Ninguém passa impune na vida da gente

Ninguem passa impuneNinguém passa impune na vida da gente. Cada um de nós carrega o que precisa ser carregado, angústias uns, sonhos outros e a realidade outros ainda. Acostumado a lidar com dados estatísticos, constato que infelizmente estes nada mais fazem que reforçar carências (número de homicídios, porcentual de habitações sem energia elétrica, quantidade de analfabetos etc) em nossa sociedade. Terminam por retratar o que deveríamos ter sido e não fomos. Mas hoje voltei a pensar, com maior força ainda, no meu sobrinho Abbas, tragicamente morto em 4 de outubro deste ano. E ele era tão jovem, tão cheio de energia, tão talhado para a vida! Edgar Allan Poe tem um belo poema, chamado “Só” que lá para as tantas diz assim:
“Não fui, na infância, como os outros/ e nunca vi como outros viam. /Minhas paixões eu não podia / tirar de fonte igual à deles; /e era outra a origem da tristeza, /e era outro o canto, que acordava / o coração para a alegria /Tudo o que amei, amei sozinho.”
Este poema parece me falar do Abbas! Às vezes pareço estar ouvindo sua voz grave e sorridente: “Oi tio! Demorou a voltar a BH…Vamos ter um tempinho pra conversar?” Olho, então, em volta e contemplo esse imenso vazio de rostos e de palavras. Um vazio de estar, de falar, de brincar e de amar. Um vazio de ser. Eventos como estes mexem muito com a gente. Somos levados a refletir uma e mil vezes sobre a transitoriedade da vida. Tudo é fugaz, rápido, vertiginoso. Quando nos damos conta do presente, eis!, ele já é passado. E depois pensamos sempre que tudo poderia ter sido diferente se Deus assim quisesse (sim, porque creio muito em Deus). E pensamos no que poderíamos ter feito para evitar o inevitável, no que poderia ter sido dito que afugentasse a proximidade da dor iminente. A verdade é que ninguém merece morrer jovem. Voltei à minha caixa de emails no Outlook; ordenei-os por nome do remetente e… encontrei várias mensagens do Abbas. Foi então que um nó na garganta foi se formando. Assim como se forma a pororoca logo que as águas dos rios Amazonas e Tocantins se encontram. A saída de cena do Abbas foi, já que estou falando em águas, um caldo e tanto. Começo a me preocupar. É que minha cota de mortos amados aumenta visivelmente. O que permanece invisível é essa fome da presença do Abbas. Uma fome que aumenta a cada dia, a cada penoso e looongo dia. Uma coisa é certa: se um dia chegar ao Céu, vou querer que o Abbas me venha buscar na porta de entrada. Sorriremos, ele estará luminoso e cheio de paz. Dirá que teremos toda a eternidade para colocar a conversa em dia. “Não se apresse tio, aqui tudo é maravilhoso e feliz, nada de dor, sofrimento, angústia nem ansiedade!” me dirá, assim sem mais nem menos. Pedirei que ele me leve logo para ver Quddús e depois visitaremos Thomas Breakwel. Quem sabe, passaremos uns minutos contemplando algum tipo de pôr-do-sol, podendo-se ouvir ao longe a Lacrimosa, da sinfonia composta por Mozart. Depois continuaremos a trilha, a viagem, o percurso que precisa ser continuado. Cumprimentarei no caminho Farchad e Sérgio Couto. Afagarei os cabelos prateados de Nylza e sorrirei com Zlmarian. E encontrarei Cecília e lhe cantarei “Te extraño” e falarei do bom Vahid, ainda desnorteado com sua súbita viagem. Cecília soltará uma gargalhada e lhe contarei uma coisa engraçada… Como o sobrinho sempre fora muito prestativo, terá um caderno espiral nas mãos e me perguntará: “Quando você desejará se encontrar com a Clarice (Lispector) e o Fernando (Pessoa) ?” Descobrirei, sem muito custo, que tenho um sobrinho desbravador… preparando o caminho para a grande travessia. Lembro do poeta português Eugënio de Andrade e agora, justamente agora!, entendo o que ele quis dizer quando escreveu:
“Às vezes sinto-me tão desesperado que me sento a escrever como quem chora.”
É, ninguém passa impune na vida da gente.

4 Responses so far.

  1. Biro (Danilo) disse:

    Querido Tom,
    Esse lindo, emocionante e inebriante texto, ou seria…desabafo, fez-me mergulhar numa profunda reflexão…
    Ao passar os olhos pelas palavras que aqui vc testificou, foram-se eles, afogando em lágrimas. Não triste, tão pouco amargo mas o reflexo desse sentimento tão forte e tão bem ilustrado, fez-me descortinar por um breve momento a realidade cruel e indefectível da morte.
    Existem experiências que nos ergue à compreensão das coisas, infelizmente as que mais dóem, são as que mais ensinam, dóem por serem iconoclastas, dóem por esmagar as vezes nossa doce ingenuidade.
    Apesar de ter doído, apesar de ser chocante, seu texto transborda sabedoria e isso me marcou. Um sentimento forte de amor e revolta simultãneos me embriagou com o desenrolar das intensas palavras e uma vontade de correr atrás de meus ideais, de correr atrás de todo mundo, de você, de abraçar, de dizer as pessoas que eu as amo, pra que todos sejam afinal um só espirito, como de sua essência Una me tomou como se tivesse força própria e uma viajem ao mundo espiritual, ao céu por alguns instantes revelaram-se a mim ao som de Mozart e um passeio ao seu lado eu fui e idealizei em mim como gostaria que fosse a morte. Não conheci Abbas, mas com certêza ele estara lá te esperando e esse encontro seus há de acontecer e mais sublime que nós possamos imaginar ele será.
    Obrigado por você iluminar meu coração e minha mente hoje. Como você mesmo disse, ninguém passa impune na vida da gente e você pelo texto tocou meu coração e mudou paradigmas em mim construídos.
    Mais forte em mim é agora aquela famosa passagem das escrituras sagradas em que diz pra nos examinar a cada dia, pois a morte irá nos sobrevir sem prévio aviso. Buscar a excelência nos atos, as intensões por trás de cada gesto é hoje uma constante reflexão a cada momento e a busca do agora que quando se torna passado escapando entre os dedos é a realidade vigente, mais forte bate meu coração por algo que não se é palpavel dentro de mim, mas a certêza de que esse caminho é o mais correto deságua em minhas veias trazendo conforto e harmonia em mim.

    Muito obrigado mesmo.
    Saudades
    Um fortíssimo abraço querido.

  2. Márcio Miranda disse:

    ABBAS, SINÔNIMO DE ESPIRITUALIDADE E JUSTIÇA SOCIAL

    Só hoje já passado um mês e 12 dias, que o querido Abbas está na Luz, que me encorajo, sento e escrevo sobre ele. Vou me fortalecendo diante dos golpes da vida. “Consciência Espiritual de um Leão”, esse é o significado do nome desta pessoa maravilhosa que tive o privilégio de conviver, sempre fielmente ao meu lado e ter o orgulho em poder dizer: somos irmãos. Várias pessoas ao longo dos anos chegavam e perguntavam: “ vocês são irmãos?” Eu, sem titubear, dizia que sim. Claro, éramos irmãos de verdade.

    Eu o conheci em 8 de março de 1997, na comemoração do Dia Internacional da Mulher em sua residência. Na casa além dos seus queridos pais e irmãos maravilhosos, haviam muitos convidados, aproximadamente 80 pessoas. Quando eu o vi pela 1a vez tive uma forte intuição dessas que raramente se sente. Veio a minha mente a idéia que aquele rapaz de 18 anos, que me chamou à atenção no meio de dezenas pessoas, viria a ser um grande irmão–amigo. O irmão que não tive na família biológica, mas que passei a ter na Grande Família Espiritual. Abbas é mais do que isso para mim, é o meu Pai Espiritual, aquele que me ensinou a Fé Bahá’í, aquele que ia ensinando o caminho da Fé, que foi me guiando para a Luz. Lembro-me dele me dizer nos idos anos: “hoje tem Reunião de Oração. Hoje tem Fireside. Esse final de semana temos Encontro de Jovens”. Sabiamente ele me mostrava que sem a Luz não chegamos a lugar nenhum.

    Um dia ele me disse: “Seu Cartão Bahá’í foi o único que assinei”. Sinto-me honrado por isso. Mas Abbas, saiba que você assinou não foi só o meu Cartão, você assinou dezenas, centenas de Cartões Bahá’ís espiritualmente, através de suas ações espirituais, de suas condutas exemplares, honestas.

    Ele não tinha meias palavras. Já faz muita falta entre nós nessa época que ao ligarmos a televisão, assistimos falsidades e hipocrisias. Ele não tinha esse lado do político puritano, que com rodeios fala, fala e não diz nada. Abbas chegava e falava de uma maneira autêntica, direto e objetivo, com sinceridade, justiça, que até assustava os desavisados. Chegava e falava aquilo que ninguém tinha coragem de dizer. Clamava por justiça através de sua sinceridade. Ensinava Espiritualidade não através de trechos de Escritura Sagrada e sim através das suas ações _ penso eu que é o que mais vale: “que sejam atos e não palavras o vosso adorno”.

    Acredito que fazer uma outra Amizade-Fraternal igual a que tive com ele, nessa magnitude, será quase que impossível.

    Abbas falava com os olhos. Quando sentia as dores da vida: dores do corpo físico, dores da angústia, dores do sofrimento, sentia calado, talvez por querer passar somente alegria para nós. Ele sofria em silêncio ao ver esse mundo tão mesquinho. Porém esse mundo sempre ficava rico com sua presença.

    Penso que ele partiu tão cedo para o Paraíso porque aqui já não servia para ele. Ele almejava por mais justiça, mais amizade, mais união, mais amor, mais honradez, mais honestidade entre as pessoas. Lembro-me de certo feito quando em frente ao “Raja Grill”, churrascaria de Belo Horizonte, eu, ele e nosso Querido irmão Shoghi, lá encontrávamos numa certa noite. Abbas ficou indignado ao ver um segurança tirar de frente desse restaurante um menino, alegando que não ficava bonito ali uma criança vendendo balas. Este menino trabalhador buscava o sustento de seus irmãos. Abbas foi em direção ao segurança. Pediu que o segurança parasse. Este por sua vez tirou da sua cintura um revólver. Abortamos aquele clima tenso. Por pouco uma tragédia poderia ter acontecido. Ele era assim: se preciso fosse colocava sua vida em risco pelos outros, lutando pela justiça social.

    Abbas dizia: “Não falo mentira”. Quem de nós consegue ser forte o bastante em não falar uma mentira? São poucos. Ele conseguia. Certa vez na Faculdade, um professor errou ao corrigir a prova dele. Abbas ao ver tal erro disse: “O senhor se enganou na correção. A minha nota está errada. Eu não minto”. Isso foi o bastante. Não precisou da famosa “Revisão de Prova”. O professor mudou a nota no Diário de Classe sem olhar a avaliação já entregue ao aluno. Naquele momento a palavra da “Consciência Espiritual de um Leão” falou mais alto. Em nosso mundo uma pessoa dizer que não mente nos chama à atenção.

    Abbas talvez não soubesse o quanto que era meu Irmão-Amigo. Devotava um amor às pessoas, uma atenção. Tantas vezes fui testemunho dele oferecer carona. Quando a pessoa dizia o lugar de destino e esse era do outro lado da cidade, ele com o mesmo semblante sereno, conduzia a pessoa com toda boa vontade. Aquele Menino de Ouro era extremamente prestativo.

    Tínhamos uma absoluta necessidade de consultá-lo em momentos de decisão. Abbas nos apresentava uma das suas maiores virtudes que era a justiça e fazia suas ponderações a respeito do assunto.

    Abbas está marcado para sempre em nossas vidas. Ele com sua luz que atraia e uma energia que cativava, fazia as pessoas quererem ser amigas dele para sempre.
    Muito obrigado Abençoada Beleza por ter me apresentado este humanista. Muito Obrigado Abbas pela sua Amizade-Fraternal. Sabemos que essa ausência que sentimos de você é passageira e que assim que a Abençoada Beleza nos chamar para a Eternidade, você nos receberá de braços abertos.

    Tem hora em que me pergunto: por que estamos chorando? Nós devemos lembrar que Abbas partiu para um até breve. Abbas começou a sua Verdadeira Vida. Quem é que disse que isto aqui em baixo é vida? A vida dele começou agora. Abbas foi convidado para uma festa eterna. Abbas está na Luz que se pudéssemos ver, cegaria nossos olhos de tanta Energia Espiritual.

    Até mais querido Pai Espiritual. Muito obrigado por estar entre nós para sempre.

    Amamos muito você Abbas.

    Belo Horizonte, 16 de novembro de 2005.

    Márcio de Miranda Araújo

  3. Wanderlea Morandi disse:

    Querido Tom, é sempre com grande sede de informaçao, com grande respeito e carinho que leio seus artigos. E em todos encontro uma resposta para uma duvida, um consolo para uma tristeza…

    Amigo, este artigo em especial me fez refletir … (o que somos? porque somos? porque viemos? )

    Tenho estado em conflito comigo mesma desde a partida do nosso amado Abbas, uma tristeza infinita …

    Ao ler suas palavras e o comentario do Marcio Miranda sinto que todos somos uma só familia e estamos vivendo este momento juntos, isto me conforta, afinal nao estamos só, realmente somos uma só familia Bahá’í, somos irmãos, irmãos de Fé.

    Isto me tras uma paz interior imensa.

    Obrigada amigo Tom, por sempre acrescentar algo de bom na minha, nas nossas vidas.

    Wanderlea Morandi

  4. Otávio disse:

    Querido Tom,

    Que belo texto! Escrito com o coração e que toca o coração dos leitores.
    Abração.


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