Minha consci ncia fica sempre devedoraE não passa um dia sem que deixe de receber um currículo de alguém buscando uma colocação no mercado de trabalho. Escuto atentamente aos pedidos, dou tratos à bola tentando ver como encaixar tal perfil em tal serviço ou em, tal organismo não-governamental. Fico sempre comovido – esta é a palavra – ao ouvir as necessidades de uma pessoa que aposta todas as suas fichas naquele pedido. Muitos não têm sequer o segundo grau completo, outros têm curso superior, mas se dizem cansados de trabalharem como motoristas de táxis, geralmente são sublocados, têm que pagar um bom percentual das corridas que faz ao dono do táxi. E cada semestre, e não a cada ano, milhares de jovens são graduados nas faculdades e engrossam o cordão dos que buscam um lugar ao sol. Depois tem os amigos que, para minha surpresa, apesar de terem condições financeiras razoáveis, me pedem uma colocação para uma cunhada ou um primo, mesmo para servir cafezinho em um órgão público. Catalogo os currículos, vejo e revejo o que está escrito na folha, disparo uns telefonemas aqui e ali e termino sempre com uma resposta do tipo “deixe comigo, vou conseguir isso pro senhor”. Só que raras são às vezes em que o emprego é conseguido. E me sinto assim como um vendedor de falsas ilusões, como alguém que oferecer um fio de esperança dependendo da boa vontade de outros. Apenas sinto que dou encaminhamento aos pedidos. Eles não ficam parados. Mas minha consciência fica sempre devedora ao final do dia. Quantos não devem se sentir na minha situação?


ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Observatório da Imprensa
  • Vale

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Carta Maior
  • Meu Advogado