No último dia 10 de dezembro fui entrevistado juntamente com Tania Montoro no programa “Literatura & Cinema” da TV Senado. O entrevistador foi o veterano jornalista Augusto Setti. O programa se estendeu por exatos 40 minutos. O assunto foi minha tese de mestrado “Macabéa vai ao Cinema”.

É instigante como esse tema vem capturando interesse, atenção da mídia. Não é de hoje que sabemos que a grande parte dos roteiros de filmes tem como fundamento a extensa lista de romances e novelas já existentes e apenas uma pequena porção dos roteiros foram feitos diretamento para o formato filme. Isso me faz pensar a velha questão que circunda qualquer livro levado às telas: o livro ou o filme, qual ficou melhor? Por exemplo, particularmente, gostei muito mais do filme Olga (Jayme Monjardim, 2004) do que o livro Olga (Fernando Moraes, 1985).  No entanto, gostei imensamente do livro Sidarta (Hermann Hesse, 1922) do que do filme Sidarta (Conrad Rooks, 1972). Poderia listar dezenas de livros que não se deram bem na linguagem do cinema e cada um por uma questão específica e muito distinta. Mas também existem livros que são excelentes roteiros. Um exemplo? Jane Austen (1775-1817), a célebre autora de obras-primas como “Orgulho e Preconceito”, “Razão e Sensibilidade”. Seus textos privilegiam o diálogo, as locações são quase que invariavelmente os amplos aposentos, os ambientes internos das residências e nunca as paisagens. Seus livros terminam funcionando muito bem como ótimos roteiros.

Temos o caso do Dr. Jivago. Neste, narrativa e ação se fundem o tempo todo. A novela de Boris Pasternak, teve sua primeira publicação em italiano no ano de 1957, e foi aclamado como um ousado desafio a censura russa. É um texto literário de primeira grandeza e como ali tudo é descrito nos mínimos detalhes, provavelmente isso pode ter inspirado o diretor David Lean a transpô-lo para as telas, ainda em 1965, onde se imortalizou, com a presença do egípcio Omar Sharif como Yuri Jivago e Julie Christie como Lara. Sem falar que o “Tema de Lara”, composta por Maurice Jarre para o filme, continua sendo uma das mais belas e emblemáticas trilhas de filmes na história do Cinema.

Pano rápido para uma simpática anedota.

Dois ratinhos entretidos em roer rolos de filmes em Hollywood, uma pergunta para o outro:

— E aí, você já roeu aquele filme lá?

— Sim.

— Gostou?

–Não. Prefiro o romance.

Então… não podemos deixar de pensar que as duas linguagens assumem códigos muito diversos. E também que o leitor do livro cria e recria os personagens de acordo com sua imaginação e gostos enquanto que ao cineasta cabe a responsabilidade de dar um corpo, um rosto, um sotaque humanos a cada personagem e também a escolher as paisagens onde os personagens irão interagir. Uma coisa é certa: É ultrapassado o debate sobre uma linguagem ser superior ou inferior à  outra. Cada uma com sua especificidade. O que não dispensa a genialidade do que escreve e do que dirige. Ficamos por aqui.

One Response so far.

  1. SAM disse:

    O que distingue uma versão da outra, é que a versão literária escrita, cada vez que a lemos, temos a liberdade de poder construir os cenários e os personagens e os diálogos e as ações de formas diferentes e, mais, cada leitor o faz de forma diferente. Já na versão visual, cinematográfico, estamos todos vendo parte da leitura do diretor e dos produtores e de toda a equipe técnica e não a nossa leitura.
    Acho que a grande diferença está aí.

    Pessoalmente creio que raras obras cinematográficas conseguem abarcar a magnitude das obras escritas. Seja o My Fair Lady que não é o mesmo o o Pigmaleão de Shaw, ou seja o Planeta dos Macacos que pouco têm a ver com as ideias de Boullet…

    Não será ver quem é superior, mas, talvez, quem permite maior desenvolvimento imaginativo.
    Um graaande abraço!


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