Esta noite, 48 anos

48 anos passaram depressa

Os dias parecem ter encurtado. A noite parece passar mais rápida e logo o meio-dia está aí com cara de amanhecer mas com sol a pino. A tarde avança, são 13 horas mas em meia hora parece estar já escurecendo. Assim passam os dias, as semanas, os meses, os anos. E por essa medida engenhosa de se calcular a idade do ser humano, hoje completo 48 anos de idade e 162 de memória. E pensar que mais dois períodos de 12 meses, serei um sujeito cinqüentenário, isso me faz dar uns tratos à bola. O que fiz em 48 anos? Me olho no espelho e não encontro o garoto que aos 2 anos engatinhava na sala da velha casa, nem aquele menino franzino que aos 6 anos chegara em casa, eufórico, dizendo que já sabia escrever o nome complicadíssimo: w-a-s-h-i-n-g-t-o-n. Mal sabia que iria passar o resto da vida soletrando o nome, seja para a atendente do hospital onde iria levar meu filho para pela segunda vez engessar o braço, nem para a secretaria da pós-graduação que me dizia, faceira, “deixe ver se escrevo sem o senhor falar”, ou então, ora bolas, mal sabia que um dia quente de 1997, ao aterrissar no aeroporto José Martí, de Havana, o circunspecto senhor, em seu traje militar, iria me perguntar como quem não quer nada: “O senhor poderia me dizer o que uma pessoa com esse nome veio fazer em Cuba?” Isso sem mencionar as milhares de vezes em que meu nome fora grafado como sendo “Wellington”, isso mesmo: W-e-l-l-i-n-g-t-o-n! E aqueles colegas de 8a. série do primeiro grau, que insistiam em me chamar pelo prosaico “Va-sin-guin-ton”. Bem, nomes, apenas nomes, que carregamos conosco como se carrega a própria sombra ante o sol nem tão escaldante assim. Foram 48 anos de viagens: 45 países, quase um por ano, se quisesse traçar uma média relativa. Testemunhei o nascimento dos quatro filhos. Quando nasceu Thomas (1986) ainda não era moda que os pais filmassem o acontecimento ou mesmo que estivessem na sala de parto. Mas quando nasceu Jordana (1988), me aventurei a assistir tudo ao vivo e a cores. Desnecessário dizer o quão mal me senti. Mas, posso adiantar que desmaiei umas duas vezes e então um certo doutor bonachão, Edmilson, pediria à enfermeira, sua assistente que me fizesse cheirar éter. Recobrava os sentidos e ainda conseguia ver a anestesia raquidiana ser aplicada, para a vista novamente voltar a escurecer. Um sufoco somente acabado com o choro da pequena e bela Jordana. Depois já não me atrevi a assistir aos partos que trouxeram ao mundo a doce Anísa (1989)  nem a pequenina Lara (1998). Há que se dizer que em 1998 tínhamos certeza de que seria pai de mais um menino, passando a ter dois casais de filhos. Lembro que o obstetra em Brasília, cujo nome se perdeu na espinha dorsal da memória, que fez o parto, veio eufórico me dizer “Parabéns! O senhor é pai de uma menina!” E minha resposta, eufórica e angustiada: “Menina mulher???” E parte desses 48 anos foram para escrever livros. Já são 14 e se brincar em menos de um ano, outros três estarão ante os olhos dos meus dois ou três leitores prediletos. É bem verdade que devem ser mais pois as tiragens dos livros variavam de 1.500 até 4.000 exemplares. Presenciei também o que o meu íntimo teima em classificar como milagre: em 1989, em 11 de agosto precisamente, meu carro foi atropelado — literalmente — por um caminhão carregado com com botijões de gás. O caminhão passou por cima da gente. Um choque e tanto e a lembrança de meu afogamento na piscina de casa quando contava meros 5 anos de idade. Isso aconteceu no Paraná mas o filme se passava na BR-112 (parece o asteróide B-512?)  que liga Natal a João Pessoa. Resumo da ópera: a pequena Anísa, um anjinho de cabelos dourados e esvoaçantes e bem bochechudinha voou — também, literalmente – do banco traseiro, pois se encontrava no colo da babá, passou pelo parabrisas inteiramente estraçalhado e aterrissou, suavemente, sobre uma mochila verde-clara cheia de fraldas. O bebê Anísa teve apenas um breve arranhãozinho na testa e foi encontrada naquela espécie de “moisés improvisado” por uma senhora de um dos carros que havia parado para dar assistência àquele carro totalmente destruído. Lembro apenas que gritei “Alláh´u´Abhá!” no momento da sinistra colisão. Como viajei muito, não tenho consciência de ter acompanhado adequadamente o crescimento dos quatro filhos, mas a mãe, a doce Ceres, soube suprir de forma impecável a ausência do pai vivo. Nesses 48 anos lembro de muitas danças. Algumas em casa, quando tinha 13 anos, trocávamos a lâmpada de 150 volts por uma lâmpada chamada “luz negra”, onde o branco ficava bem realçado e tudo era quase penumbra e se dançava ao som de Joe Cocker, Santana, Simon & Garfunkel, Raul Seixas, John Lennon e Rita Lee. Aos 18, lembro de ter dançado uma espécie de imitação do John Travolta em seus “Embalos de Sábado à Noite”, na discoteca “Lizzy”, em Floripa. Aos 19, dancei um toré, a dança sagrada dos índios Kiriris, no sertão da Bahia, em Mirandela, tendo como teto uma lua cheia quase baixando à terra… para dançar também. Viajei muito de avião, sobrevoando os Emirados Árabes e a Patagônia, Nova Iorque e Varadero. Fiz trajetos a bordo de elefantes em Nova Déli e em Agra, na Índia, e montei camelo no Cairo, andei de scooter (aqueles carrinhos de apenas três rodas) que infestavam a imensa avenida chamada Jam Path Road, na capital indiana. Estive a bordo de uma lancha em 2001, junto com Ceres e a pequena Lara, de 3 anos e mais o casal dono da lancha, Paulinho e Marcinha. Lembro disso, porque quando a lancha estava bem próxima da ponte Rio-Niterói, aproximava-se um imenso navio e havia faltado gasolina na lancha e no desespero eu já encomendava a alma a Deus e a todos os santos. Foi tudo susto: era defeito mecânico, tinha gasolina e na hora dita “agá” conseguimos nos desviar do brutamontes do navio. Naveguei também com Ceres, dona Yvonne e o pequeno Thomas, com 2 ou 3 anos, pela bacia do Prata, nas cercanias da província de Buenos Aires. E mais recentemente, há apenas duas semanas, embarquei em uma lancha junto com Thomas, Jordana e Anísa na praia de Pipa, litoral do Rio Grande do Norte. Vimos ou pensamos que vimos, pelo menos dois golfinhos brincalhões, pulamos n´água com salva-vidas e parecia que na eternidade o clima era aquele, muito sol, muita água, muito riso. Assisti a muitas solenidades, em algumas tomei posse em instituições culturais e academias de letras, em outras, fiz conferências falando de direitos iguais para homens e mulheres e condenando de forma enfática qualquer ato de racismo ou de discriminação. Agora com o aquecimento da terra a níveis nunca dantes atingidos, recordo que vivi alguns dias ou semanas em temperaturas muito altas, tipo aquelas em que os pássaros insistem em voar com uma asa e com a outra resolvem se abanar. Eram cidades como Corumbá, Cuiabá, Teresina… e também até outras paragens em que o clima ficava abaixo dos 45 graus negativos, como Chicago, e as não menos frias Wiesbaden, Frankfurt, Roshahr e Lieschtenstein. Quis fazer direito o curso de Direito, fiz três anos e meio, mas não deu. Terminei ensinando em anos recentes na pós-graduação de Direito no curso sobre “Direitos Humanos e Políticas Públicas”. Quis ser jornalista porque estava cansado de ser chamado de escritor e também queria aprender a escrever melhor. Aos 41 entrei na universidade pela segunda vez e aos  44 anos me formei, mas não tenho tanta certeza de que consegui escrever melhor, aprendi um monte de coisas absolutamente dispensáveis, como fazer um título, uma manchete com 92 toques, contando caracteres e espaçamentos. Mas isso já é outra história. Ah, e visitei lugares muito altos: a pirâmide da Lua e a do Sol, em Teotihuacan (no México), o Empire State Building e a Estátua da Liberdade (nos EUA), a Torre Eiffel, o Cristo Redentor e o mais belo de todos os monumentos: o Santuário do Báb, nas encostas do formidável Monte Carmelo, em Haifa (Israel). Estava no Paraná, em novembro de 1963, quando Kennedy foi assassinado em Dallas e a revista Fatos & Fotos detalharia tudo para mim, que ainda não sabia ler, tinha apenas 4 anos, mas sabia ver as fotos e tudo. Ao cruzar uma galeria de artes no centro da capital norteriograndense, exatamente no dia 15 de julho de 1975, foi quando pela primeira vez meus olhos se saciaram com a frase que iria mudar coimpletamente a minha forma de ver e de interagir no mundo: “A Terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos”. Estava no Ministério da Justiça (Brasília) no centenário da ascensão de Bahá´u´lláh, o autor da profética frase, em maio de 1992, e lembro que me encontrava no 3o. andar do Senado Federal, precisamente na Diretoria-Geral, quando assisti no fatídico 11 de setembro de 2001, pela televisão, dois aviões se chocando nas torres do World Trade Center, em New York. Mas não vi o avião caindo sobre o Pentágono e quanto a isso ainda resta muita controvérsia. Falei em momentos especiais de amigos muito queridos e igualmente especiais. Num deles, quase caso o noivo (Mohsen Javidan) com a madrinha, pois não me havia sido apresentado ainda a doce noiva de nome Conceição. Estive em outro casamento onde o texto era todo coberto por flores secas e ali, ao ar livre, na cidade-cenário de Tiradentes (Minas) tendo um chapadão como fundo, destranquei o coração para falar do amor de Vinícius e Keyla Monajjemi. Quando jovem não existia calça jeans, era calça Lee e pronto. Tive duas Lees e duas USTop e era o tempo em que me achava realmente o máximo. Vivi entre os índios e entre os brancos, mas sinto mais falta do pouco tempo em que convivi com o cacique Lázaro. Li muito. Mas o que valeu a pena mesmo foi “God Passes By”, “Declínio e Queda do Império Romano”, “Terra dos Homens”, “Cidadela”, “Se um viajante numa noite de chuva” e “O apanhador no campo de centeio”. Depois que li este último até pensei que conseguiria escrever algo melhor do que Sallinger. Me enganei. Não consegui e nem vou tentar mais: Holden Caulfield é único, como única é a sua família, a Família Glass. Clarice Lispector me descobriu ou teria eu a descoberto? Não sei, é ainda um desses mistérios. O certo é que gravei um compact-disc com 22 de seus textos e escrevi um roteiro com 102 cenas chamado “Flor-de-liz no peito – Os últimos dias de Clarice Lispector”. Nos 48 anos acumulei um considerável volume de filmes assistidos. Os dois primeiros datam ainda de 1965, ambos dirigidos por David Lean: “Dr. Zhivago” e “A Ponte do Rio Kwei”. Me emocionei muito com “Johnny vai à guerra” e com “Irmão Sol, Irmã Lua”. Vi todos os Rockys e todos os Rambos e não recomendo a ninguém. Fiquei fã de carteirinha da trilogia de “The Godfather”, com louvor especial para Marlon Brando. Vi 16 vezes a obra-prima de Sérgio Leone: “Era uma vez na América”. O amor pela sétima arte foi tão intenso que fui até um dos primeiros donos de locadora de filmes nos primeiros anos de 1980. E agora, em 2007, estou fazendo na UnB um mestrado de cinema. Descobri ao longo do tempo que “o que alarga a vida de uma pessoa são os sonhos impossíveis.” Agora sou fã de Sidney Bristow, do seriado ‘Alias’ e de Jack Bauer, do seriado ‘24 Horas’. Por mim, Jack Bauer deveria se casar com Sidney Bristow e tomar conta da segurança do planeta. Meu filho Thomas viajou em 9 de janeiro de 2006 para Israel, serviu um ano no Centro Mundial Bahá´í e me parece que foi um carteiro realmente exemplar, eficiente. Thomas regressou ao Brasil em 9 de janeiro de 2007 e trazia muitas e saborosas histórias para contar. Mas creio que os roteiristas não aprovariam muito bem tal disparatada e bem fundamentada idéia. Desses 48 anos, 31 anos foram vividos com a visão de um planeta, um só povo. Tenho uma fé inabalável em um Deus que é todo amor, que tudo ouve e vê e que nos aceita assim exatamente como por ele fomos criados. Às vezes penso, em minhas meditações induzidas pela insônia de cada noite mal-dormida, coisas do tipo: Nem sempre sei a coisa certa, Senhor, mas acho que só o fato de querer Lhe agradar, já Lhe agrada.

5 Responses so far.

  1. Angelita disse:

    Feliz aniversário!!!!!!

    Te amamos muito.

    Angelita, Sidney, Dayyan

  2. Ceres disse:

    Tom, my love, a data precisa é 11 de agosto de 1989 (veja texto extraído), qdo a nossa Anísa tinha exatamente 2 meses e 1 dia. Nesta data que vc precisou ela só teria 1 dia e eu ainda estava no Hospital, no Papi, em Natal, pois ela foi a única cesária que tive e lá fiquei alguns dias para tomar folego e depois ter cuidar dos outros 2 que me aguardavam em casa, Thomas (3 anos) e Jordana (1 ano). ah! Foi gostoso ler este seu relato de vida, quase a metade vividos juntos. A casa agora está cheia de jovens, nossos filhos e amigos dos nossos filhos… Até logo mais, Ceres

    “Presenciei também o que o meu íntimo teima em classificar como milagre: em 1989, em 11 de junho precisamente, meu carro foi asfalto onde um caminhão com botijões de gás passou por cima.”

  3. Sidneia disse:

    Parabéns! Lindo relato!

  4. Leonardo Magalhães Comunidade Bahai Contagem! disse:

    Washinton Luíz!!!!!!!!!
    conheço vc de vista! Presenciei uma “palestra sua” no cazamento do nosso amigo Vahid sobre o amor que eu nem tenho palavras…. alias… palestra sua nada, porque naquele dia meu amigo, vi claramente que quando os Bahais falam, e o fazem com o coração, tornam-se um enorrrme caminho que conduz a força divina e a distribui aos corações presentes!

    Alláh´u´Abhá!!!!!!!!!! Repito as suas palavras acima neste texto que só confirma um fato histórico acontecido comigo hoje. Deus é o mais glorioso!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Dia 06 de Março de 2008!
    Amigo, nada é por acaso neste mundo! NAADA! Abraços!!!!!!!!! Continue fazendo esse trabalho maravilhoso!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  5. Leonardo Magalhães Comunidade Bahai Contagem! disse:

    Washinton Luiz… ahhahahuhasusa.. fica a minha marca registrada amigo!!! Meu primo sempre me lembra… o nome dele é Araujo leo…. Washinton Araujo!

    Abraços!!! Muita PAZ e FELICIDADES!!!!
    com muita sinceridade!!!!!!!!


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