A propósito da inoportuna entrevista do cientista Charles Murray à revista ISTOÉ desta semana (Edição 2032 – 15/10/2008), e, ainda mais, com a chamada Miscigenação diminui o QI dos brasileiros apresento, como contraponto, esta reflexão.

Por um Quociente de Humanidade, o QH

Quando pensávamos que os testes de inteligência, tão comuns nos anos 60, estavam em completo desuso, por sua inutilidade prática, vemos ressurgir nos Estados Unidos evidências de que ainda existem pessoas capazes de levá-los a sério. Refiro-me aos autores do The Bell Curve (A Curva do Sino ou A Curva Normal), editado pela Free Press Publishers, uma divisão da conhecida Simon & Schuster, o psicólogo Charles Murray e o sociólogo Richard Herrnstein. Sem apresentar nada de novo no front cien-tífico, o livro teve um grande mérito: trazer à tona o debate sobre a convivência das raças e demonstrar a futilidade da pesquisa científica que busque comprovar a superioridade racial através do cruzamento de estatísticas geradas por testes de inteligência. E aqui encontramos a falácia levantada pelo dueto Herrnstein e Murray de que os brancos são superiores aos negros, em um mundo francamente direcionado para o resgate dos direitos humanos e da unidade racial dentro de um contexto amplo enunciado em meados do século passado: a Unidade do Gênero Humano.

EM BUSCA DAS RAÇAS

Antes de tudo devemos ter em consideração que a ciência tem buscado exaustivamente definir as raças que compõem nossa espécie. Após reconhecer que medir o diâmetro de crâneos, braços, pés constituía uma trabalho muito complicado para a definição de uma raça, com o progresso da genética os antropólogos observaram que através de algumas gotas de sangue era possível referenciar as coleções de genes, mas chegaram à conclusão que existem quatro grupos sanguíneos e esses quatro gurpos se encontram em todo e qualquer grupo racial. Posteriormente foram definidos outros sistemas: Rhesus, MNSs, Duffy, Diego, GM e ainda o HL-A. Utilizando todos esses sistemas, os cientistas chegaram à conclusão que devido a multiplicidade de informações recolhidas a classificação em grupos homogêneos tornava-se extremamente difícil. A opção então recai para o método estatístico, segundo os genes que são específicos de cada grupo. Chegamos ao ponto: Sendo a cor negra característica da raça negra, buscou-se então os genes “marcadores” responsáveis pela cor da pele. Os resultados foram também decepcionantes: os genes não são específicos a uma ou duas raças e as conclusões apontaram para o fato de que todas as populações têm mais ou menos os mesmos genes.

DISTÂNCIA GENÉTICA

Chegam então os biólogos e imaginam uma medida chamada “distância genética”. Esta distância é tanto maior quanto maior for a diferença entre os patrimônios genéticos de duas ou mais populações comparadas. A conclusão é clara: a humanidade não pode ser classificada erm raças pela simples comparação dos patrimônios genéticos, chegando François Jacob, prêmio Nobel de Biologia a afirmar categóricamente: “O conceito de raça é, para nossa espécie, não operacional.” Jacob não fica solitário nessa declaração. O duplamente premiado com o Nobel de Medicina e de Psicologia, Jean Dausset declara que “a idéia de “raça pura” é um contra-senso biológico.” Se considerarmos a afirmação de muitos expoentes da ciência, de que não existem raças, no entanto, temos que conviver com este pernicioso defeito de nossa civilização: o racismo existe! É patético então encontrar alguém racista, se não existem meios científicos que elabore a distinção de raças? O geneticista e escrtor francês, Albert Jacquard afirma que “na verdade, temos medo do desconhecido, de encontrar alguém que não seja nosso semelhante, este medo, por sua vez, transforma-se em agressividade e ódio e assim nasce o racismo.” Fruto do medo e do ódio aos que achamos ser nossos “dessemelhantes”. E a cada vitória do medo e do ódio corresponde uma derrota para a Humanidade como um todo.

É notório o reconhecimento de que as questões dos testes de Q.I. supervalorizam o conhecimento científico, prático, objetivo, bem ao gosto do atual estágio da nossa civilização ocidental, o que nos remete ao questionamento de como seriam os resultados desses testes quando aplicados a culturas guiadas por padrões espirituais, místicos, esotéricos, tais como a cultura oriental ou islâmica? E depois, seria uma justificável e mesmo razoável considerar superior uma raça unicamente pelos números obtidos por alguns de seus membros em um Teste de Inteligência? Nesse caso, seria bom para a raça humana – a única raça realmente existente – que alguém se sinta superior a outro ser humano graças aos números que mensurem sua inteligência? O que pode levar alguém a ser superior, parece-me razoável, seria a capacidade desse alguém de praticar o bem, levar avante o progresso da civilização e possuir uma conduta digna e louvável, capaz de não apenas tolerar mas antes saber apreciar a imensa diversidade humana e não se sentir superior devido à cor da pele ou aos contornos do mapa de sua engenharia genética.

CIDADANIA MUNDIAL

A polêmica levantada pela “Curva do Sino” cresceu em força e amplitude devido ao cabo de força estendido entre militantes racistas, francamente em baixa nestes anos finais do milênio e essa crescente legião de pessoas de boa vontade que concebem a visão de um mundo unido, onde cada cidadão possa exercitar o novo paradígma da cidadania mundial. O contraste entre essas duas forças é que a humanidade foi violentada por muito longo tempo por aceitar ou se omitir ante aqueles que pregavam os falaciosos dogmas de uma pretensa pureza racial. Os gritos e gemidos, os ossos alquebrados de seis milhões de judeus, há pouco mais de quatro décadas, os massacres na Namíbia, Sudão ou Soweto, não terão sido suficientes para comprovar a estupidez e a falácia de se imaginar uma raça superior? Teriam sido os carrascos nazistas mais inteligentes e poderiam ser considerados membros de uma raça superior por colocarem em marcha a solução final, massacrando milhões de seres inocentes, cuja única culpa era não pertencer ao mesmo credo e ter a mesma cor da pele?

Ainda podemos ouvir os sons dos passos apressados de milhares de negros nas ruas de Memphis e de San Francisco, participando de manifestações públicas convocadas pelo líder negro Martin Luther King na busca dos direitos civis negados aos negros nos Estados Unidos. Mais extremado, temos a figura de Malcolm X em busca da dignidade humana: “Não lutamos por integração ou por separação. Lutamos para sermos reconhecidos como seres humanos. Lutamos por… direitos humanos.” E podemos visualizar as ruas de Johannesburgo e de Soweto em festa com a realização das primeiras eleições majoritárias em clima de unidade racial, consagrando Nélson Mandela para a presidência da África do Sul.

Uma luta tenaz e constante contra a discriminação e o preconceito racial e que já recebeu forte impulso internacional com a premiação de três líderes negros com o Prêmio Nobel da Paz: Albert Luthulli (1960), Martin Luther King (1964) e Desmond Tutu (1984), evidenciando que o racismo não é uma luta apenas das vítimas, mas antes, de todos os cidadãos de boa vontade, não importando a cor da pele ou sua ascendência étnica.

OPTANDO PELO QH

Além desses heróis da unidade racial, um tributo especial deve ser dado ao líder indiano, Mahatma Gandhi, que encontrou uma Índia incendiada por conflitos étni-cos, subjugada enquanto colônia inglêsa e através de ação sistemática e não violenta unificou o país, caindo vítima do fanatismo e da intolerância entre hindus e muçulmanos. Se submetidos a testes de inteligência, poderíamos considerar Luther King, Gandhi, Mandella, Steve Biko como seres inferiores? O bispo anglicano Desmond Tutu certa vez observou, com muita propriedade que “de um modo geral os brancos acham que somos humanos, mas não tão humanos quanto eles.” A História nos leva a concordar com Protágoras, o sábio do século IV a.C., que afirmava ser o “homem a medida de todas as coisas.” Fico imaginando quando seria inventado um Teste de Humanidade, substituindo o QI (Quociente de Inteligência) pelo QH (Quociente de Humanidade), pois é necessário que vez por outra procuremos saber como esta’o nosso nível de humanidade, estamos mais ou menos humanos que da última vez? E penso em como seria interessante vermos tais estatísticas: seriam tão alarmantes quanto as “curvas do sino” de Murray e Herrnstein? E busco na literatura sagrada alguma explicação que possa justificar a superioridade alguma raça em detrimento de outra: se o Criador deu ao homem o rosto voltado para o Alto, iria Ele distinguir a cor do rosto que busca Sua contemplação? E encontro no velho Talmude, transbordando sua milenar sabedoria que o homem não deve se sentir enaltecido ou orgulhoso sobre as demais coisas, pois se ele foi criado no sexto dia, o mosquito foi criado antes dele.

FOGOS DA INTOLERÂNCIA

.Guardamos ainda na memória da pele os celulóides com as experiências dantescas conduzidas pelo Dr. Joseph Mengelle em busca da pureza racial e que destinadas ao fracasso tivera que recorrer ao extermínio físico sumário. Temos ainda na memória as cruzes incendiadas do Mississipi, ateadas pelo fogo racista da Ku Klux Klan, essa organização criada em 1866 e cujos objetivos podem ser discernidos nestas palavras de seu chefe supremo, Robert Shelton: “Nada faremos contra os negros desde que eles permaneçam em seus lugares, engraxando nossos sapatos e limpando nossas privadas.” Nossa memória sentimental nos leva aos Navios Negreiros de Castro Alves a amaldiçoar “esses borrões nos mares”. E lembramos da comoção do seriado RAÍZES, retratando 300 anos de opressão e violência contra a família negra de Alex Halley.

O preconceito racial é algo que merece uma ampla reflexão sobre suas origens mais remotas, sempre adquirida ao longo do tempo pelo sistema de valores reinantes em cada época. Vejamos a história do Brasil: índios e negros são escravizados para produzir riquezas para o dominador, não por acaso, branco. Tanto negros quanto índios eram considerados inferiores, como seres dotados de baixo nível de inteligência, e isso concedia aos seus “senhores” uma motivação moral para mantê-los no regime escravista. Como Sartre bem definiu “o racismo é um estado de espírito patológico, uma forma de irracionalidade, um tipo de epidemia.” Nesse caso, já que concordamos com a idéia de ser o racismo similar a uma doença epidêmica, é razoável se acreditar em um estado de saúde alcançável em um mundo direcionado para uma crescente interdependência entre as Nações.

A ERA DOS DIREITOS

Através da popularização de que “a cor do demônio é negra”, passando pela falácia supostamente religiosa de que os negros seriam “espíritos sem luz” e estão pagando por crimes cometidos em outras vidas (karmas). Nos aforismos e ditos populares, encontramos a utilização de posturas incitadoras do menosprezo às pessoas de cor como é o caso da expressão “é um negro de alma branca”, inspirados nos versos de Blake em “minha mãe deu-me a luz no ermo do Sul/E eu sou preto, mas oh!, minha alma é branca…” e do seu oposto “é um branco de alma negra”, passando ainda pelas modinhas populares, como a de Lamartine Babo que tinha como refrão estes versos: “Como a cor não pega mulata/Eu quero é teu amor.”

Nos pampas gaúchos os maltratos a uma criança negra a tornam milagreira na imaginação popular e assim nasce a lenda do Negrinho do Pastoreio. Ao cotejarmos a literatura brasileira, encontraremos uma infinidade de amores voluptuosos entre homens brancos e mulheres negras e sem que esses amores multirraciais produzam filhos. E, no Brasil urbano, que avança para o terceiro milênio, ainda podemos encontrar, em alguns cadernos de classificados dos grandes jornais, anúncios do tipo: “moça branca oferece serviços como auxiliar de escritório” ou encontramos nas telenovelas brasileiras negros em papéis secundários ou em situações de inferioridade social.

O contraponto a qualquer esforço para supressão de direitos é o simples fato de que vivemos em uma era que pode muito bem ser referendada como a Era dos Direitos. Foi esta Era que viu nascer as Constituições Democráticas, as Decla-rações de Direitos: do Homem, da Criança, da Terra e uma multiplicidade de instituições civis dedicadas à proteção das minorias e em defesa desses e de outros direitos fundamentais.

O pensamento de James Baldwin é muito oportuno na esteira da polêmica do “A Curva do Sino”. Ele dizia que quando os brancos aprendessem a se respeitar e a amarem-se uns aos outros, então não haveria mais nenhum problema em seu relacionamento com os negros e este pensamento encontrou simetria nas palavras de Richard Wright, o escritor negro que dizia que nos Estados Unidos “não existe um problema negro, mas sim em problema branco.”

SEM PRETEXTO

Em 1986, em importante documento da Casa Universal de Justiça, ficou afirmado que “o racismo, um dos males mais funestos e mais persistentes, constitui obstáculo importante no caminho da paz” e que sua prática “perpreta uma violação dema-siado ultrajante da dignidade do ser humano para poder ser tolerada sob qualquer pretexto.” O senso de justiça de tão veemente declaração invalida por completo uma superioridade racial branca respaldada por testes de inteligência que por mais que venham a ser corrigidos de sua tendenciosidade, ainda assim não têm força para impedir a tendenciosidade dos cientistas que os interpretam.

Não obstante detectar a deturpação de determinados métodos estatísticos, principalmente quando os resultados almejados buscam diminuir os direitos à condição humana de outros seres humanos, ressalto duas questões de uma pesquisa realizada pela antropóloga Lilia Schwarcz, autora de “O Espetáculo das Raças”: (1) Você é preconceituoso? 99% responderam “não” e (2) Você conhece alguém preconceituoso? 98% res-ponderam “sim”. Cansado de números, me comovo com os versos de Telles Junior: “Meu peito é matriz onde canta Zumbi Sem toque de sinos, com imagens de Vida!”

Em quantos peitos ouviremos a canção de Zumbi dos Palmares, aquele herói enlouquecido de esperança e mentor de uma nação praticante da unidade racial? Como Richard Herrnstein faleceu recentemente, espero que Charles Murray possa apreciar esta canção.

3 Responses so far.

  1. Serei sincero! Não li o seu texto. As oportunidades cada vez mais escasseam para ler bons textos online, em especial com um amigo que me aconselhou há uns meses para ler mais livros e menos blogs (pois é, você mesmo, meu caro!).

    Mas o que gostaria de mencionar aqui é que as etnias africanas são, ipso facto, detentoras de uma coisa baixa – o chamado Q.I. padrão.

    O problema não está na inteligência deles, pois Mandela, Luther King e tantos outros personagens eram bem mais inteligentes do que eu poderia e ousaria, algum dia ser. O problema é que os Q.I. é uma unidade de medida ultrapassada e padronizada para um sector da humanidade: os ditos caucasianos! O problema é que o QI não mede inteligência, mede uma das milhares de manifestações da inteligência. Por isso é que nós psicológos, investigadores, cientistas do comportamento humano deveríamos ter mais cuidado com o que dizemos à imprensa, senão é como o caso do Dr. Watson que ninguém entendeu o que ele disse e caíram-lhe em cima, chamando-o de xenófobo.

    A unidade de medida das pessoas não é o QI. Não pode ser. O QI é das coisas mais obsoletas que existe na psicologia. E, mais, a alma humana é a sua unidade de medida. Somos aquilo que permitimos que a nossa alma manifeste, não uma série de perguntas feitas por um grupo de dois psicólogos estadunidenses!

    Assim, a miscelânea genética, só pode criar riqueza genética. Já o reducionismo científico cria erros e distanciamento entre os povos e as pessoas.

  2. Postado Por Luiz Domingos de Luna
    Professsor da E.E.F.M. Monsenhor Vicente Beazerra, rua Cel, José Leite s/n Aurora – Ceará CEP 63360000 tel (88)35433903
    15. LAMPIÃO NO MUNICIPIO DE AURORA

    TEXTO RETIRADO NA INTEGRA DO LIVRO AURORA HISTÓRIA E FOLCLORE, AMARÍLIO GONÇALVES TAVARES P. DE 138 A 146 IOCE, 1993

    Em virtude da amizade com o Coronel Isaias Arruda, na verdade um dos grandes coiteiros de Lampião no Ceará, o rei do cangaço, como era chamado, esteve, mais de uma vez, no município de Aurora. Em suas incursões pelo município sul-cearense, o bandoleiro se acoitava na fazenda Ipueiras, de José Cardoso, cunhado de Isaias.
    Uma dessas vezes foi nos primeiros dias de junho de 1927. Na fazenda Ipueiras, onde já se encontrava Massilon Leite, que chefiava pequeno grupo de cangaceiros, Lampião foi incentivado a atacar a cidade norte-riograndese de Mossoró – Um plano que o bandoleiro poria em prática no dia 13 do citado mês. Em razão do incentivo, Lampião adquiriu do coronel um alentado lote de munição de fuzil que, de mão beijada, Isaias havia recebido do governo Federal ( Artur Bernardes, quando este promoveu farta distribuição de armas a coronéis para alimentar o combate dos batalhões patrióticos ‘a coluna prestes(54)
    Presente aquela negociação, que rendeu ao coronel Isaias a considerável quantia de trinta e cinco contos de réis, esteve o cangaceiro Massilon, que teve valiosa influência junto a lampião, no sentido de atacar Mossoró, cujos preparativos tiveram lugar na fazenda ipueiras. Consta que Massilon Leite – associado a Lampião no sinistro empreendimento – tinha em mente assaltar a agência local do Banco do Brasil e seqüestrar uma filha do coronel Rodolfo Fernandes. O Bando de Lampião que chegou a Aurora ‘a Aurora era composto de uns cinqüenta cangaceiros, dentre os quais Rouxinol, Jararaca e Severiano, os quais já se encontravam, há dias, na aludida fazenda acoitados por José Cardoso. De Aurora, Lampião levou José de Lúcio, José de Roque e José Cocô ( José dos Santos chumbim), todos naturais da região de Antas, tendo sido incluídos no subgrupo de Massilon.
    No dia 13 de junho de 1927, Lampião ataca a cidade de Mossoró, a mais importante do interior do Estado potiguar. “ Após quarenta minutos de fogo, já tendo tomado duas ruas, Lampião ordena a retirada. Fracassara o seu maior plano (55)
    Após o frustrado ataque ‘a cidade norte –riograndese, Lampião bate em retirada, entrando no Ceará pela cidade de Limoeiro, onde não é importunado. Ali fez dois reféns a resgate – pessoas idosas e de destaque social- e teve a petulância de , com seu grupo, posar para uma foto, no dia 16 daquele mês.
    Ante a ameaça de invasão das cidades da zona Juaguaribana e já havendo um plano de combate ao famigerado bando, juntaram-se contingentes policiais de três estados – Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba – numa quixotesca campanha contra Lampião, tendo sido nomeado “ comandante geral das forças em operações “ o oficial cearense, Moisés Leite de Figueiredo ( Major ).
    No dia 16 de junho, a força paraibana havia seguido para Limoeiro, mas ao chegar ali, Lampião já tinha levantado acampamento. Prosseguindo em sua retirada pelo território cearense, com um grupo reduzido a trinta e poucos homens, em virtude da morte de dois dos mais temíveis cangaceiros – Jararaca e colchete – e das deserções que se seguiram ao malogrado ataque, inclusive a de Massilon Leite e seu sub-grupo, Lampião é perseguido por volantes, com as quais tava combates. Dentre estes, o mais intenso foi o travado no dia 25 de junho, na Serra da Macambira,, município de Riacho do Sangue, no qual Lampião, mais um vez, provou a sua invencibilidade. Enfrentando uma força de mais de trezentas praças, sob o comando exclusivo do tenente Manoel Firmo, este sendo auxiliado por nove tenentes – José Bezerra, Ózimo de Alencar, Luiz David, Veríssimo Alves, Antonio Pereira, Germano Sólon, Gomes de Matos, João Costa e Joaquim Moura, Lampião pôs-se em fuga incólume, deixando quatro soldados mortos. Seguram-se combates menores em cacimbas( Icó ), Ribeiro, no vale do Bordão de Velho, e Ipueiras os dois últimos no município de Aurora, com o rei do cangaço levando a melhor.
    No dia 28 de junho, Lampião contorna a serra do Pereiro, passando pelas serras vermelhas, Michaela e Bastiões- o Grupo marchava a pé, por veredas e nunca por estradas – tendo a tropa em seu encalço. É ai que Lampião resolve derivar para o lado do cariri e continuar a retirada em direção ao município de Aurora, onde esperava encontar refúgio no valhacouto do seu “amigo” Isaias Arruda.
    Em seu livro “ lampião no Ceará, narra o major Moisés Leite Figuiredo que, no dia 1º de julho de 1927, Lampião cm seu grupo estacionava no alto da serra de Várzea Grande no lugar olho d’água das éguas. E Que ali perto, no lugar ribeiro, já se encontrava as forças do tenente Agripino Lima, José Guedes e Manoel Aruda – o primeiro, da polícia do rio grande do norte, e os dois últimos, da polícia paraibana -, valendo salientar que tais contingentes totalizavam “ cerca de duzentos homens, bem aparelhados, no dizer do major Moisés. A tropa que teve encontro com os bandoleiros foi a do tenente Arruda, empiquetada no sítio Ribeiro, onde aconteceu um fato tão misterioso, quanto engraçado. Não obstante o lugar se achar “ bem guarnecido “, ao clarear a barra , “ O Grupo de Bandoleiros, sem sofrer o menor revés, passou entre as trincheiras, nas quais os soldados dormiam, para só despertarem depois, com cerrada fuzilaria, quando os bandidos não estavam mais ao alcance da pontaria da polícia” O Grupo ocultou-se no vale do Bordão de velho. Do local onde estava, lampião enviou dois cabras ‘a casa de João Cabral, morador ali perto, convidando-o a vir a sua presença. João Cabral a tendeu e Lampião disse-lhe estar com fome e sede, pedindo alimento e água para o grupo, no qual foi atendido.
    Marchando pelo pé da Serra da várzea grande, Lampião chega a fazenda Malhada funda, onde faz alto, sendo recebido pr por Gregório Gonçalves, que, após saber com quem estava falando, perguntou a Lampião em eu podia servi-lo. Este respondeu “ só quero comida para minha rapaziada. Gregório Mandou matar o boi que estava no curral, e duas ou três ovelhas. Os cangaceiros estavam com tanta fome, qe não esperaram. Comendo as carnes sapecadas. Os quartos de Ovelha, eles colocaram nos bornais sobressalentes, junto com farinha e rapadura.
    Ao retirar-se, Lampião levou João Teófilo como guia. Este saiu montado num burro que o bandoleiro havia tomado de um cidadão que estava commprando rapaduras. O Bando saiu na direção sudeste do município. Lá muito adiante, o guia foi substituído por outro de nome David Silva, tendo lampião recomendado a João Teófilo pra só voltar quando escurecesse, e que não fosse pelo mesmo caminho.
    Continuamos a narrativa, baseada no livro do major.
    “ em sua marcha, Lampião procurou a Serra do Coxá, na divisa do município de Aurora com o de Milagres, burlando a vigilância dos policiais, de tal modo que estes se afastavam do ponto em que estavam os bandidos, tomando o rumo de Boa Esperança, serrote do cachimbo, Riacho dos Cavalos, Ingazeiras e Milagres. Como se Vê, Lampião era um perito em estratégia Militar. Uma de suas táticas consistia em ludibriar a polícia que andava no seu encalço, como fez, quando procurou a Serra do Coxá. Deste modo, tornou-se inócua a providência do Major Moisés, designando o tenente Caminha para colocar piquetes nas estradas, uma vez que, por estas, não passarias o grupo de bandidos. Enquanto Lampião ficava escondido na Serra do Coxá, O tenete Manoel Firmo seguia para o lado oposto, isto é com a sua tropa, passava de trem por Aurora, em demanda ao cariri, sem dar stisfações ao seu chefe, major Moisés, que naqueles dias se encontrava em nossa cidade, em tratamento de saúde. Com o tenente Manoel Firmo, vijavam os tenentes Luis Leite, laurentino, Moura Germano, em passeio a Juazeiro e Crato, totalmente despreocupados com os bandidos.
    Para piorar a situação do “ comandante das tropas “ em operações”, chegavam em Aurora o contingente comandado pelo tenente Agripino de Lima, que conduzia trinta e quatro animais de montaria, tomados a fazendeiros de icó, pereiro e Jaguaribe. Q uando o Major pensava que o oficial vinha em seu auxilio, o tenente agripino comunicava-lhe que resolvera abandonar a campanha e voltar pra o Rio Grande do Norte. Diante disso, o Major Moisés apreendeu os referidos animais, entregando ao sr. Vicente Leite de Macedo, com a recomendação de devolvê-los aos respectivos donos. Além dos animais tomados a sertanejos, o Major Moisés constatou irregularidades na tropa do tenente Agripino, como a venda de munição feita por praças e muitas destas se entregando ‘a embriaguez.
    A Atitude do tenente Manoel Firmo, viajando para juazeiro e Crato, arrastando o grosso da tropa e quatro tenentes, deixou o comandnte Moisés “ num mato sem cachrorro “ . O Major viu-se na contigência de pedir ajuda – imagine o leitor a quem _ Ao coronel Isaias Arruda, o mesmo que, tempos atrás, havia acoitado lampião,mas que, agora, dava uma de perseguidor do bandoleiro, pondo oitenta e sete cabras á disposição do major Moises. Se no combate travado com os bandidos, na serra da macambira, havia cerca de 400 praças, como se explica ter o major Moisés levado para ipueiras apenas 15 soldados. Descoberto o paradeiro de Lampião no alto da serra do coxá, destacaram-se elementos de confiança para, aproximando-se do grupo, conhecerem melhor a sua posição, dentre eles Miguel Saraiva, tio de um dos bandoleiros e morador nas proximidades. Foi entã que o Major Moises e Isaias arruda conceberam um estratagema, que consistia em preparar um almoço para lampião e seus cabras, na casa de José Cardoso, em ipueiras, e juntos, abaterem o bandido, e juntos, abaterem o bandido nas hora conveniente. Miguel Saraiva se faz acompanhar de oito homens que se apresentam a Lampião, fingrem que são perseguidos pela polícia, e para melhor comover o chefe do bandoleiros, lamentam e choram a sua desgraça, tentando com isso, infriltrar-se no bando. Alguns bandoleiros aceitaram a presença de novos companheiros, ma Lampião logo faz sentir que não acolhia em seu grupo pessoas que lhe fossem estranhas” os oito homens de Miguel Saraiva tinham recebido instruções para atacar os bandido na hora em que o grupo “ decançasse” a arms para almoçar. Simultaneamente, os soldados e jagunços puseram-se discretamente em volta de casa, prontos para fechar o cerco aos bandidos, no momento oportuno. Mas o ardil fracassou, porque Lampião, sagaz,, arisco e desconfido, chegou a rejeitou o almoço oferecido por Miguel Saraiva. E colocou sua gente em pontos diversos e estratégicos.
    Eis como o major Moisés descreveu o tiroteio,
    “ Conhecido o fracasso do estratagema, fomos impelidos a atacar os bandidos, com ´mpeto, de sorte que, em pouco tempo, estavam debaixo de cerrada fuzilaria. A luta teve início pouco mais ou menos ‘as 12 horas do dia 7 de julho, tendo uma duração de mais de três horas, trminou infelizmente, porque os bndido caíram em fuga, e no campo deixaram dois mortos, um queimado, que recebeu v´ris ferimentos, e outro também morto na ocasião em que fugia”
    Essa foi a história narrada pelo major Moisés no citado livro. Entretanto, existe outra versão para o episódio segundo nos contaram Róseo Ferreira e Vicente Ricarte que , na época, moravam nas proximidades da fazenda ipueiras, a coisa aconteceu assim.
    O Major Moisés Leite e o Coronel Isaias Aruda combinaram um plano de acabar com Lampião, assim que este chegasse em Ipueiras, pois sabiam que o grupo vinha desmuniciado e bastante desfalcado, em conseqüência da derrota sofrida em Mossoró em Mossoró e das deserções que se seguiram ao frustrado ataque aquela cidade norte riograndense.
    Lampião ficara na manga com a cabroeira. Convidado pra almoçar na casa de José Cardoso, na citada fazenda Ipueiras, o Rei do Cangaço compreceu com alguns dos seus rapazes. Quando Miguel Saraiva chegou e pôs sobre a mesa o alguidar contendo o almoço envenenado, Lampião tirou do bornal um colher de latão e meteu-a na comida. Quando puxou a colher, o bandido notou mudança de cor e deu alarme. “ ninguém come desta comida. Esta comida está envenenada! Nisto, lampião se os seus cabras conseguem romper o cerco de um cordão de jagunços e soldados a paisana que se formara em volta da casa, e oco em volta da casa, e correm pra a manga onde ficara a maior parte da cabroeira, sendo atacados pelo cabras de Isaias e soldados do major Moisés.Ao mesmo tempo em que estrugiu a fuzilaria, os atacantes lançaram fogo na manga, por todos os lados do local em que estavam os cangaceiros. Lampião investiu várias vezes contra os atacantes, conseguindo, por fim, escapar por um corredor. Lampião perdeu dois cangaceiros, m queimado e ferido por ocasião do ataque. O Outro, com ferimento no ouvido, ficou em ipueiras, em tratamento, mas os coiteiros acabaram de mata-lo, tocando fogo no cadáver…
    Ao escapar do cerco de Ipueiras, lampião tomu o rumo da será do Góes, perto de São Pedro do Cariri, atual Caririaçu. Veja o leitor o Zig- zag feito por lampião para confundir a polícia. No dia 7 de julho, saiu de ipueiras, desceu pelo riacho do pau branco, atravessou o rio Salgado no lugar barro vermelho, passou pelos sítios Jatobá e Brandão, fazendo “ alto “ em vazantes. Na serra dos quintos, fez um refém – o Sitiante Joaquim de Lira – para ensinar o caminho para a serra do Góes, onde chegou, no início da noite. Na manhã do dia 9, lampião deixou a serra do do Góes e rumou para o município de Milagres, atravesando a vi –ferrea no lugar morro dourado. O Major Moisés havi mandado tomar as ladeiras da Serra do mão zinha e são Felipe, por onde poderia pasar o bandoleiro. Mas lampião, mas uma vez, conseguu burlar a foca policial e penetrou no estado da Paraíba, pela serra de Santa Inês, no rumo de conceição do Piancó, de onde prosseguiu em fuga pra pernanbuco
    *54 Frederico Pernanbucano de Melo, op. Cit. P 32
    *55 ibidem, p. 116.

  3. Postado por Luiz Domingos de Luna
    Professor da E.E.F.M.Monsenor Vicente Bezerra, Rua Cel José Leite s/n Aurora Ceará CEP 63,360.000 TEL 8835433903

    NOTAS SOBRE O POETA SERRRA AZUL

    Nos idos de 1919 chegava a Fortaleza o poeta Serra Azul. Tinha 26 anos, pois nascera a 3 de maio de 1893 no sítio Pau Branco do município de Aurora – Ce . Aos 4 anos de idade ficara órfão de pai e mãe, sendo criado por uns tios que não tinham filhos. Aprendera a ler valendo-se de retalhos de jornais, fragmentos de livros escolares, almanaques e folhetos que conduzia, às escondidas, para a sombra do marmeleiro e do mofumbo, arbustos que caracterizam as caatingas do nordeste. Aos 15 anos recebera de Luiz Gonçalves Maciel as primeiras noções. Esse Luiz Gonçalves Maciel havia sido seminarista e era tudo em Aurora: professor, mestre de música, sacristão e farmacêutico. Como sacristão, substituía o vigário nas suas ausências, ministrava sacramentos e fazia pregações; como farmacêutico, era o médico do lugar e das aldeias vizinhas. Maciel encontrava-se em Malhada Funda, na zona do ribeirão Tipi, afluente do Salgado, foragido de Aurora, quando a cidade fora invadida, incendiada e saqueada, em 1908, pelos cabras de José Inácio, do Barro, e de Cândido Ribeiro, mais conhecido por Cândido Pavão. De Lavras, onde residiu o nosso perfilado algum meses, saiu a peregrinar pelo sertão como professor de meninos, detendo-se na Serra azul, a leste de Quixadá, em 1912, quando tratou de construir família. Participando de reuniões na chamada Cidade dos Monólitos, começou a fazer sucesso como improvisador, sucesso que repercutiu em Fortaleza. Juvenal Galeno, Rodolfo Teófilo, Antonio Sales, Quintino Cunha e Leonardo Mota convenceram-no a fixar-se na capital, onde conseguiria emprego. Mas do dinheiro que esse emprego lhe rendia nada sobrava para a compra de livros. a família aumentava de ano em ano. Assim, passou a freqüentar todas as noites, a biblioteca pública. Lia muito, lia até se apagarem as luzes do prédio. Ás vezes era visto em companhia de literatos, e os jornais começavam a publicar as suas poesias. A conselho de Rodolfo Teófilo, resolveu adotar o nome de Serra azul, Não mais como apelido, porém como nome de família. Hoje além de poeta, é o professor de história natural e geografia. .

    Francisco Leite Serra Azul. De uma memória de anjo, sabe de cor mais de 100 sonetos de Bilac, o seu preferido, e conhece, a fundo, as geografias físicas do Brasil, sendo capaz de responder sobre qualquer dos seus acidentes. Publicou Serra azul em 1924 o Alfabeto das Musas e em 1938 Natureza Ritmada. Ambos esgotados. alfabeto das Musas contém os versos da fase lírica do autor. Alice é o modelo dos demais sonetos dessa fase. Francisco Leite, que veio do interior quase inculto, fixou-se aqui e vencendo terríveis dificuldades conseguiu cultivar seu espírito, manter e educar sua numerosa família. Hoje é professor, e com o nome de Serra Azul tornou-se um de nossos poetas mais conhecidos. É de sua autoria o volume Natureza Ritmada, aparecido ultimamente e que foi uma vitória para o seu talento. Trecho publicado em O Ceará, de Raimundo Girão e Antonio Martins Filho, Edição de 1939 – editora Fortaleza. Rio de Janeiro, 9 de julho de 1977. Meu prezado poeta Francisco leite Serra Azul ( Serra Azul )Alameda das Verbenas, 322 – Q. 13 Aldeota fortaleza – Ce. Pax Tenho participado de vários livros do Aparício, menos deste último: anuário de poetas do Brasil – 1 vol. 77, onde, com satisfação acabo de ler os seus 10 sonetos, sob a denominação Versos bucólicos. Confesso – lhe, meu preclaro poeta, que estou maravilhado são 10 sonetos bucólicos muito bons , o que é bastante raro, hoje em dia, acontecer. Meus efusivos parabéns. Gostei muito dos seus: A farinhada, Aurora, pequeno munduru e a lua, todos de um fino lavor e bela inspiração. São difíceis de se fazer. Bravos. Queira dar – me a honra de ler o meu segundo livro de poesias: pensamentos poéticos, propaganda anexa, com 134 novos sonetos, entre alexandrinos, decassílabos e sonetilhos que tenho absoluta certeza de que irá gostar. Não o decepcionarei, meu estimado confrade e, desde já, aceite o meu abraço agradecido e os votos de boa saúde e inspiração. Do seu admirador. A poesia de Serra Azul. Francisco leite serra Azul é inconfundível com os demais poetas do Brasil. Inconfundível porque a sua poesia é de cunho científico – filosófico, ainda não cultivado no Brasil, filiando-se aos gêneros de Lucrécio, Ovídio e Goéthe. Seu livro Natureza Ritmada é uma prova disso. E o livro Versos Bucólicos pelas amostras que temos e pelo que verificamos na intimidade do poeta, não é mais do que uma continuação daquele no seu gênero predileto. Apenas a variante está em que Natureza Ritmada é cosmogônico. Dedica-se aos assuntos da astronomia, da física, da química, da meteorologia, da biologia e da fisiologia e anatomia humana. E matematicamente, entra pelos campos da geometria, onde descreve na Fôrça cósmica um universo de círculos, eclipses, triângulos e linhas, falando sobre a curva do tempo e as Dimensões do Espaço, onde entram em choque as leis da gravitação universal de Newton com as da relatividade de Einstein. Penetra ao fundo dos abismos estelares onde se acha a estrela Antares com seus 370 anos de luz distante de nós e que nenhum poeta como Bilac tem ouvidos para ouví-la ou entendê-la. E com a mesma facilidade desce aos profundos vales submarinos onde emitido luz como os radiários, fala do motu-continuo e da evolução na luta universal. Este é o enredo de natureza ritmada. Ao passo que versos bucólicos é geogênico ou geofísico. Trata de assuntos relativos ao adubo da terra, aos minerais, as plantas e aos animais. É todo dividido em ordem metódica. Há uma série de poemas e sonetos sobre plantas industriais e alimentícias outra sobre plantas medicinais, ornamentais e hortenses, outra sobre árvores frutíferas, árvores nativas e árvores


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