Quando muito pequeno iniciei uma coleção de moedas. Cheguei a ter pouco mais de 70. Algumas foram de países nórdicos, como as coroas dinamarquesa, sueca e romena. Outras menos conhecidas, como o shekel israelense e a rúpia indiana. Ficavam lado a lado com as moedas brasileiras – que, como era de se esperar, formavam o maior contingente – e as moedas norte-americanas. Esta coleção não prosperou muito, ficou por ali na casa das 85 moedas. Aos onze anos, achei que seria mais fácil colecionar caixinhas de fósforo. A coleção logo cresceu, chegando a ter nada menos de 315 caixinhas. Mas o interesse que era bom logo decresceu e dei um jeito de doar toda a coleção a um menino que, agora descubro, não lembro nem mais o nome. Aos treze anos, comecei a colecionar selos. Cheguei até a me filiar a uma Associação Filatélica. Dois anos depois descobri que, por falta de conhecimento específico, minha coleção era uma completa nulidade: havia destacado os picotes de cada um dos selos. Para quem não sabe, um erro imperdoável neste tipo de coleção. Foi quando comecei a escrever e então passei a colecionar cartas, expedidas e recebidas. Escrevia mais para poder adicionar, toda semana, um novo item à coleção. As cartas tinham seu fascínio. E suas histórias. Incluíam desde cartas de amor às professoras até escritores que passei a admirar enquanto adolescente. A carta preciosa viera do Havre (França) e vinha do autor de O Diário de Dany, Michel Quoist. Ainda hoje conservo pilhas e pilhas de cartas. Em um tempo pré-Internet, ficava agitado quando recebia cartas do então muito jovens Foad, de Santo André (SP) e Iradj Roberto, do Rio de Janeiro. Elas guardam consigo bons anos de minha vida, que ainda não eram tantos assim. Mas envelheciam a olho nu, junto comigo. E foi então que descobri o que mais gostava de colecionar: amizades. Não precisava de muito espaço para guardá-los, ficavam acondicionados – se esta é a palavra! – logo ali, na primeira esquina do coração. Sempre à mão. À simples lembrança de um rosto e logo tinha diante do coração toda a ficha: onde nos conhecemos, o que fizemos, o que marcava esta ou aquela amizade. Descobri que algumas das melhores amizades eram de idade bastante superior à minha, como a escritora Maria Eugênia Montenegro. Ou o embaixador João Frederico Abbot Galvão. Havia também o amor platônico por minha professora de português da 8a. série, a gaúcha Helena Antonow Centeno. Outras amizades teriam o tempero das questões existenciais como Farchad Chahnazi que iria morrer ainda na flor da idade. E seria minha grande perda nestes primeiros anos. Esta coleção cresceu além do esperado e abarcou muitas cidades e muitos países. Incluíam os mexicanos Vahid e Cecília Felix de Mirafzali, Ingmar Groppe e Shahrokh Bahador. Uma amizade curiosa: a do israelente de 22 anos, Menahem Beliá, que me encontraria em um dia de 1988, no aeroporto Ben Gurion, de Tel Aviv. E o italiano Gianmauro Zaganelli, que tempos depois iria matar uma semana de trabalho em Perugia para me levar a Veneza, cruzando quase toda a superfície do território italiano. E os cubanos Valter Pino e Armando Hart, o lendário ministro da Cultura que descera Sierra Maestra em janeiro de 1959 com os revolucionários barbudos Camilo Cienfuegos e Fidel Castro. E teólogos como o bispo catalão de São Félix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga. Mas um nome não pode deixar de ser mencionado: Sérgio Resende Couto. Bem. a lista é enorme, tipo catálogo telefônico! Porque nada é mais prazeroso do que ter… 1.000.000 de amigos. Isso já foi um grande sucesso do Roberto Carlos, meno male, né?
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Viajei nesse comentário. Lembrei de minhas coleções todas pela metade e todas perdidas. Você tem o dom de escrever com a alma na ponta dos dedos e termina criando uma cumplicidade com o leitor pois nos sentimos como participantes das mesmas emoções, situações, recordações. Tens razão, o bom é colecionar amizades. Elas, quando sinceras, ficarão para sempre, estarão ali quando precisamos e também quando não precisamos. Eles estarão sempre ali, como você mesmo disse: “… logo ali, na primeira esquina do coração…” Gostei muito dessa frase. Aliás, parabéns pelo blog, a internet se sente humanizada com seus textos e seus ideais, sempre presentes em cada comentário. Espero um dia conhecê-lo pessoalmente. Conheço duas pessoas que lêem textos seus, um sobre viagens imaginárias e outro no JB. Bem, lá vai meu abraço. Jonas
Nunca fui coleccionadora de “coisas”, mas sempre o fui para os amigos que fui coleccionando durante toda a minha vida e que, vindos de vários quadrantes, são uma mais valia nos conhecimentos e na amizade, impedindo que possamos cair no fanatismo de conceitos. A eles, ouvimo-los sempre com amor e eles a nós e isso dá muita força e é muito bom. É uma colecção que está sempre a valorizar-se no “mercado” da vida! Beijinhos amigo!
Essa com certeza é a melhor coleção.
Espero que a minha cresça cada vez mais.
Abraços,
Delaine
A mais valiosa coleção “Amizade”!! E isso inclui nossos irmãos, os pais, primos, tios… Pq sei de mtos casos em q dentro da própria família a desintegração foi e é ruinosa! Destruindo mtos sonhos de conviver, com base na confiança, na verdade, no respeito e amor. Sim, pq, nossa família, deve ser norteada por esses elementos! Por isso falo q tenho centenas de amigos, e uma família amiga e amada. Sinto-me privilegiada.
Estava lendo seu texto e vi que havia um nome familiar, o de Helena Antonow Centeno. Gostaria de saber se seria quem penso que é. Minha avó tinha esse nome e se estamos falando da mesma pessoa gostaria de saber que é esse aluno dela, se você também conheceu minha mãe, Angelita Antonow Centeno.
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Washington
Fiz uma busca ao nome do Farchad e o vi mensionado em seu texto, bastante especial por sinal. Gostaria de saber se nos conhecemos, fui noiva do Farchad, e convivi bastante com amigos dele, mas nao me lembro de vc, gostaria de saber se nos conhecemos…
Um abraco
Fany
comecei minha coleção de fósforos proximadamente há 50 anos junto com meu irmão.
Seria interessante que eu catalogasse esta coleção, você tem alguma dica?
Abs.
Gibba.
João Frederico Abbott Galvão nunca foi embaixador e sim deputado estadual. Seu irmão Fernando Abbott Galvão foi embaixador.