Lado esquerdo do peitoVou ao supermercado e encontro de tudo um pouco: comida, bebidas, material de limpeza, louças, filmes, livros, revistas, eletroeletrônicos, congelados. Não encontro o que todos, de uma forma ou de outra querem ou dizem querer: amizades genuínas, gestos de compreensão, semblantes serenos, calma no caminhar, ternura no olhar, compaixão no rosto, cumplicidade no sorriso, confiança no desconhecido, risos descontraídos, atenção para com os mais velhos, solidariedade com os portadores de necessidades especiais, sentimento de pertencer à mesma espécie humana. Isso me incomoda um bocado. Penso então em amizades que tive e que pensei serem do tipo em que se pode colocar o carimbo do “Para Sempre”. E também nos anos que gastamos em conhecer sentimentos, decifrar gestos, revelar entrelinhas antes mesmos de terem sido escritas. São dessas idas ao supermercado que noto a grande diferença entre ter e ser, entre intenção e gesto, palavra e ato. Nada é mais triste que folhear álbuns de fotografias, arquivos de imagens com extensões jpeg, bitmaps, gifs e descobrir que aqueles que mais amávamos estão guardados apenas naqueles registros impressos ou naqueles bytes de informação, já não ocupam espaço no lado esquerdo do peito. Mas mesmo a ausência sentida tem o peso de multidões de anônimos que também, de uma forma ou de outra, inscrevemos nessa coisa que chamamos de vida. 


ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Observatório da Imprensa
  • Vale

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Carta Maior
  • Meu Advogado