Como tenho recebido emails perguntando como foi a banca etc etc, resolvi editar parte de um email que enviei a um bom amigo de Portugal, S.C. – Eis o apanhado resumido: “Após quase tres horas da mais pura esgrima terminei sendo aprovado “com excelencia”, sem nenhum ajuste a fazer na tese! Estou bem, muito, bastante feliz. Os três doutores foram certeiros e para cada observacao uma replica e tanto e assim pelas bordas e com o coracao na mao “acordei graduado e irei dormir mestre”, para citar as palavras com que veio me saudar o diretor da Pós-Graduação logo ao final da desatada peleja. A sala estava cheia e o tempo fluiu sem qualquer vibracao inoportuna ou descabida. Havia alco como uma torcida silenciosa e celestial e as palavras alcavam voo com as forcas do Espirito. Foi algo bom e necessario para minha alma e por isso mesmo, foi algo belo e sedutor. O sabor humilde da conquista se mesclava com a arruaca interior. Saltei corajosamente e mesmo sem rede de seguranca sobrevivi ileso. Se alguma vez na vida soube extrair o mel das palavras ou mesmo se alguma vez fui cumplice dos argumentos essa vez foi hoje. Foi longuissima a arguicao e brevissima a redencao. Dois dos três professores doutores da Banca concluiram intervenções dizendo que já deveria me sentir com “metade do Doutorado feito” tal a excitação desses meus juízes. Foi essencial que alguns rostos amigos estivessem presentes pois assim ganhava uma platéia amorosa à qual várias vezes não deixei de privilegiar o olhar. Pois bem, pouco mais de três horas decorridas da comunicação da honrosa menção final XXX me liga para dizer que já tem uma editora para publicar o nosso ‘Macabéa vai ao Cinema – a longa travessia de A Hora da Estrela, da linguagem literária para a cinematográfica'”. Agora procedamos a uma análise mais ‘a frio’: Começa a fazer sentido a expressão ‘fazer a defesa de’. O pobre-diabo do mestrando (ou doutorando) fica ali na frente se matando para manter sua tese de pé e os que integram a Banca se revezam em observações estéreis (no mais das vezes), como se estivessem travando um duelo entre eles mesmos com o objetivo de saber quem sabe mais, quem é mais contundente no ataque, quem consegue acertar o alvo, o coração do alvo (que é o já declarado pobre-diabo recém- designado). Na verdade, olhando do lado de cá, quem parece estar em julgamento é a própria banca. Ora diabos quase sempre eles não emitem veredictos sobre o que foi feito, o caminho percorrido, o que está assentado no código acadêmico. Não. A banca quer analisar o que poderia ter sido feito, o que deixou de ser feito, o que, com certeza, não foi feito pelo simples fato de que não era nem problema nem objeto – principal ou secundário –  da pesquisa e, portanto, não haveria como ter sido feito. Palavras alinhadas assim parecem o samba do crioulo doido. Mas não são. Elas carregam consigo o ritmo do Danúbio Azul de Strauss e também a dramaticidade da bela Caruso no vozeirão saudoso de Paravatotti. Quem orienta parece estar mais desorientado que biruta de aeroporto em véspera de temporal: não sabe o que fazer com os dois outros colegas da banca. Guerra de egos inflados. Não parecem entender que toda pesquisa pressupõe inúmeros caminhos e que por isso mesmo existe a tal Banca de Qualificação para dar uma arrumada nos pensamentos e estipular clareiras a serem alcançada em meio a selva de pensamentos. Cheguei mesmo a comentar que estar diante da banca me dava um temor reverencial de quem vai ser esquartejado, trucidado, pois banca que se preza tanto mais se firma na pretensa excelência quanto mais se mete a continuar o interrompido trabalho do Jack (ele mesmo, o de Londres). É importante entabular uma conversação muda, platônica, com pelo menos um dos integrantes da banca. Se tal intento for alcançado passaremos a contar com um juíz que irá se ater ao seu texto, ao seu calhamaço, ä sua tese, dissertação. E isso já será uma portentosa vitória. No mais, há que se contar com a tal ‘torcida silenciosa e celestial’. Resumo da Ópera: Aprovado.

3 Responses so far.

  1. E esqueci-me de dizer, meu querido amigo, estava a ouvir o Holandês Perdido do Wagner quando recebi o seu email… Então, imagine só! Só batalhas 🙂
    Uma boa defesa, mais que ser batalha de egos, é, na minha perspectiva, um potencial campo de batalhas como o Krishna e Arjuna, pelo progresso.

  2. EAndrade disse:

    Querido Tom,
    Ilária a analogia usada por você para descrever a sensação de estar em frente à banca que aprovaria ou não a sua tese de mestrado. Estar na mão daqueles catedráticos, ou melhor “birutas” e sabendo que o avião, isto é o seu sonho, não poderia pousar a não ser que o vento na biruta fosse decodificado pela torre em sinalização de ok para pousar. Nesse meio tempo você, aflito, sem a certeza de que o avião pousará em segurança ou se será despedaçado pela ventania, troca mensagens olhares platônicos kkkkkk com um dos técnicos operadores, a pedir ajuda e a esperar a conspiração a favor dos fenômenos do céu, recebe finalmente o sinal positivo (dedão em riste) da torre de comando e aterrisa em paz, satisfeito com a própria perícia em dominar a máquina voadora, contra tudo e contra todos. Saudações ao gladiador vitorioso, ao piloto de sonhos.

  3. Gleyda Cordeiro disse:

    Olá, também estou fazendo uma dissertação sobre a adaptação de a Hora da Estrela para o cinema. Gostaria, se possível, ler o teu trabalho. Um abraço,
    Gleyda


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