VITORIA 1No último fim de semana passado estive em Vitória (ES) participando do II Seminário de Educação em Direitos Humanos promovido pela Prefeitura de Vitória. Evento bem organizado, participantes motivados. Coube-me o tema “Mídia e Direitos Humanos”, que foi apresentado na abertura do seminário – primeiro dia, primeiro tema, primeira apresentação, primeiro debate. E também primeira preocupação: não participaram profissionais do ramo como jornalistas, radialistas e gente ligada à televisão. Daí já comecei a pensar como o tema direitos humanos é relegado ao ostracismo quando da feitura das pautas.

Evento dessa amplitude em um mundo turvado por violações dos direitos humanos a torto e a direito, à esquerda e à direita, um mundo que conviveu com os campos de extermínio em Auschwitz, Treblinka e Sobibor, sob o império dos nazistas na Segunda Guerra Mundial, e também mais recentemente com os horrores da prisão de Abu Ghraib, em Bagdá, não poderia passar batido ao menos na mídia local. Mas passou. E continuará passando. É como se existisse um pacto solene dos meios de comunicação para ignorar a temática enfeixada sob o título direitos humanos.

Espaço precário

Algumas ideias preconcebidas (poderíamos chamar preconceitos) tomaram consistência ao longo dos anos e continuam vigindo nos anos recentes em que o Brasil reconquistou o estado de Direito e a democracia. Uma dessas é especialmente perniciosa: direitos humanos é o mesmo que “direitos dos bandidos”. Ora, essa leitura torcida da realidade somente se explica pelos vinte anos em que o Brasil mergulhou nas trevas do arbítrio, na ditadura militar iniciada com o golpe de 1964.

Naqueles anos, quem ousasse clamar por liberdade, justiça e seus derivativos reunia os predicados para engrossar a população carcerária. Os cidadãos e cidadãs presos eram sumariamente rotulados como bandidos. E não importava se o preso era o professor de filosofia da USP ou da Unicamp, bandido era. Milhares de universitários tinha o relógio de suas vidas parado. Parte ingressava nos presídios, boa parte passava para a clandestinidade. Mundos paralelos existem quando países são (des)governados por ditadores.

Vasta documentação iniciando com o projeto “Brasil – Tortura Nunca Mais” dão conta desse período, época em que para os governantes de plantão falar em direitos humanos era apenas falar em direitos dos bandidos. Alguns filmes retratram à perfeição os anos 1964-1984: O que é isso, companheiro?, Pra frente Brasil, Lamarca, Angel, Batismo de Sangue. Advogados talentosos sobressaíram: Heleno Fragoso, Raymundo Faoro, Evaristo de Morais Filho, Helio Bicudo, Gilson Nogueira, Marcio Thomaz Bastos, Herilda Balduíno representaram dezenas de presos políticos, os bandidos daqueles anos de chumbo.

O fato é que a pecha ficou. E continua em nossos dias. Direitos humanos, direitos dos bandidos. Mantendo a tradição de lutar pela liberdade de opinião quando os principais luminares do pensamento dito de esquerda se encontravam encarcerados, é fato que ainda hoje muitos defensores dos direitos humanos fazem a ronda regular nos presídios para denunciar a prática da tortura contra aqueles sob a proteção do Estado. E assim, uma vez mais, a sociedade deixou de distinguir o trabalho em favor da promoção dos direitos humanos como sendo o trabalho em favor dos criminosos que superlotam nossas penitenciárias.

Fazer tal confusão não é uma raridade, se até bem há pouco acompanhávamos neste Observatório da Imprensa a discussão jurídica – e não apenas de semântica – suscitada pela Folha de S.Paulo quando aludiu à ditadura brasileira como sendo uma “ditabranda”, se comparada com a ferocidade de outras ditaduras ao largo e ao longo da América do Sul. Um dos muitos crimes gerados pelo estado de exceção foi o de confinar a visão dos direitos humanos ao pequenino espaço em que estão as pessoas apenadas resultante dos processos legais contra estas instaurados.

Minuto a minuto

A mídia também ignora os direitos humanos em outras instâncias. Quando, por exemplo, organizações da sociedade civil promovem discussão sobre políticas públicas para elevar a dignidade humana, contra o trabalho infantil, contra o trabalho escravo, contra a exploração sexual de crianças e adolescentes, contra a violência doméstica, contra a violência policial e em especial se as vítimas são moradores de rua ou meninas e meninos de rua.

Chama a atenção observar o enfoque dado por parte da mídia nacional em seu esforço para criminalizar movimentos sociais com o dos trabalhadores rurais sem terra. A mídia mostra todo o seu corporativismo ao ser seletiva na expressão de indignação contra a violação dos direitos humanos de celebridades como a atriz Daniela Perez (dezembro/1992), o jornalista Tim Lopes (junho/2002), o apresentador de televisão Luciano Huck (outubro/2007), a atriz Suzana Vieira (dezembro/2008), apenas para mencionar alguns. Esta seletividade obedece a critérios como raridade, ineditismo e infelizmente na maioria dos exemplos mencionados as pessoas tiveram o relógio de sua vida parado com requintes de crueldade. A honrosa exceção está para Luciano Huck, que foi capa da revista Época e ocupou espaço privilegiado na Folha de S.Paulo para desaguar seu desabafo com o roubo de seu relógio Rolex.

Não precisaríamos pesquisar muito para ver que nas datas citadas ocorreram lamentavelmente inúmeras tragédias, chacinas com grande número de vítimas e, também infelizmente, com “a marca da maldade”. Agora mesmo estou empenhado em um projeto que visa analisar o espaço que a mídia brasileira concede ao tema direitos humanos e, pelo que já vi, trata-se de espaço diminuto se comparado com as pautas sobre estilo de vida, show-business, novas tecnologias e… futilidades.

A alternativa a este cardápio vem a ser a cobertura minuto a minuto das grandes tragédias humanas: tsunamis, terremotos, quedas de avião. Nesses casos, o vilão é invariavelmente alguma força da natureza. Quando o vilão é o próprio homem, o tema passa batido nas redações.

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ESTE TEXTO FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA.

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COMENTÁRIOS

Ronaldo Almeida Calixto , Foz do Iguaçu-PR – Professor e jornalista

Enviado em 9/6/2009 às 3:37:14 PM

Concordo 100% com suas percepções. Há que se cavar mais fundo para termos espaço midiático preenchido com pautas dos direitos humanos. Os colegas do Espírito Santo perderam uma boa oportunidade de encontrar o senhor pois é quem entende desse riscado – mídia e direitos humanos, mídia x direitos humanos.

 

Sandoval Martins , Recife-PE – jornalista e economista

Enviado em 9/6/2009 às 3:34:10 PM

Análise bem formulada e o assunto merece ser objeto de reflexão pelos ´mass media`. Os meios de comunicação são financiados por empresas que em certa medida contribuem muito para o aviltamento da condição humana. Exemplos: a FIAT bancava a produção de mkinas terrestres amplamente utilizadas na guerra em Angola e até hoje gente é explodida ou mutilada devido a essas minas; companhias de petróleo poluem o meio-ambiente quase semanalmente vemos algum vazamento de óleo de seus cargueiros e mesmo assim são os que pagam boa parte da publicidade jornalística; empresas de armas, explosivos e munições e que chegam a tera até a tal ´bancada da bala´ no Congresso Nacional mexem seus interesses de forma a excluir da atenção dos mass media tema tão urgente como o dos direitos humanos. Suas posições são claras e deve encontrar eco em muitas consciências comprometidas com a proteção da dignidade humana. Parabéns mestre.

 

Joana Boeno , Vitoria-ES – Jornalista

Enviado em 9/6/2009 às 1:56:36 PM

Como parte da comissão organizadora do evento dito neste texto posso afirmar sem dúvida alguma que Washington falou brilhantemente sobre o tema mídia e direitos humanos, nos deixando muito felizes pela escolha acertada. Mostrou sem meias verdades uma realidade que enfrentamos no nosso cotidiano, como militantes dos direitos humanos. Parabéns Washington pelo seu trabalho e coragem!

 

Suely Rovaris , Caxias do Sul-RS – Psicóloga

Enviado em 9/6/2009 às 12:24:01 PM

É por isso que os índices de violência no Brasil são estratosféricos. Não há espaço para a defesa dos direitos e da dignidade humana. Lamento que os urubus e outros carcarás da imprensa estão sempre à espreita de algum avião super moderno mergulhando no mar atlântico. Para tal cobertura não faltam equipes bem amestradas, capas bem boladas, n número de páginas e tempo na TV. Já para a dignidade humana nem notinha em rodapé das apontadas editorias de futilidades.

 

Gilberto Ferraz , Salvador-BA – professor de direito

Enviado em 9/6/2009 às 12:16:35 PM

Show: “Quando o vilão é o próprio homem, o tema passa batido nas redações.” Ler seu texto equivale uma aula no curso de direitos e duas no de jornalismo.

 

Roberto Schwartz , Anápolis-GO – Professor

Enviado em 9/6/2009 às 12:07:07 PM

Agora entendo o porquê de a sociedade em geral achar que direitos humanos e direitos dos bandidos é a mesma coisa. E ponha negligência nisso. Obrigado. Vou repassar o texto.

 

Dilma Constantino , Brasília-DF – jornalista

Enviado em 9/6/2009 às 12:04:08 PM 

Em qualquer lugar do país direitos humanos é relegado a último plano se é que chega a ser considerado. Vc tem razão os pauteiros confundem violência urbana com DH e revistas como Veja e jornais como a Folha de SP trabalham para que o movimentos sociais legítimos como o MST sejam tratados como marginais, coisa de bandidos. Pelo menos o pessoal de Vitória conseguiu levar o senhor ao encontro o que já é u progresso!

 

Thiago Costa , Vitória-ES – Promotor de Justiça

Enviado em 9/6/2009 às 11:59:58 AM

Sou de Vitória e posso testemunhar que o evento que o senhor participou não recebeu a mínima atenção dos meios de comunicação capixabas. Soube que sua conferência foi de longe a mais articulada e elogiada pelos participantes e lendo seu texto aqui entendo porque – o senhor coloca o dedo na ferida com conhecimento de causa. Volte outras vezes. Parabéns professor.

 

Wilton Andrade , Rio de Janeiro-RJ – jornalista e advogado

Enviado em 9/6/2009 às 11:56:09 AM

Impressionou-me o vigor de sua denúncia pois não é de hoje que nas redações “direitos humanos passa batido”. Vou enviar por email seu brilhante libelo a favor da dignidade humana às redações daqui do Rio. Receba meu abraço.


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