas. Mas não bastaria saber usar a rede social, no caso de Francisco os bons resultados brotam de seu – digamos – estilo, a sua linguagem direta do Papa, as suas atitudes, e o seu estilo de vida bastante despojado para um Papa. O conjunto é que toca em profundidade e suscita um grande interesse, um grande entusiasmo por parte de milhões de pessoas em todo o mundo, católicos ou não, uma vez que a espiritualidade não tem proprietário e nem é marca registrada deste ou daquele credo.

  • Washington

    • Sou Washington Araújo, jornalista, escritor e professor. Acredito que ‘a Terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos’.

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  • Política

    • Execução ‘abala vida de fantasia’ de traficantes brasileiros na Indonésia

      A escritora australiana conheceu Rodrigo Gularte (à esquerda) e Marco Archer no ‘corredor da morte’ na Indonésia.
      “Nevando em Bali”, livro que expõe em detalhes o submundo das drogas na mais famosa ilha do arquipélago que forma a Indonésia, chama a atenção não apenas pela descrição da mistura de crime e hedonismo no paraíso turístico que recebe mais de 2 milhões de visitantes por ano.
      Muitos dos traficantes entrevistados pela escritora e jornalista australiana Kathryn Bonella para o livro eram brasileiros. Entre eles, Marco Archer, que no último sábado (17) se tornou o primeiro brasileiro executado no exterior.
      Para Bonella, no entanto, o mais significativo foi o fato de Archer ter sido também o primeiro ocidental a receber a pena de morte na Indonésia. (mais…)

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  • Cultura

    • O Império do Consumo, por Eduardo Galeano

      A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe a conta, fica bêbado em dobro. A gandaia aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço.
      Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.
      Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é uma coisinha à-toa quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.
      «Gente infeliz, essa que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevidéu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações».
      Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
      O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a «obesidade mórbida» aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.
      Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.
      A Copa do Mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.
      As filas na frente do McDonald´s de Moscou, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloqüência quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se em um restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness.
      As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.
      Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.
      Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.
      Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?
      O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não trás felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro trás algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.
      Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos.
      As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio.
      Enquanto o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam «porque as pessoas sentem gosto em juntar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo, encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas?Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?
      O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos.
      Os terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.
      Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.
      A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada à serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.
      Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.
      Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.
      Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.
      Tradução: Verso Tradutores

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  • Último Assentamento

    • Catadora relembra ‘massacre de autoestima’ em lixão de Gramacho

      (Por Fernanda Nidecker)

      “Difícil não foi conviver com o lixo, difícil foi não virar lixo.” Assim Gloria Cristina dos Santos resume o que enfrentou durante os 14 anos em que trabalhou como catadora no antigo aterro sanitário de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.

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    • França: o mais perigoso é a islamofobia (Rogério Faria)

      O atentado fascista em Paris contra a redação da revista semanal “Charlie Hebdo”, que arrebatou a vida de 12 pessoas, entre elas as de quatro cartunistas, Charb, Cabú, Wolinsky e Tignous, deixa uma dupla ou tripla sensação de horror. Ela é agravada por uma espécie de eco amargo e sujo, além de  uma sombra de ameaça iminente e geral. Há, sem dúvidas, o horror da matança por parte de assassinos que, independentemente de suas motivações ideológicas, situaram a si próprios à margem de qualquer ética comum, e por isso mesmo fora de todo marco religioso em seu sentido mais rigoroso e preciso.
      Mas há também o horror pelo fato de suas vítimas se dedicarem a escrever e a desenhar. Não é que alguém não posso prejudicar escrevendo e desenhando – em seguida falaremos disso -; é que escrever e desenhar são tarefas que uma longa tradição histórica compartilhada que se situa no extremo oposto da violência; em se tratando da sátira e do humor, ninguém nos parece mais protegido do que aquele que nos faz rir. Em termos humanos, sempre é mais grave matar o bobo da corte do que o rei, porque o bobo da corte diz o que todos queremos ouvir – ainda que seja improcedente ou até mesmo hiperbólico – enquanto os reis falam somente de si mesmos e de seu poder. Quem mata um bufão mata a própria humanidade. Também por isso os assassinos de Paris são fascistas. Somente os fascistas acreditam que existem objetos não cômicos ou não ridicularizáveis. Somente os fascistas matam para impor seriedade.
      Porém, há ainda um terceiro elemento de horror que tem menos a ver ainda com o ato do que com suas consequências. Agora mesmo – confesso – é o que mais medo me dá. E é urgente advertir. A urgência não é em impedir um crime que já não podemos impedir; também não é condenar os assassinos. Isso é normal e decente, mas não é urgente. Também não é, claro, esbravejar contra o Islã. Pelo contrário. O que é verdadeiramente urgente é alertar contra a islamofobia, exatamente para evitar o que os assassinos querem – e já estão conseguindo – provocar: a identificação ontológica entre o Islã e o fascismo criminoso. A grande eficácia da violência extrema tem a ver com o fato de que se apaga o passado, o que não pode ser evocado sem justificar de alguma maneira o crime; tem a ver com o fato de que a violência é atualidade pura, e a atualidade pura está sempre carregada do pior futuro imaginável. Os assassinos de Paris sabiam muito bem em que contexto estavam perpetrando sua infâmia e que efeitos produziriam.
      O problema do fascismo e de sua violência atualizadora é que se trata sempre de uma resposta. O fascismo está sempre respondendo; todo fascismo se alimenta de sua legitimação reativa em um marco social e ideológico no qual tudo é resposta e tudo é, portanto, fascismo. O contexto europeu (pensemos na Alemanha anti-islâmica destes dias) é a de um fascismo ascedente. Na França, concretamente, este fascismo branco e laico tem alguns protetores intelectuais de muito prestígio que, à sombra da Frente Nacional de Le Pen, agitam o ambiente a partir de púlpitos privilegiados com base no pressuposto, anunciado com falso empirismo e autoridade midiática, de que o Islã é um perigo para a França.
      Pensemos, por exemplo, no último romance do grande escritor Houellebecq, “Submissão” (tradução literal do termo árabe “islã”), em que um partido islâmico ganha da Frente Nacional nas eleições de 2021 e impõe a “charia” na pátria das luzes. Ou pensemos no grande êxito das obras do ultradireitista Renaud Camus e do jornalista político do jornal “Le Figaro” Eric Zemour. O primeiro é autor de “Le grand remplacement”, em que se defende a tese de que o povo francês está sendo “substituído” por outro, neste caso – obviamente – composto por muçulmanos alheios à história da França. O segundo, por sua vez, escreveu “O suicídio francês”, um grande sucesso de vendas que reabilita o general Petain e descreve a decadência do estado-nação, ameaçado pela traição das elites e pela imigração. Faz alguns dias que o escritor Edwy Plenel, no “Le Monde”, referia-se a estas obras como depósito de uma “ideologia assassina” que “está preparando a França e a Europa para uma guerra”: uma guerra civil, diz – “da França e da Europa contra elas mesmas, contra uma parte de seus povos, contra esses homens, essas mulheres, essas crianças que vivem e trabalham aqui e que, graças às armas do preconceito e da ignorância, foram previamente construídos como estrangeiros em razão de seu nascimento, sua aparência ou suas crenças”.
      Este é o fascismo que estava já presente na França e que agora “reage” – puro e presente – diante da “reação” – pura atualidade assassina – dos islâmicos fascistas de Paris. Dá muito medo pensar que, às 7 da noite, enquanto escrevo estas linhas, o trending tipic mundial no Twitter, após o tranquilizador e emocionante “Je suis Charlie”, é o aterrorizante “matar todos os muçulmanos”.
      A islamofobia tem tanto fundamento empírico – nem mais nem menos – do que o islamismo jihadista;  os dois, de fato, são fascistas reativos que se ativam reciprocamente, incapazes de fazer essas distinções que caracterizam a ética, a civilização, o direito: entre crianças e adultos, entre civis e militares, entre reis e bobos da corte, entre indivíduos e comunidades. “Mate todos os infiéis” é contestado e precedido por “mate todos os muçulmanos”. Mas há uma diferença.   Enquanto se exige que todos os muçulmanos do mundo condenem a atrocidade de Paris e todos os dirigentes políticos e religiosos do mundo muçulmanos condenem, sem exceções, o ocorrido, o “mate todos os muçulmanos” é justificado de alguma forma por intelectuais e políticos que legitimam com sua autoridade institucional e midiática a criminalização de cinco milhões de franceses muçulmanos (e de outros milhões mais em toda a Europa).
      Essa é a diferença – sabemos isso historicamente – entre o totalitarismo e o delírio marginal: o totalitarismo é o delírio naturalizado, institucionalizado, compartilhado ao mesmo tempo pela sociedade e pelo poder. Se, além disso, nos lembrarmos de que a maior parte das vítimas do fascismo jihadista no mundo também são muçulmanas – e não ocidentais –, deveríamos talvez medir melhor nosso senso de responsabilidade e de solidariedade. Pinçados entre dois fascismos reativos, os perdedores são os de sempre: os imigrantes, os esquerdistas, os bobos da corte, as populações dos países colonizados. Uma das vítimas dos islâmicos, por certo, era policial. Chamava-se Ahmed Mrabet e era muçulmano.
      Do jihadismo fascista, não espero senão fanatismo, violência e morte. Ele me repugna, mas me dá menos medo do que a reação que precede – valha o paradoxo einsteniano – seus crimes. O “matai todos os muçulmanos” está, de alguma forma, justificado pelos intelectuais que “preparam a guerra civil europeia” e pelos próprios políticos que respondem aos crimes com discursos populistas religiosos laicos.
      Quando Hollande e Sarkozy falam de “um atentado aos valores sagrados da França” para se referir à liberdade de expressão, estão raciocinando da mesma forma que os assassinos dos caricaturistas da “Charlie Hebdo”. Não aceito que um francês me diga que defender os valores da França implica necessariamente defender a liberdade de expressão. Por mais laica que se pretenda, essa lógica é sempre religiosa. Não temos que defender a França; temos que defender a liberdade de expressão. Porque defender os valores da França é talvez defender a revolução francesa, mas também o Termidor; é defender a Comuna, mas também os fuzilamentos de Thiers; é defender Zola, mas também o tribunal que condenou Dreyfus; é defender Simone Weil e René Char, mas também o colaboracionismo de Vichy; é defender Sartre, mas também as torturas da OAS e o genocídio colonial; é defender maio de 68, mas também os bombardeios de Argel, Damasco, Indochina e, mais recentemente, Líbia e Mali. É defender agora, frente ao fascismo islâmico, a igualdade diante da lei, a democracia, a liberdade de expressão, a tolerância e a ética, mas também defender a destruição de tudo isso em nome dos valores da França.
      Dá muito medo ouvir falar dos “valores da França”, “da grandeza da França”, da “defesa da França”. Ou defendemos a liberdade de expressão ou defendemos os valores da França. Defender a liberdade de expressão – e a igualdade, a fraternidade e a liberdade – é defender a humanidade inteira, viva onde viver ou acredite no Deus em que acreditar. A frase “os valores da França”, pronunciada por Le Pen, Hollande, Sarkozy ou Renaud Camus não se distingue em nada da frase “os valores do Islã”, pronunciada por Abu Bakr Al-Baghdadi. São, na realidade, o mesmo discurso frente a frente, legitimado por sua própria reação assassina, que bombardeia inocentes de um lado e metralha inocentes do outro. Perdem os de sempre, os que perdem quando dois fascismos não deixam nem o menor resquício para o direito, a ética e a democracia: os de baixo, os do lado, os pequenos, os sensatos. Disso sabemos muito na Europa, cujos grandes “valores” produziram o colonialismo, o nazismo, o stalinismo, o sionismo e o bombardeio humanitário.
      Dois mil e quinze mal começa. Em 1953, “refugiado” na França, o grande escritor negro Richard Wright escrevia contra o fascismo que “temia que as instituições democráticas e abertas não sejam mais do que um intervalo sentimental que precede o estabelecimento de regimes inclusive mais bárbaros, absolutistas e pós-políticos”. Proteger-nos do fascismo islâmico é proteger nossas instituições abetas e democráticas – ou o que sobrou delas – do fascismo europeu. A islamofobia fascista, na Europa e nas “colônias”, é agrande fábrica de islâmicos fascistas e tanto uma como outra são incompatível com o direito e a democracia, os únicos princípios – e não “valores” – que ainda poderiam nos salvar. Boa parte de nossas elites políticas e intelectuais estão mais interessadas no contrário.
      Descansem em paz nossos alegres e valentes companheiros bufões da “Charlie Hebdo”. E que ninguém em seu nome levante a mão contra um muçulmano nem contra o direito e a ética comuns. Essa sim seria a verdadeira vitória dos fascismos dos dois lados.
      (*) O Rebelión publicou este artigo com a autorização do autor mediante uma licença Creative Commons, respeitando sua liberdade para publicá-lo em outras fontes.

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    • Conferência magistral: Ignacio Ramonet fala sobre a TV pública na era digital

      https://www.youtube.com/watch?v=WRhjeZBLcvQ#action=share

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    • Sacco & Vanzetti e o significado da palavra ‘anarquista’

      O texto original, da autoria de Maria Popova, foi publicado no site Brainpickings. A tradução é de Camila Nogueira.

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    • Tailândia: Veja o vídeo

      http://nomadesdigitais.com/eu-odeio-a-tailandia-como-um-video-com-esse-titulo-tem-ajudado-a-incentivar-o-turismo-no-pais/?origem=hypeness

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