Shoppings – catedrais pós-modernas?

Park Shopping Templo de ConsumoO comércio natalino em 2005 se superou. Das 9 da manhã do dia 23 às 17 horas do dia 24 de dezembro o principal Shopping Center de Brasília esteve aberto. Foram 32 horas de desenfreado consumismo, com direito à música de pequenos grupos de jazz e até um dj alternando freneticamente as músicas no estilo hip-hop ou ao ritmo bate-estaca. As pessoas parecem se “produzir” para seu tour de compras. Nesses ambientes ninguém vai com a roupa de bater no dia a dia e sim, com a melhor roupa, aquela que se usava em anos passados para se assistir à missa nos domingos. Em tudo há um clima assim meio religioso. E isso já começa pelo aspecto exterior, quando não precisamos forçar muito a imaginação para discernir a arquitetura estilizada das catedrais, com seus enormes pórticos, vitrais nas laterais e a imensa cúpula central de vidro a filtrar a luz do dia. Não deixa de ser o templo dedicado ao Deus Mercado. Ao fundo podíamos ouvir uma música pós-moderna, mais animada que aquela usada para entreter os pacientes nos consultórios dos dentistas. Mas, invariavelmente, nos últimos cinco minutos do ofício de vendas se consumar somos alertados pela música clássica, suave e terna, que varia de Chopin a Vivaldi. Nas belas vitrines, com luzes direcionais focadas nos objetos de desejo – geralmente os mais caros -, sempre postos delicadamente sobre uma almofada em cetim negro ou carmesim, onde resplandece um relógio-jóia da marca Rolex ou uma caneta-tinteiro Montblanc ou mesmo um par de brincos do mais translúcido diamante. E os olhares piedosos se aglomeram em volta de cada nicho. Existe um quê de devoção e deslumbramento, uma expressão de intensa satisfação, uma verbalização de regozijo: “Realmente, uma jóia divina!” Observei em minha última peregrinação no ParkShopping (foto) que tudo ali parecia me transportar a um outro mundo, uma mundo mais limpo e mais belo.

Estranhei – como sempre estranho – a ausência total de mendigos, de pessoas mal-vestidas ou maltrapilhas. Nenhum menino de rua com suas coloridas jujubas à venda, nenhum flanelinha a me chamar de tio. Nenhum sinal de miséria ou indigência aparente. Apenas aquela indescritível miséria da alma a nos mostrar que a opulência em países como os nossos parece ser uma afronta, um tapa na cara daqueles que têm sua dignidade humana usurpada, vilmente explorada.

Nas lojas de griffe, geralmente com nomes em francês (Elle et Lui) ou inglês (Crawford) encontrava as belas sacerdotisas com suas refinadas vestimentas, extremamente maquiadas e com perfumes a exercer a tirania da juventude e que, no conjunto da obra, pareciam ter lugar cativo na comissão de frente que leva ao Paraíso. No transcorrer da compra é que podíamos demonstrar nossa real classe social: os que podiam pagar à vista entravam direto no paraíso, os que podiam pagar em 3 ou 6 parcelas seriam aqueles que, por dever ofício, permaneceriam por 3 ou 6 meses no purgatório e, finalmente, os que não podiam pagar, seja porque não havia saldo no banco nem no cartão de crédito, eram constrangedoramente encaminhados para o inferno.

Ao final desse passeio litúrgico fomos todos nos reunir em volta da mesa eucarística do McDonald´s. Mas apenas Lara não abriu mão de seu McLanche Feliz e a família se aboletou em uma mesa do Dom Francisco. Nestes templos tudo é transitório, efêmero. Nada dura muito, a começar pelo aparelho do celular que logo se danifica e que logo esperamos que isso aconteça para voltar a escolher entre os 20 novos modelos mais modernos e mais cheios de funções. São templos das aparências. Quando uma loja oferece 50% de desconto em um determinado final de semana… é porque subiu 60% no final de semana anterior.

Enquanto a verdadeira religião busca nos unir em torno de bons sentimentos, de amplitude do coração, de renovação das forças da alma, a religião do consumo reforça em cada um de nós o sentimento de exclusão, de apartação e de egoísmo. Se a primeira nos acena com a beleza da vida após a morte, quando então nos livraremos deste corpo e de todas as milhares de roupas – com griffe ou sem griffe – com que o agasalhamos ao longo dos anos, a segunda nos faz perceber – embora tardiamente – a futilidade de nossa existência e temos então a frustração ao constatar que o jogo da nossa vida não foi inteiramente jogado. Se a verdadeira religião nos ensina a sermos pessoas melhores, pessoas solidárias e cheias de amor e compaixão para com nosso semelhante, enfim humanos mais humanos; a religião do consumo nos oferece ao fim desta vida passageira nada mais que um bom enterro de luxo, com direito a muitas corbeilles, a um caixão em madeira-de-lei, revestido de cetim branco e também uma solenidade fúnebre à altura de nossas posses. Quando isso acontece, podemos desde logo estar seguros de que nossa vida foi em vão. Pois, no final das contas, é bom estarmos bem cientes de que não levaremos nada de material conosco. Pois a beleza da vida está em nunca ter fim, em ultrapassarmos de um mundo a outro, com a mesma pureza de coração e a mesma serenidade de alma com que um dia fomos gerados. Nesse segundo caso teríamos um funeral simples, muito simples. Mas as lágrimas ali expressariam o amor sempre presente de pessoas que tanto amamos a nos dizer que faremos falta, muita falta.

Porque para quem tanto nos amou estaremos sempre vivos. E estes, não morrem nunca.

3 Responses so far.

  1. Cleber disse:

    Maravilhoso texto.

    Torçamos para que logo passe essa hipocrisia social.

    Um bom final de ano (que pena que seja mais uma data comercial…)!!!

  2. Dad disse:

    Olá querido Tom,

    Mais um ano que finda e os problemas mundiais cada vez maiores e desoladores. O Deus consumo ultrapassou todas as marcas! Quando será que o Deus que reside dentro de nós vai poder ter o Seu lugar sacralizado em vez do consumismo acelerado em que tantos vivem para miséria absoluta da grande maioria?
    Quando chegará o dia que aboliremos os extremos da riqueza, dando lugar a uma sociedade mais justa que não viva dentro ou no limiar da pobreza?
    Neste balanço de mais um ano, tantas coisas nos aparecem diante dos olhos que desejaríamos ver abolidas e rapidamente, para que este mundo fosse um local aprazível para todos; que todos usufruissemos com prazer, sem a vergonha de quase ignorarmos a existência daqueles que nada têm!
    Amanhã comemora-se o Dia da Paz! Amanhã com todas as confissões religiosas iremos, aqui em Lisboa, ter uma cerimónia inter-confessional em que todos vamos pedir a PAZ PARA O MUNDO! Tomara que esse dia chegue e depressa antes que se esgote a vida dos que eternamente esperam por um bocadinho para sobreviver!

    Que estas últimas horas de um ano a findar e outro a nascer, façam com que reflictamos não sobre o que se vai comer e beber esta noite nas inúmeras festas dos locais onde se esbanja tudo….até a alma, mas sim que se pense o que poderemos fazer de melhor amanhã que é o dia primeiro de um novo ano nesta Terra que Deus nos entregou para cuidar, com todos os seus conteúdos.

    Beijinhos para vocês,


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