Nas últimas 48 horas, em Teerã, a truculenta polícia do Estado acaba de fechar o escritório daquela que certamente deve ser a mais proeminente mulher iraniana nesta alvorada do século XXI: Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz de 2003.

 Gostaria de não mais me surpreender com notícias como estas pois no Irã liberdade de pensamento e de crença é artigo de alto luxo e nenhuma Maison  Chanel teria para oferecer aos sofridos iranianos que ousaram pensar e crer livremente, tendo como guia sua própria consciência interior, algo tão abstrato e fugidio que sempre estará fora do alcance das forças obscurantistas da repressão.

 Para fechar o escritório de Shirin Ebadi, uma magistrada, a primeira mulher iraniana a se destacar no judiciário daquele pais e uma conhecida defensora dos direitos humanos, nem foi necessário ter em mãos o habitual mandado judicial. É que no Irã os direitos mais comezinhos que dão acesso ao código civilizatório parece ser diariamente pisoteado. Na esteira desses e outros acontecimentos sombrios, onde o sol dos Direitos Humanos parece ser impedido de irradiar sua luz, encontramos toda uma comunidade religiosa à mercê de toda forma de arbitrariedade: são os 300.000 membros da Comunidade Bahá’í daquele pais.

 Após cumprir um real abecedário de violações, que incluíram desde a destruição dos lugares sagrados dos bahá’ís até a prisão e sentenciamento à morte de muitos desses cidadãos, encontramos ainda a intimidação e o seqüestro de bens, o confisco sumario de suas posses, a profanação de seus cemitérios, a suspensão do pagamento dos proventos de seus aposentados e, como o saco de maldades sempre resta algo mais, nos últimos quatro ou cinco anos a pressão física e psicológica tem se voltado com fúria aos estudantes bahá’ís, aos jovens bahá’is que são impedidos de estudar em universidades de todo o pais por cometerem o desatino – sim, no Irã de hoje continua sendo um desatino! – de professar uma crença que abraça todas as religiões, que promove a igualdade de direitos para homens e mulheres, que defende a abolição de toda forma de preconceito de classe, cor e credo, mas também jovens – como seus pais e avôs o fizeram em passadas gerações – que acreditam devotamente na unidade de Deus, na unidade da religião e na unidade da humanidade.

 É chegado o momento de todos os que detêm poder e autoridade revisarem as lições deixadas pela História. Estas lições dão conta que o futuro não abriga os que praticam o mal como estilo de vida, não é leniente com quem se compraz em exterminar grupos minoritários e muito menos tem sido tolerante com quem esquece que o que pode distinguir um ser humano de outro nada mais é que a nobreza de um caráter. A História, felizmente, tem deixado um rastro luminoso de justiça, soterrando iniqüidades (e seus vistosos autores) e, de quebra, relegando a notas de rodapé as biografias dos que hoje sacrificam os postulados da dignidade humana sobre o altar de seu poderio ocasional, temporal e efêmero.


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