Descansem em paz: não sequestraremos a História

Parte considerável da sociedade brasileira deseja que a ditadura brasileira mais recente, aquela instaurada em 1 de abril de 1964 e que se alongou por mais de 20 anos, descanse em paz. E que não vire pesadelo sem trégua. Nem morto-vivo ao estilo zoombies dos filmes de assombração, como falávamos nos anos 1970. Descanso inclemente em que a passagem do tempo não lhe atribua contornos menos sombrios. E que sua violência física, moral e psicológica continue respingando gotas de vermelho rubro nas consciências adormecidas. Só assim deixaremos ao relento essa idéia, já quase consolidada, que formamos uma nação de desmemoriados.

Pois bem, quando achávamos que a ditadura, – nem mole, nem branda, mais dura, – era página virada de nossa triste história recente, eis que o jornal Folha de S.Paulo, ocupando nobre espaço do editorial (uma espécie de oráculo dos que mandam no jornal) de 17 de fevereiro de 2009 teve a tacanha idéia de qualificar a ditadura brasileira como “ditabranda”. O jornal tentava comparar a ditadura brasileira com suas congêneres chilena, argentina etc. Se não houvesse um grita quase geral seria um sequestro de um tristíssimo perído de nossa história. Mas que rematada idiotice: há como se mensurar o grau de crueldade, perversidade, desumanidade de Nero e Calígula na Roma Antiga com as câmaras de gás de Hitler e Goebbels no Recih Nazista? Haveria como minimizar os crimes de um Pol Pot com seus extensos campos de extermínio construídos pelo Khmer Vermelho no Camboja tendo-se em contraposição banquetes do ugandense Idi Amin Dada em que fígado humano era o prato principal? Quem teria a tresloucada idéia de comparar o desvario de Slobodan Milosevic nos anos 1990 com o desatino cruel reservado pelo iraquiano Ali Químico ao povo curdo?

Ora, a história humana bem pode ser contada como sendo a história da estupidez humana através dos tempos. E estupidez em um ano não deixa de ser estupidez apenas porque o tempo passou.

Tudo isso para dar vazão ao mal-estar que tive não apenas com o editorial de 17/2/9 mas também, e ainda com maior indignação, com o que foi chamado de retratação pelo uso da expressão “ditabranda” conforme pudemos ler na edição dominical da Folha do dia 8 de março. A Folha poderia sim ter se retratado e em assim procedendo honrava boa parte de sua luminosa história, afinal é um jornal que tem escrito boa parte da história do Brasil usando como comb ustível liberdade, justiça e dignidade humana. Mas não. A tal retratação foi um simulacro do que deveria ser. A Folha pediu desculpas por ter que reafirmar novamente seu erro original: errados estavam Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fábio Konder Comparato. Eles foram acusados com dedo em riste de terem duas visões da história; com uma condenavam o jornal por amaciar a ditadura brasileira e com outro prestavam solidariedade à ditadura cubana. Ora, ora, o que tem uma coisa a ver com outra? Ninguém no jornal teve intimidade com o pensador espanhol, Ortega Y Gasset? Não era ele que bradava ‘eu sou eu e minhas circunstâncias’? Os editorialistas teriam parado para pensar que tanto na Argentina quanto no Chile o pós-ditadura ocorreu de forma bem distinta daquela que tivemos aqui no Brasil? Nesses países, vira mexe, é noticiado que generais e outros de alta patente sentam nos bancos dos réus e saem dos tribunais apenados, além de desmoralizados. Já aqui, até falar em reabrir arquivos da ditadura, rever dispositivos da Lei da Anistia deixam ânimos exaltados tanto no governo quanto na sociedade. Não são circunstâncias bastante peculiares e distintas?

O ponto que desejo expor é aquele que não pode ser exposto pelos que mais sofreram no Brasil entre os anos 1964/1985. São centenas os mortos e talvez milhares, os desaparecidos. Os arquivos com suas lutas e seu extermínio físico, se existem, continuam tão lacrados quanto algo se inexistente fosse. Mas por um dever de cosnciência optei por propor um descanse em paz em ordem alfabética, simbólica, aos que morreram por seus ideais. Para estes, a ditadura brasileira foi monstruosa em todos os sentidos e em nenhum deles se poderia apequenar esse período da história brasileira como sendo de um ‘tempo brando’. Como a meia-retratação do jornal foi noticiada no Dia Internacional da Mulher (8 de março), decidi fazer um abecedário de brasileiros e brasileiras, começando com Ana Rosa e concluindo com Zuzu Angel, sendo os demais ainda pouco conhecidos, e que esse elenco estelar preencha um imaginário editorial em defesa da dignidade humana em nosso país.

Descansem em paz: Ana Rosa Kucinski Silva, Benedito Gonçalves, Carlos Lamarca, Djalma Maranhão, Emanuel Bezerra dos Santos, Fernando da Silva Lembo, Gerosina Silva Pereira, Honestino Monteiro Guimarães, Iara Iavelberg, José Carlos Mata Machado, Kleber Lemos da Silva, Lyda Monteiro da Silva, Manoel Fiel Filho, Nilda Carvalho Cunha, Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior, Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar, Rubens Beirodt Paiva, Stuart Edgar Angel Jones, Tito de Alencar Lima (Frei Tito), Uirassu de Assis Batista, Vladimir Herzog, Walkíria Afonso Costa, Yoshitane Fujimori, Zuleika Angel Jones.

Para cada uma dessas pessoas tratar a ditadura brasileira de ditabranda é como… assassiná-los duas vezes, como se tivessem morrido… em vão.


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