Albert Schweitzer

Provavelmente o maior intérprete de Bach deste século, Albert Schweitzer foi também seu maior biógrafo. Com um talento que remontava a passada geração dos Schweitzer, fora aclamado como o grande concertista da Europa dos primeiros anos do século. Premiado como intérprete e como profundo conhecedor de órgãos, Schweitzer testemunhara sua fama espalhar-se rapidamente a despeito de sua extrema juventude, estava adentrando a casa dos trinta. Um dia, como que atingido por um raio, soube da extrema necessidade de missionários no Congo Francês, o Gabão, na África. E descobriu que o perfil ideal de um missionário para o Gabão era aquele que tivesse conhecimentos de medicina.

Daquele dia em diante, sua vida mudou. E muito radicalmente. Iniciou o Curso de Medicina, concluído seis anos depois e ainda mais, fez uma especialização de dois anos em doenças tropicais. A todos a quem mencionava sua aspiração de deixar a Europa por um vilarejo primitivo nos rincões africanos, era saudado com zombaria ou com piedosa compaixão. Alguns achavam mais racional que ele custeasse alguém que fosse se embrenhar nas selva do Gabão enquanto ele continuaria sua trajetória de virtuose. Outros, o consideravam, como todos os artistas renomados, excêntrico. Nada mais que excêntrico: como alguém deixaria ao lado todos aqueles anos a que havia se dedicado à música, aquela música que encantava os homens e os anjos, as sinfonias com que Bach enchera o mundo de divindade? Perseverou e perseguiu sua meta com tenacidade.

Ao se formar, colocara à venda todos os seus pertences, inclusive as medalhas, troféus e instrumentos musicais. Era o capital inicial de sua nobre missão: fundar um hospital em Lambarène, Gabão. E foi assim que aqueles confins do mundo se familiarizaram com a música clássica, podendo se ouvir, ao crepúsculo os acordes de um piano a irromper na selva. Um hospital muito rústico, de pau a pique, foi o maior salva-vidas da região e multidões de africanos acorriam a ele, esquecendo algumas vezes suas superstições e tradições tribais milenares e aceitando os anestésicos e a penicilina que lhes podia prolongar a vida e minimizar a dor.

Enquanto isso, a Europa fervilhava nas vésperas de uma grande guerra, eram os anos finais da década de 30. Isolado do mundo, naquele lugar esquecido por todos, o jovem médico Albert Schweitzer fazia de tudo um pouco: era carpinteiro, pedreiro, professor, cozinheiro e médico. Como Fernando Pessoa dissera “tudo é grande quando a alma não é pequena”. Enfrentando enfermidades, crendices e muita escassez de recursos materiais e humanos, coube a Schweitezer o desafio de triunfar sobre todas as dificuldades. Terminada a guerra, uma ou duas vezes por ano, retornava à Alemanha e à Inglaterra, onde com seus concertos amealhava os meios para uma nova ala ou enfermaria de seu hospital. O seu exemplo comovia a todos, principalmente quando estamos cada vez mais cansados de palavras e as ações tornam-se raras no dimensionamento de uma existência.

Em 1953, Albert Schweitzer é laureado com o Prêmio Nobel da Paz. E com o sacrifício de sua vida, demonstrara que é possível ter utopias e viver por elas e que a aridez do espírito humano se curva ante a pureza de intenção de uma alma nobre, ansiosa para servir ao próximo. Ele foi, nas palavras de Nikos Kazantzakis “o São Francisco do nosso século”. E o seu exemplo foi maior que o seu tempo, imensamente maior que o seu tempo.

Enquanto existir pessoas heróicas, viverá Schweitzer. Enquanto existir serviço inegoístico, brilhará a chama de seu ideal. Passados quase quarenta anos de seu falecimento, suas atitudes e ações formam um caminho nobre de um eu superior: ele nos via como “as folhas e os ramos de uma mesma árvore, as estrelas de um mesmo céu”. Em seus textos de Lambarène, sobressaem-se as digressões sobre o respeito pela vida. E ele foi o exemplo de sua doutrina. Daí a diferença entre um homem grande e um grande homem.


ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Observatório da Imprensa
  • Vale

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Carta Maior
  • Meu Advogado