Se for poesia nem me mande!

É impressionante a falta de mercado para a poesia no Brasil! Conheço vários bons poetas que colecionam cartas de recusa de editoras ao serem instadas a publicar obra poética. Em cada uma há um certo destempero verbal como a gritar: “Se for poesia, nem me mande!” E sei quão desanimados esses autores se sentem. É como se fazer poesia fosse algo inútil, uma espécie de non-sense, sei lá. Mas, poderíamos viver sem poesia? Porque haveríamos de deixar a lógica mercantilista conduzir valores estéticos? Que seria da realidade se sobre ela não pairasse um olhar poético? Conversei com o Gustavo Borges, doutor em comunicação e com vários livros publicados, todos ao gosto da academia, e ao lhe perguntar sobre qual o seu atual projeto de pesquisa, recebi esta resposta: “Pesquiso como a Comunicação vê a poesia”. Pensei comigo: ‘Ïsto é, se a poesia chega a ser vista nos estudos próprios da Comunicação’. Quando falamos em poesia, se a interlocução é culta há que se fazer referência a Dante Alighieri, Mallarmé e Valery. Se a interlocução é apenas atenta à paisagem cultural, então as figurinhas indispensáveis passam a ser Fernando Pessoa, Drummond, Vinícius, Augusto dos Anjos e o autor de “Eles passarão, eu passarinho!”, Mario Quintana. É fato que em um tempo marcado por um mal-estar que atravessa o século XIX, passa pelo XX fincando raízes e chega altaneiro ao XXI, muitos milhares de pessoas se descobrem poetas a cada dia, a cada momento. E metem-se a registrar suas percepções do mundo, a escavar fundo na solidão e na dor humana para extrair versos que dêem conta de seu estado de espírito. Com isso a multiplicidade de poetas é sempre muito extensa se comparado a escritores de outros gêneros. Mas existem os bons poetas em cada dia e em cada momento. Refiro-me àqueles que, seguindo a lição Rainer Maria Rilke “não conseguiriam viver sem escrever”, da mesma forma que não o conseguiriam… sem respirar. Que existe uma longa distância entre ter o gênio poético e saber escrever motivações interiores, isso é inegável, como inegável é o fato de que a vida seria uma coisa tola, amorfa e sem palpitação se privada for do estado de graça que tão somente a poesia pode fazer engendrar no espírito de uma época. Zeitgeist.


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