Da altura de uma gilete deitada

É fato que desde tempos remotos a humanidade tem uma atração (quase fatal) pelo desconhecido, pelo oculto, pelo que se cerca de segredos e mistérios. Já no Gênesis, o primeiro livro bíblico, encontramos a história de Adão não resistindo a provar a fruta proibida, aquela maça do Éden. Após prová-la, ficamos todos, segundo a teogonia judaico-cristã, contaminados pelo pecado original e de lá para cá é só arrastar correntes. Conta-se de pilheria, é claro, que Eva era tão ciumenta que nunca dormia sem antes haver contado todas as costelas de Adão. Depois temos a mulher de Lot que deveria evitar a todo custo lançar um olhar sobre Sodoma, cidade na iminência de ser destruída pelo fogo vingativo do Senhor por causa de suas iniquidades. No mesmo Gênesis ficamos sabendo que a mulher de Lot não resistiu (à curiosidade) e terminou virando estátua de sal. Estive em Israel em 1983 e como fui brindado com um guia bem informado, este em uma tarde de abril apontou para uma pedra, com perfil humano, e afirmou com  voz grave: “Isto foi o que restou da mulher de Lot!” A história da curiosidade humana é tão ou mais antiga que nosso primeiro traço de humanidade.

Iniciei com essas considerações para me acercar do fascínio exercido por programas com grande sucesso de público ao estilo do Big Brother Brasil. Não resta dúvida que um fator preponderante para tão elevada audiência é a curiosidade, o desejo e em algumas vezes a obsessão para saber como outras pessoas levam suas vidas, se portam no cotidiano, revelam ou preservam sua intimidade, expressam ou ocultam estes e aqueles valores, expõem pensamentos, demonstram esse ou aquele senso de humor, se vestem ou se despem dessa ou daquela maneira e, ainda mais, demonstram comportamentos éticos ou aéticos, agem dessa forma em público (nos vários aposentos da casa) ou de outra forma quando na privacidade da cabine de votação, no chamado confessionário.

Há nove anos a história se repete: de janeiro a março a emissora de maior audiência da televisão brasileira apresenta, em horário nobre, o programa rei do merchandising, o Big Brother Brasil. São 15 pessoas escolhidas dentre milhares de postulantes a terem suas vidas devassadas na telinha, apenas um e somente um conseguirá passar por provas de resistência, gincanas de intrigas, relacionamentos mais físicos que afetivos, provas de cultura inútil, votações para exclusão do programa e um festival sem fim de banalidades, vidas vazias esvaziando as dos demais, aqueles milhões que têm na testa a palavra “audiência”. O certo é que ao fim da temporada milhares de horas terão sido desperdiçadas  em um festival sem fim de banalidades.

Ë um círculo vicioso: a emissora coloca o programa no ar porque consegue, com pouco custo de produção, imensa audiência que, por sua vez, estimula patrocinadores a comprarem esse espaço – privilegiado – para vitrine de suas marcas. Na edição de 2009 Ambev, Johnson & Johnson, Niely, HSBC e Fiat desembolsaram R$ 11 milhões cada uma na aquisição das cotas máster de patrocínio de atração. Só essas cinco empresas repassam à Globo R$ 55 milhões. Adicione-se ainda o telefone-caça-níquel”: com ligações para o “paredão”, a Rede Globo leva uma boa fortuna. São cerca de 20 milhões de votos em um único paredão e por paredão se arrecada por baixo R$ 6.200.000,00. São  previstas 16 semanas, logo 16 paredões, totalizando R$ 99.200.000,00 apenas com telefonemas para votar em quem deve sair da casa. Bem, considerando um plano “meio-a-meio”, uma edição, a Globo fatura R$ 49.600 mil só em paredão. Mistério desfeito: a Globo ganha, por baixo, por baixo, uma receita de R$ 104.600.000,00. Segundo analistas do programa, além dos 5 grandes já citados, o BBB9 deverá atrair mais 11 diferentes anunciantes para “protagonizar” cerca de mil ações de merchandising milionário… Nessas contas não me detive ao fato de que todo e qualquer objeto da casa do reality virou uma oportunidade de negócio para a Globo. De edredons — idênticos aos dos quartos do confinamento — a aventais, a emissora está comercializando em seu site (www.globomarcas.com) vários produtos ligados ao programa. O programa Big Brother Brasil 9 é uma máquina de fazer dinheiro, expor as vidas vazias de uma dezena e meia de jovens que acreditam piamente estar jogando o próprio jogo da vida, com suas expressões acéfalas dizendo a si mesmas (e a todo o Brasil) que estão ali lutando por seus sonhos. Mas é também um programa capaz agregar milhares de pessoas pessoas que têm algo em comum: são mordazes na crítica ao seu formato, ao seu apelo popular. No balanço financeiro final, a verdade é que o ganhador leva para casa R$ 1.000.000,00 ou seja, 0,9% da receita computável enquanto a emissora embolsa 99,1%. Mas a emissora também tem custos com o programa, não? Tudo bem. Descontemos desse nosso exercício mental o que a Globo dispende com a produção do programa (casa, água, luz, câmeras, comida, passagens aéreas, cachês de artistas, Pedro Bial etc). Penso que deve ser uma cifra por volta de uns R$ 3.000.000,00 no trimestre, somando-se também nesse cálculo os prêmios (R$ 1 milhão, R$ 100 mil e R$ 50 mil). Sejamos generosos, vai. Que tal arredondarmos os custos de produçao do programa para R$ 5 milhões?

Está nos sites noticiosos que a Globo estuda esticar o “BBB 9 até 7 de abril, devido à audiência (o reality show está tendo desempenho quase igual ao da novela das oito) e à demanda comercial. Inicialmente, acabaria em 24 de março. Já foi prolongado até 31, para atender a anunciantes. Mas o que será registrado para o futuro mal dá para formar uma simples frase: existirá em 2010 um programa com  média diária de 30 a 33 pontos de audiência, que renda, por baixo,  105 milhões de reais em ’apenas’ 3 meses?

A robustez dos lucros, o ingresso fácil de receita em contraponto a uma produção enxutíssima me faz pensar que dificilmente a Globo deixará de editar ano a ano uma edição cada vez mais despudorada de sua galinha dos ovos de ouro. Afinal, não é esta a meta perseguida por 10 entre 10 empresas, que seu produto lucre ao máximo com um mínimo investimento? Pensando assim, fiquei tentado a propor – neste texto – alguma coisa que desse um mínimo de conteúdo ao formato da holandesa Endemol. Mas é que que existem coisas inegociáveis. Princípios, filosofias de vida, valores humanos são coisas que não podem ir parar no balcão de negócios. O senso de privacidade entra aqui. Ter como valor máximo da vida ganhar R$ 1 milhão não me parece ser um valor em si e sim correr atrás de um seguro contra uma possível miséria material. Expor corpo, mente, alma, ao estilo 3 em 1,  como frutas penduradas em barraca de feira não me parece uma filosofia de vida e sim o tudo ou nada em troca de dinheiro.

Vamos à pergunta do título lá em cima. Entendo que existem coisas em que simplesmente não existe margem para uma melhorada. Conteúdo nem sempre pode ser alocado em toda e qualquer estrutura. É que certas coisas trazem consigo um certo vício de origem e sua pedra de toque é um colossal equívoco conceitual. E também não consigo disfarçar que vejo, neste programa em especial, um certo mau-caratismo que, para realmente poder ser aperfeiçoado, teria que simplesmente deixar de existir na grade de programação de qualquer emissora que preze a cidadania, os valores humanos e que tenha um compromisso mínimo com qualidade de vida da população. E se tal compromisso existe, este deve ser da altura de gilete deitada.

2 Responses so far.

  1. Ricardo Oliveira disse:

    Oi…..

    Vim pra cá porque tomei conhecimento de seu blog no Observatório da Imprensa.

    Sabe porque a sua sugestão de mudança cultural para o Big Brother não daria certo, mesmo sendo assim tão boa? Porque isso levaria as pessoas a pensar e se interessar por mais cultura, o que por sua vez não é interessante para a Globo, pois estas pessoas parariam imediatamente de assistir a esta emissora.

    Abraços!

    Ricardo

  2. Washington disse:

    é, Rodrigo, pensando bem, você tem razão, para algumas pessoas pensar enlouquece… um abraço, Washington


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