Bem-vindo Nicolás. Você está em casa.

Sobre uma Foto de Javier BauluzNada de novo no front. Será mesmo? Sempre há algo de novo porque o novo é o símbolo maior dessa civilização da informação, informação que nos chega por todos os sentidos, desde aquelas imagens que falam mais que muitas bibliotecas de Alexandria até aquele outdoor anunciando uma nova cirurgia plástica. Pois bem, acabo de assistir a primeira de uma série de aulas magnas do catedrático espanhol Nicolás Lorite García. Aos desavisados, Lorite García é o bambambam da imagem e do conhecimento, possuidor de vasta cultura acadêmica e grande dosagem de sensibilidade humana. A junção dessas características produz um sujeito formidável. Formidável pela articulação mental, o que nos faz pensar em alguém com uma “mente bem treinada”, e formidável porque se despe dos clichês acadêmicos e propõe um novo olhar sobre a natureza metafórica da realidade física. Vem de Barcelona e traz consigo os ares de uma cidade que respira a Gaudí, à inacabada Sagrada Família, ao imponente Güell. Mas em seu modo amistoso de se expressar deixa no ar o que sentimos ao passear pelos 1.500 metros de Las Ramblas, com seu espírito rescendendo a liberdade salpicada de beleza e que, mesmo sendo a rua mais famosa de Barcelona, e a mais fotografada, é a mais cheia de turistas e imigrantes. Um lugar difícil de se perder pois tem um começo –  na Plaza Catalunya e um fim,  no Port Vell. Perder-se ali, só se for de amores e nada mais. A apresentação à turma de mestrandos e doutorandos da UnB foi prosaica: o próprio Nicolás García é auto-apresentável. Isso porque não é o currículo – extenso, penso com meus botões – que o engrandece, mas o contrário é profundamente verdadeiro: ele engrandece a maestria para além dos títulos que tenha conquistado em uma vida dedicada ao saber.

Agora, um porém. Mesmo com o auditório tomado por alunos, a vinda de Nicolas Lorite García se deu mais pela persistência de uma professora, mestra, doutora de nome Tânia Montoro que pelo empenho dos iluminados que dirigem a Universidade de Brasília. Tânia se desdobrou para trazer o professor ao Brasil, a Brasília. Mas teríamos conhecimento de que algo de muito bom e de muito nobre poderia acontecer sem sacrifícios, dezenas de comunicados, ajustes em agendas e mesmo sem nenhum apoio financeiro “regulamentar”? Não. Tânia Montoro personificou isso que chamamos de “alguém imprescindível”. E o fez com a radiância que lhe é peculiar e que lhe cai muito bem porque seus olhos azuis falam muito mais de si do que a própria pode imaginar. E além de boa pessoa, Tania é uma boa professora. Coisa rara hoje em dia, artigo escasso nas prateleiras dos CNPqs da vida brasileira. Aviso aos navegantes: Tomem nota do nome. E o nome é Tânia Montoro.

Pois bem, vejo ali o professor discorrendo sobre a experiência de campo de John Berger, um pesquisador do audiovisual que não se faz de rogado e nos traz tanto um detalhe fotografado do olho de uma vaca como também a foto de um campones que, para além de sua realidade de homem do campo, se produz para ser fotografado: roupas limpas, barba feita, pose para o futuro, um futuro que inclua seus bisnetos, assim logo de cara. Não quero me deter muito nessa parte. É que para os que estavam na sala de aula improvisada de auditório do Centro de Excelência de Turismo, o CET da UnB, estes, sabem bem do que estou tentando reter em palavras, a título de descrição. Perdoem-me os demais que aqui não estiveram e ficaram privados de observações muito pertinentes sobre a foto do espanhol Javier Bauluz, ganhador do Pulitzer de Jornalismo de 2000. Esta foto (veja acima) faz espoucar em nossas consciências o drama do mundo atual, as suas gritantes contradições entre os ”muito poucos” que têm tudo e os “muitos muitos” que nada têm. E não é, ainda que se possa inferir tal percepção, uma foto com viés ideológico. O ambiente é o recorte de uma nesga de praia, dois turistas espanhóis em trajes de banho abrigados por um guarda-sol e a poucos metros do casal, um volume que antes continha a condição humana, abandonado às forças da natureza, corpo à milanesa de quem “nadou, nadou e morreu na praia”. É isso. A foto de Baulez mostra um migrante vindo da África, provavelmente em um pequeno barco, movido tanto pela força do vento quanto pela brisa que somente o anseio por dias melhores poderia engendrar e que, exaurido fisicamente, jaz sobre a mesma porção de areia da praia em que dois turistas, alheios a qualquer outra circunstância que não a sua – desfrutam da plena cidadania européia.

Aquele corpo retratado em uma seqüência de instantes fugazes por Javier Bauluz representa mais que um corpo, um expressivo contingente de 95.000.000 de pessoas que migram de um país a outro, seja em busca de condições de sobrevivência “mais em conta”, seja por perseguição e violação dos direitos humanos fundamentais, como o direito de expressar seu pensamento e sua crença, o direito de ir e vir, o direito de ser cidadão aqui… ou alhures. Fecho os olhos e quase posso sentir meus pés sobre as ruas de Barcelona, de Sevilha (aliás, um ótimo lugar para se perder, literalmente, diga-se), sobre as amplas praças de Madri, os mercados apinhados de Zaragoza e de Alicante, a paisagem mourisca de Córdoba e Huelva.

A primeira vez que estive em solo espanhol – mesmo sendo catalão, gallego, basco etc. – foi em 1992 e atendia a um convite do governo de Espanha para falar sobre os 500 anos do encobrimento da América (alô alô estudantes de um modo geral: 1492-1992) pelos espanhóis e portugueses, por Pizarro e Cabral e tantos de triste memória. Minha tese era tão simples quanto o risco que quando criança fazemos na água do mar: defendia não haver nada a ser comemorado, denunciava o genocídio de 5.000.000 de índios apenas no Brasil e mais 33.000.000 espalhados nas Américas Central e do Sul, chamava aos carretéis a farsa de chamar de descobrimento o que, historicamente, mais apropriado seria chamar de encobrimento de povos e culturas, de civilizações incas, maias, astecas, zapotecas, toltecas e por aí vai, e que descobrimento seria, no mínimo, o descobrimento da portentosa ignorância do homem branco, eurocêntrico e euro centrado, ávido por pilhar, saquear, destruir e conquistar à força populações que se atrevessem a florescer à margem do que então se autodenominava… civilização.

Uma viagem de 33 dias por 14 cidades e 18 universidades, de norte a sul, e de leste a oeste da Espanha. Uma viagem em que podia lançar aos 2.300 alunos da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) este  desafio: não teria sido melhor não haver ocorrido o malfadado descobrimento?

Em alguns momentos, ainda ingressando nos 30 anos de idade, sentia-me presa fácil do idealismo pueril, aquele desejo sacrossanto de ser a voz dos que não as tinha e levantar o debate na Academia dos males que foram perpretados contra os ameríndios, depois cognominados de “pré-colombianos”. Mas voltando à Universidade de Barcelona. Eis o registro que exatraio do meu diário:

“… tinha duas conferências na Universidade de Barcelona. O auditório com todas as cadeiras ocupadas, os corredores repletos, a equipe de televisão fazendo as tomadas, dois gravadores de rádio próximos do microfone que eu usava. O tema era o lançamento do meu livro-denúncia sobre o genocídio dos povos indígenas no Brasil, Estamos Desaparecendo da Terra. Em determinado momento, na segunda metade da apresentação, vejo que duas jovens começam a soluçar. Faço uma pausa. Sempre me incomoda um pouco ver pessoas chorando. Temo que tenha sido a causa de sua dor e por isso sofro um pouco. Resolvo perguntar se havia alguma forma de ajudá-las. Uma delas levanta a cabeça e diz, à meia voz: “Desculpe-nos, acabamos de decidir que vamos dedicar um ano de nossas vidas, tão longo concluamos o último período da faculdade de antropologia, a ajudar os Ianomâmis no Brasil… Essa decisão está sendo tomada após ouvir essas suas palavras sobre o futuro que foi roubado dos povos indígenas”. Com um clarão na mente, volto ao microfone para dizer: “Vocês não precisam ir tão longe para colocar as energias criativas de seus corações a serviço dos sofridos, dos condenados da Terra. Se vocês desejam genuinamente ajudar nossos índios no Brasil, recomendo que se dediquem a elevar a auto-estima e mesmo a qualidade de vida dos povos ciganos na Espanha. Eles é que são seus Ianomâmis. Eles precisam de apoio, de encorajamento, de solidariedade, de calor humano, de respeito, de dignidade. Precisamos mudar nossa maneira de ver o mundo. Buscar ajudar aqueles que estão próximos da gente é mais produtivo do que tentar ajudar aqueles que estão longe. Afinal, todos nós temos os nossos indígenas por perto. E eles nada mais são que aqueles que sofrem e que são diminuídos em sua dimensão maior, que é a humana.”. E então presenciei pela primeira vez  uma catarse geral…”

E tudo isso a propósito de dar as mais sinceras boas-vindas a Nicolás.


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