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Mulher da Vida (poema de Cora Coralina)

 

coracoralina fotoMulher da Vida

Cora Coralina

Mulher da Vida, minha Irmã.

De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.

Mulher da Vida, minha irmã.

Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.

Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.

Flor sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da Terra.

Um dia, numa cidade longínqua, essa
mulher corria perseguida pelos homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo o
tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.

A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.

As pedras caíram
e os cobradores deram as costas.

O Justo falou então a palavra de eqüidade:
“Ninguém te condenou, mulher…
nem eu te condeno”.

A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.

Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.

Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.

(…)

Poesia dedicada, por Coralina, ao Ano Internacional da Mulher em 1975

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QUEM FOI CORA CORALINA?

cora2Cora Coralina nasceu Ana Lins dos Guimarães Peixoto, na cidade de Goiás, em 1889. Iniciou sua carreira literária aos 14 anos publicando o conto “Tragédia na Roça”. Casou-se com o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Brêtas e teve seis filhos. O casamento a afastou de Goiás por 45 anos. Ao voltar às suas origens, viúva, iniciou uma nova atividade, a de doceira. Além de fazer seus doces, nas horas vagas ou entre panelas e fogão, Aninha, como também era chamada, escreveu a maioria de seus versos. Aos 76 anos despontou na literatura brasileira como uma de suas maiores expressões na poesia moderna. Em 1982 – mesmo tendo estudado somente até o equivalente ao 2º ano do Ensino Fundamental – recebeu o título de doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás e o Prêmio Intelectual do Ano, sendo, então, a primeira mulher a receber o troféu Juca Pato. No ano seguinte foi reconhecida como Símbolo Brasileiro do Ano Internacional da Mulher Trabalhadora pela FAO. Morreu em Goiânia, aos 95 anos, em 1985. Pela Global Editora tem publicado as seguintes obras: Estórias da Casa Velha da Ponte, Meu Livro de Cordel, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, O Tesouro da Casa Velha e Villa Boa de Goyaz; os infantis A Moeda de Ouro que o Pato EngoliuPrato Azul-pombinhoPoema do MilhoOs Meninos Verdes e As Cocadas. Sobre Cora Coralina temos Cora Coragem, Cora Poesia escrito por sua filha Vicência Brêtas Tahan e Melhores Poemas Cora Coralina, com seleção e prefácio de Darcy França Denófrio.

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5 Responses so far.

  1. vanuse disse:

    Olá estou fazendo minha monografia sobre cora entao tudo que fala a seu respeito e muito importante preciso muito da ajuda de vcs, gosto muito de cora coralina

  2. vanuse disse:

    Otimo como todas as suas obras cada qual tem uma importancia sigular

  3. lilia diniz disse:

    Olá pessoa linda!

    Só para corrigir que esta senhora linda, co a bacia de vignagreira(folhas que fazemos o cuxá) parecida em muito com nossa Cora, não é de fato a doceira goiania. Esta é dona Ana também, maranhense, recentemente falecida e conhecida por nós como VOZINHA. Contadeira de causos do bairro Santa Rita.
    obrigada

  4. Angela Lima disse:

    Bom ler também “Todas as vidas”, de Cora Coralina, mesma temática de “Mulher da Vida”, só que mais sutil, mais enxuto.

  5. M@r¢5§ A#t%n!% disse:

    Ela é imprecionate!!!


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