Um ano sem João Régis

regisHá exatamente um ano ressoou na avenida Hermes da Fonseca, em Natal, o tiro que calaria uma das mais robustas, corajosas e generosas vozes de geração de 1970. Refiro-me à execução de João Régis Cortês de Lima, açuense, idealista, poeta e para os requerimentos formais, advogado trabalhista. O tiro que ceifou João Régis impediu centenas de novos poemas, novos em folha, que certamente iriam continuar pontuando uma trajetória de muitas lutas: luta pelo direito à liberdade de expressão luta por melhores salários, luta pela dignidade humana, luta irônica (vê-se hoje) pela segurança pública.

Privei da amizade de Régis. Éramos jovens açuenses em Natal e transcorriam arrastando-se anos de triste memória como 1974, 1975, 1976. Morávamos na Cidade Alta, ora em pensionato destinado a estudantes vindos de cidades do interior, ora em pequenos hotéis, já em franca decadência, como o Hotel Brasil, nas proximidades do Winston Churchill, na descida da Rio Branco. Deste ultimo local trago as memórias mais nítidas. Varávamos a noite em meio a discussões inúteis, tentando à nossa maneira encontrar um sentido para a vida. Naquele quarto apertado do Hotel Brasil líamos esta ou aquela frase de Hermann Hesse. Condenávamos Emil Sinclair a ser o eterno lobo da estepe. Percorríamos Demian em busca de outros significados que não aqueles muito aparentes, da luta incerta contra a mediocridade e decididamente a favor do ideal de que cada vida estaria talhada para a felicidade. Avançávamos sobre Nietzsche e seu pessimismo, já rescendendo aos textos seminais de Schopenhauer. Concordávamos que éramos realmente humanos, demasiadamente humanos. Garrafas de café eram esvaziadas e as discussões pareciam sempre dízimas periódicas, batalhas verbais destinadas a não terem fim. Algumas vezes aproveitávamos o sábado para assistir à última sessão de cinema do Rio Grande e depois saíamos caminhando para o caldo de cana Orós, numa antiga encruzilhada urbana situada entre a Rio Branco e a Vigário Bartolomeu. O cardápio deixava a desejar em variedade, mas era certeiro na pedida: bauru com caldo de cana.

A fala do Régis era sempre marcada por certo grau de solenidade. Havia certo quê de proclamação histórica. Era como ele elaborava o discurso: não havia tempo a perder e a na vida não havia ensaios, tudo acontecia de pronto, de imediato, não havia como refluir à passagem do tempo. Ele estava certo: na vida não existe tempo para ensaio. Vivemos e pronto. O roteiro vai se desenvolvendo ao ritmo da própria respiração. Falando assim parece que ocupava um papel secundário nessas tertúlias literárias, mas a verdade é que em nossas conversas não existiam vencedores, nem perdedores. Estávamos sempre às voltas com o prazer de argumentar e nem sempre o fazíamos com o intuito de convergir. E havia todo um respeito pela opinião do outro. Passamos juntos os sucessos que foi Fernão Capelo Gaivota do Richard Bach e também deitávamos raízes profundas no pensamento enfeixado em Terra dos Homens, de Saint-Exupéry. Estávamos vivendo, respirando os tais anos de chumbo e não tínhamos como sobreviver intelectualmente se não fossemos buscar abrigo no pensamento existencialista deste ou daquele pensador europeu. Depois de 1977 nossas vidas seguiram caminhos distintos. Fui viver um ano entre os índios Kiriris no sertão baiano Régis foi cursar Direito, ajudou a fundar partido trabalhista, começou uma militância aguerrida pelo belo, o bom e o justo. Da vida entre os índios iniciei outras viagens e fui parar em Nova Déli, Tel Aviv, Abu Dhabi, Katmandu, Frankfurt, Paris, Guernica, Valência, Havana. Enquanto viajei pela geografia de todos os continentes Régis empreendeu a mais longa viagem, aquela que liga e une o coração à mente. Sei que ele gostaria muitíssimo de ter viajado a Machu-Pichu, a cidade hoje peruana, que ainda guarda o esplendor do império Inca. Sei também que ele não conseguiu ir mas que escreveu um belo poema a ser lido por Roberto Monte quando lá chegasse. Isso foi por volta de 1981, 1982. Nesse período escreveu muitos poemas, poesias, crônicas. Preencheu extensos cadernos, elaborou livros e livros e depois os trancafiou em algum imaginário baú. Enquanto seguia publicando um livro aqui e ali, seja no Rio de Janeiro ou em Guadalajara, em São Paulo ou em Buenos Aires, em Madri ou em Brasília, em cada ano fui vendo em letra impressa meus cometimentos literários. Régis não viu ou sentiu esse prazer que é ver seu texto acarinhado pelo formato 14 x 21 de livro, não passou pelo desgaste de negociar com editores nem sempre entendidos do pensamento do autor e muito menos passou uma tarde ou uma noite decidindo entre três ou quarto capas com esta ou aquela concepção para embalar seu novo rebento. É que ele construía uma obra interior densa, para dentro, iluminada pela luz maior, aquela que derrama significados luminosos sobre percepções aguçadas pela voz de uma consciência livre.

O riso franco de Régis uma vez engrenado era por si só uma experiência memorável. Ele ria com a alma, com prazer e com gosto. Porque a intensidade parecia vestir seus atos, gestos e atitudes. Não havia mornidão na vida de quem tinha João Régis no rol das amizades. Idealista desde muito novo ele ousou dizer a que viera. E viera espalhar boas memórias, dar um brilho especial em meia dúzia de estrelas, libertar o pensamento maroto das preocupações do dia a dia, escavar fundo nas contradições da alma humana. Depois, em 1985, casei e daí sou pai de três meninas e um menino. Thomas, Jordana, Anísa e Lara. Sei que Régis casou e teve três filhos, dois meninos e uma menina. Imagino que deve ter sido um pai fantástico e deve ter legado a cada um uma forma peculiar e sempre densa de ver a vida. Ninguém é filho de João Régis Cortês de Lima por acaso. Algo de nobre, belo e justo deve surgir daí. É esperar para apenas conferir.

Há um ano Natal mudou de eixo. E mudou porque Régis deixou de estar conosco. Habita agora uma galáxia inteiramente dedicada aos verdadeiros artesões do mundo: os sonhadores. Queria muito tê-lo reencontrado uma vez mais. Não pressentia que um dia após meu aniversário (8/2) a tragédia iria se abater sobre sua vida.  A verdade é que desejava tanto tanto encontrá-lo que mesmo que ele chegasse cedo ainda assim seria tarde.


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