Osmar MendesComo Fernando Sabino ele também nasceu homem e morreu criança. Estava a apenas uma semana de seus 81 bem vividos anos. Costumava lhe dizer que o barro do qual era feito não existia mais. Acordava pela madrugada, fazia longas caminhadas e achava tudo muito interessante: o caminho andado, as pessoas vistas, a cena diária. Ainda jovem participara da diretoria de uma instituição Neo-Pitagórica – ou o que quer que isso queira denominar —  em Curitiba. Era no tempo do Dario Veloso, por quem carregava enorme admiração. Entusiasta que sabia entusiasmar quem lhe cruzasse o caminho. Um bom sujeito, desses que entra em nosso coração sem ter que bater na porta e muito menos pedir licença. Eu o encontrava a cada 40, 45 dias em Brasília. Tínhamos reuniões de fim de semana e sua presença era como a de uma lâmpada em uma sala fechada, estava sempre ligado, sempre iluminando com um bom humor fino, invulgar para melhor adjetivar. E era sábio. Entendia quando devia ficar indignado e quando não. Sabia o rol das reações humanas mais comezinhas, comuns e identificava a falta de uma intenção pura, de um desejo genuíno de servir. Isso ele via há quilômetros. As crianças que o encontravam saíam sorridentes porque ele era o próprio papai Noel fora de época. Doava-se e enriquecia-nos. Um gesto de cortesia aqui, um sinal de ternura ali, ia ele plantando coisas boas, essas coisas que hoje parecem ter o cheiro de naftalina de tão velhas. Seus modos lembravam um tanto daquelas toalhas de mesa que nossas avós trancafiavam em velhos baús para serem usadas somente em ocasiões, vamos dizer, solenes. Era leve como aquela pluma que abre a primeira seqüência de créditos do Forrest Gump. Dava até para ouvir a musiqueta suave, dedos serenos acariciando sons de piano. Ele marcou minha vida dos 18 aos 49 anos porque foi um amigo leal desses sobre quem não paira o ônus da dúvida, se era assim, assim era, parecia seu senso de justiça irrompendo uma e outra vez, aqui e ali, como comportas de represa rapidamente aberta. Ele me lembrava um tempo de andar com as mãos nos bolsos pela 28 de setembro em Vila Isabel, me trazia o encanto do Feitiço da Vila, de uma ida ao edifício da avenida Central, ali no Rio Branco carioca. Encontrávamos seu Rui – o dono de uma pequena empresa de impressão boletins institucionais, de pequenos adesivos, de ascendência portuguesa como ele. Assistíamos filmes: drama, documentário, aventura, comédia, suspense, policial. Depois íamos ao Haagen Das do Píer 21, em Brasília, e então nos deliciávamos com os de morango, manga. Viajamos uma meia dúzia de países e tínhamos outros companheiros de viagens. Alguns embora vivos morreram, há muito, na memória. Subíamos o monte Carmelo em Haifa, comíamos falafel e shwarma e tudo isso era temperado com um bom humor que não pensava e muito menos poderia imaginar que um dia iria se acabar. É reconfortante lembrar um rosto amado sem o travo das lembranças burocráticas, da falsa intimidade que tantas vezes sentimos ter depois que nos despedimos para sempre. Foi no último dia 10 de fevereiro, por volta da 5 e meia da manhã que ele partiu. Fiquei feliz por ter ido ao seu encontro algumas horas antes de ser tragado pelos mistérios do Invisível, alguns minutos de lucidez onde despontava com toda força a palavra amiga, leal, cortês e feliz. Ele pensava que – cabeça nas nuvens como costumava ser quando mais jovem – poderia ter tido o desplante de pegar um vôo em Brasília com destino a Buenos Aires e, por um acaso feliz da vida, teria descido algumas escalas antes, vindo a encontrá-lo em Curitiba.E sorria com gosto. Mas Curitiba estava inconsciente das últimas horas da vida de um grande homem, um personagem que trouxe um novo eixo à cidade e, em certo sentido, um sentido à vida de sua população. Mesmo que disso esta – também, se encontrasse profundamente inconsciente. Quis oferecer a ele o que gostaria que se me oferecessem: uma mão amiga e amada para apertar na hora de minha partida. E sou feliz porque não deixei que as ocupações rotineiras desse mundo me desviassem do dever maior que se impõe a um verdadeiro amigo: o de estar ali quando apenas a presença pode saciar. Uma noite ele dormiu em minha casa, mais precisamente, ele dormiu sob um colchão disposto em minha sala de leitura. No dia seguinte, Thomas, então com seus 12 ou 13 anos, lhe perguntou como foi sua noite. Ele respondeu, todo sorrisos: “Me senti como um marcador de livros!” Ao longo da vida fui juntando alguns milhares de livros. Do “Apanhador no campo de centeio”, de Salinger ao precioso “Goldmund”, de Hesse, de “A Vaca de nariz sutil”, de Campos de Carvalho ao não menos empolgante “Os caminhos de Katmandu”, de René Barjavel. E praticamente tudo que Clarice Lispector, Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade escreveram e tiveram a alegria de ver em forma de livro. E também quase tudo que se escreveu sobre esses três… três o que? ah, três amigos de minha alma. Essas onze estantes abarrotadas de livros e pela primeira vez sendo catalogados por Ceres – minha alma gêmea – agora se encontram aconchegados em um nome, passam a ser tripulantes da biblioteca Osmar Mendes. Sim, estava falando o tempo todo de Osmar Mendes que ficou trancafiado em minhas melhores memórias e que me ensinou que existem amizades mais preciosas que o próprio ato de inspirar e expirar. Há doze dias que tento refazer o tamanho do vazio por ele deixado. Consola-me saber que a esta altura já terá sido bem recepcionado pelo bom Abbas, que logo se encontraria o igualmente bom Habib. A essas horas terá já ccontado uma centena de ótimas anedotas a dona Dináh, ao seu Taetz, ao divertido e terno Sérgio Couto. Conforta-me saber que a esperança do reencontro é tão palpável quanto o teclado por onde saem essas letras. Que assim seja.

One Response so far.

  1. Ana Nélo disse:

    Caro Tom,
    Sinto-me impotente para fazer algum comentário relativo a Pessoa do Sr. Osmar Mendes. Mas, Ele e esposa me fizeram sentir na pele o que representa “O estranho tido por Amigo”, assim fui recebida eles.

    Quando soubera da que ele havia feito sua “Viagem Espiritual” – fiquei revolvendo em meus pensamenetos que haavia partido ou arquivada mais um Biblioteca Bahá´í.

    Lembrei-me do texto de Saint-Exupery

    “Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, pois cada pessoa é única, e nenhuma substitui outra.

    Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós.

    Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo.

    Há os que levam muito; mas não há os que não levam nada.

    Há os que deixam muito; mas não há os que não deixam nada.

    Esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova evidente que nada é ao acaso.”

    Tenho saudades do vazio que ele deixou…
    Como gostava de chamá-lo :

    Tio Osmar,

    Em 10/02/2008 fui surprendida com a com sua falta, mas, nesse momento, sua presença e sua voz sopram suaves. Não tive tempo para lhe dizer ADEUS. A saudade que sento é tão grande que o faz presente.

    Hoje, de sua existência, resta comigo muitos materiais Bahá´ís, os CD´s de Poesia do Tom araújo e muitas lembranças, mas o Sr. vive em nossos corações. E viver no coração dos que ficam não é partir.
    QUE A ABENÇOADA BELEZA ILUMINE O SEU PROGRESSO ESPIRITUAL


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