Queria hoje escrever apenas com o coração

Queria hoje escrever apenas com o coração

Queria escrever com  o cora  o 01
Queria hoje escrever apenas com o coração.
Nada de dedos e muito menos de teclado.
Queria escrever com ondas do mar, dessas em que a crista se sobressai.
Nada de lamentar o tempo perdido e muito menos fazer considerações sobre o que ainda há de vir.
Queria escrever com o sentimento mais puro e por isso mesmo, mais refinado e precioso.
Nada de rebuscar lenha colocada na fornalha da mente, sempre fumegante.
Queria escrever apenas com os olhos, olhos que vêem perfeição.
Nada de olhos que buscam a todo momento aperfeiçoar o imperfeito.
Queria escrever tudo em tonalidades de azul, do escuro ao claro, passando pelo meio, onde nuvens poderiam ser colocadas sem alterar um piscar de olhos da paisagem.
Nada de cores muito sóbrias e sombrias e muito menos de furta-cores.
Queria escrever com a luz decrescente do sol que se põe, as palavras seriam fulgores arroxeados, as frases seriam claras como o luar depois das onze da noite.
Nada de luzes ofuscantes, holofotes exagerados, nada que incadesce a pupila e cansa a vista.
Queria escrever palavras em fogo líquido, sendo derramadas pouco a pouco sobre minha consciência, deixando marcas e mais marcas.
Nada de coisas que queimam e machucam a sensibilidade.
Queria escrever sinais de fumaça sem usar parágrafos longos e sem fazer uso de verbos intransitivos.
Nada de sinais muito permanentes e muito menos desses que demoram muito a se evaporar.
Queria escrever mil páginas com um só sopro, sopro de vida, sopro de alma.
Nada de lufadas criando sensações de desalinho e de desalento.
Queria escrever um bilhete que começasse assim: “Apesar de tudo, nunca me afastei de ti.”
Nada de bilhetes rebuscados, com vocativos e saudações finais.
Queria escrever uma frase que começasse assim: “E amanheceu em meu coração uma nova sensação, uma sensação de que faço parte do todo.”
Nada de frases banais e corriqueiras nem de pedaços de pensamento que o tempo de encarregou de lhes dar cabo.
Queria escrever um poema sem nome, desses que se acerta com o nome à medida que se vai lendo.
Nada de poemas fabricados com as placas duras e cinzentas do concreto que tanto se enraízam em Brasília.
Queria escrever um verso que pudesse ser lido de mil diferentes maneiras.
Nada de métrica nem de observação a teorias literárias.
Queria escrever apenas manchetes para jornais.
Sem notas explicativas e sem seções do tipo “entenda o caso”. A própria manchete daria conta do recado.
Queria escrever uma palavra de consolo e esperança aos que tombam, inocentes, nas guerras inúteis e sem sentido que povoam nossos noticiários.
Nada de lágrimas de luto nem de desespero incontido.
Queria, como o poeta, compor uma sinfonia que contivesse uma pausa de mil compassos.
Nada de novos ritmos, frenéticos, bem arrumadinhos e nem extremamente delirantes.
Queria escrever algo duradouro como a criança escreve seu nome e faz um desenho à beira-mar, inconsciente da onda que se aproxima, inexorável.
Nada de tratados verborrágicos nem de verbetes para aprisionar o senso comum.
Queria escrever traços que me lembrassem de todos os que amei, amo e virei a amar.
Nada de imagens fugidias que em nada marcaram minha peregrinação pela vida.
Queria escrever a quem me alfabetizou que fiz bom uso da maioria das letras do alfabeto.
Nada de x, y ou z e muito menos de palavras que vagam pelos dicionários sem qualquer senso de direção, desnorteadas em meio a tantos milhares de verbetes.
Queria escrever como quem leva flores ao túmulo dos vencidos da Terra.
Nada de algazarra nem de piedosas intenções.
Queria escrever aos meus companheiros de viagem que continuem o que deve ser continuado e que vivam cada dia como se fosse o seu último dia.
Nada de conselhos, provérbios populares, histórias que foram recolhidas na terceira margem do rio da vida.
Queria escrever aos amigos que conheci ainda aos dezessete anos, algo que começasse assim com a sentença forte do “a gente ainda nem começou…”
Nada de planos e projetos de caminhada a dois, a três ou a quatro e muito menos de multidões desencantadas de futuros amigos.
Queria escrever um testamento que tivesse a leveza do vôo do bem-te-vi, suspenso no ar como se presenciasse o milagre da insustentável leveza do espírito.
Nada de coisas materiais e imateriais e nada de nome de possíveis herdeiros.
Queria escrever neste momento meu epitáfio: “Nasceu. Viveu. Sonhou”.
Nada de triste e profundo, nem muito menos algo que lembrasse que passei por aqui.
Queria escrever para os meus mortos mais queridos e mais amados e dizer o que não foi dito enquanto aqui estiveram.
Nada de angústias, lamúrias, lamentações.
Queria escrever para o Abbas na velocidade do som e dizer-lhe que ele vive e sobrevive escondido no íntimo de minha fé. E lhe dizer que nunca envelhecerá: será sempre feliz, cabelos ao vento, sorriso aberto.
Nada de contar o que aconteceu despois do 4 de outubro de 2005.
Queria escrever o que não pode ser escrito.
Mas que pode, muito bem, ser sonhado, amado e vivido.

One Response so far.

  1. […] remix a partir de Queria hoje escrever apenas com o coração, de Washington […]


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