Os mortos vivem enquanto lembramos deles

Minha avó sempre dizia que a única certeza que temos na vida é a de que um dia todos morreremos. Concordo com ela, embora saiba que a morte sempre nos pega desprevenido. A dor de não saber vivo alguém que amamos é maior que a soma de todas as nossas certezas. Acho que este poema de Auden, citado no filme Quatro Casamentos e um Funeral, transmite toda a nossa impotência diante da morte. Auden escreveu: “Que parem os relógios, cale o telefone,/ jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,/ que emudeça o piano e que o tambor sancione / a vinda do caixão com seu cortejo atrás. / Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, / escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu./ Que as pombas guardem luto – um laço no pescoço – e os guardas usem finas luvas cor-de-breu./ Era meu Norte, Sul, meu Leste, Oeste, enquanto / viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana, / meu meio-dia, meia-noite, fala e canto; / quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana. / É hora de apagar estrelas — são molestas, / guardar a lua, desmontar o sol brilhante,/ de despejar o mar, jogar fora as florestas, / pois nada mais há de dar certo doravante.” Na verdade, os mortos vivem enquanto nos recordarmos deles.


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