Caetano ajudando Zeca no reforço escolar

Depois de um bom tempo resolvi ver o que Caetano estava pensando. E gostei. É que ele pedia desculpas (Caetano pedir desculpas?) por ter andado longe da blogosfera e nessas semanas estar acompanhando as lições de casa do seu filho Zeca. Ensinou literatura e português ao filho e foi todo ouvidos ao que o filho lhe falava sobre as aulas de biologia e química. É quase impossível flagrar, com direito a testemunho escrito e tudo, uma celebridade da MPB fazendo algo tão prosaico e ao mesmo tempo tão essencial quanto dedicar tempo a tomar lições de aula do filho. O resto dos comentários estava com o DNA do artista: pretensioso, dono-da-verdade, avesso a qualquer forma de crítica, espraiando um jeito de intelectual arrogante que o acompanha há tanto tempo. Encontrei também seus habituais elogios do tipo lindo-de-morrer, maravilhoso-gênio-da-raça ao se referir a este ou aquele compositor. Após a leitura senti falta de saber da vida de Chico Buarque. É impressionante como Caetano e Chico se cruzam, ligam, comunicam. É que em Chico temos o inverso de Caetano: discreto, econômico em elogios, avesso a ações marqueteiras, tímido e culto o suficiente para recriar do nada uma visão do zeitgeist que vivemos. Não é de hoje que aprecio o fazer-arte de Chico. Há pouco tempo mesmo escutei no carro sua interpretação, sempre intimista (e mesmo que seja cantando um samba, um breque) da bela ‘Incompatibilidade de gênios’ de João Bosco e Aldir Blanc. É que Chico inspira confiança e cumplicidade enquanto Caetano sempre nos faz pensar algo como qual-a-jogada-de-marketing embutida nessa idéia (transamba, por exemplo) ou nessa declaração sobre isso e aquilo? É que por muitos anos Caetano tem estado sob os holofotes e nem sempre devido à sua verve artística. Não quero ficar comparando os dois, pois são como leguminosas muito distintas. Mas saber que Caetano colabora com um reforço escolar ao filho é, acima de tudo o mais, uma ótima notícia. Quem sabe daí não surge uma letra soprada por nossos monstros sagrados da literatura? Seria ótimo se Caetano colocasse música em um texto de Clarice Lispector… um daqueles enfeixados em ‘A descoberta do mundo’ (Rocco, 2002).


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