JORNALISMO CULTURAL – Onde estão os cronistas?

Que tema atravessa o tempo desde que o jornal mais antigo do mundo começou a circular em 1645 – o sueco Post-och Inrikes Tidningar? A liberdade de expressão. E sempre há espaço para mais conversa, mais defesa, mais relevo. É invocada pelo caluniador quando tentam enquadrá-lo. É levantada pela vítima de calúnia quando não consegue dar publicidade à sua defesa ou quando não consegue o espaço e o destaque recebido pelo agressor. Mas existe certa liberdade de expressão muito pouco invocada. É aquela liberdade de sentir o pensamento muito próximo e de pensar o sentimento no volume máximo. Este tipo de liberdade de expressão poderia ser melhor canalizado no formato da crônica. Aliás, onde estão nossos bons cronistas? Ainda temos bons cronistas? Como descobrir os bons cronistas? Existem, ainda, bons cronistas? Respondo apenas com o próprio sinal de interrogação.

E pensar que houve um tempo em que, nas manhãs de sábado, íamos à banca de revistas comprar o Jornal do Brasil – aquele dos velhos tempos, da Condessa Pereira Carneiro – com o coração batendo acelerado. Motivo: sábado, dia de Clarice Lispector. Hoje – 25 de setembro de 2009 – lembrei da crônica de Clarice para o JB publicada no sábado 25 de setembro de 1971. O Brasil era canteiro de obras do ditador Emílio Garrastazu Médici. Essas obras incluíam fechamento de jornais, tortura e morte de quem pensasse em voz alta a palavra liberdade. Clarice não estava alheia ao que tolhia o Brasil. Mas estava muito ligada a outra guerra e pelo que escreveu, lutava uma guerra perdida. Ela escreveu: “Esta — se disse o homem como se fosse para uma guerra — esta é a minha prece do possesso. Estou conhecendo o inferno da paixão. Não sei que nome dar ao que me toma ou ao que estou com voracidade tomando senão o de paixão. O que é isso que é tão violento que me faz pedir clemência a mim mesmo?” Com texto começando assim Clarice alargava as fronteiras da crônica. Escrevia para além do cotidiano, muito além da rotina e se aproximava da intimidade com que o pensamento retinha o sentimento. Escancarando portas e janelas do subjetivismo Clarice elevou a crônica de jornal a outro patamar assim como no passado já fizera Machado de Assis ao retratar o Velho Senado e esses senhores sapientes metade homens metade instituição e fizera também Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade trazendo o tempero da poesia emprestada às pequenas miudezas da vida. Clarice tratava das miudezas da alma e seu texto confirmava o vanguardismo do Jornal do Brasil, aquele que um dia criara o caderno B.

 

Parece covardia, mas não é. Busquei garimpar crônicas de jornais e revistas semanais tendo como instrumento a peneira usada por Clarice. E esta peneira retinha apenas o que era pura linguagem e puro espírito. Ao final da busca vi-me frustrado. Porque não existem pessoas dispostas a aventurar-se no mundo da palavra, na ambiência da não-palavra. Deparei-me com crônicas superficiais, quase pequenos tratados de autoajuda, coisa de uma indigência absoluta dada a pieguice na forma de abordar, ao abuso do lugar-comum e dos conceitos fáceis, sempre tão ao gosto da praga de audiovisuais que recebemos às dezenas em nossa caixa de mensagem eletrônica. Vi crônicas com complexo de tese doutoral tal a pretensão do autor a rememorar ícones do pensamento liberal e a situar a banalidade da cena em contraponto com a Escola de Frankfurt. Outras crônicas nem mereciam ser chamadas crônicas. Trazem o pecado original da futilidade.  quando não frívola. E pensar que um dia líamos as pequenas glórias de Copacabana através do olhar do pernambucano Antonio Maria, sim, aquele que autoparodiava com “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudellaire”. Neste vazio do texto leve e alado dos que sabiam escrever crônicas vemos a multiplicidade de colunas, artigos opinativos onde o autor trata de refletir sobre economia internacional, sobre educação de qualidade em um mundo globalizado e por aí afora. E, claro, as colunas desbocadas, onde cada frase se tivesse dedo estaria em riste e se tivesse mãos estariam estrangulando esta ou aquela vítima, geralmente, alguém ocupando alto cargo público após passar pelo teste quadrienal das urnas. São colunas de puro mau humor e evidente descaso para com a inteligência do leitor. Os textos são expelidos como insultos e, acabada a temporada de louvação caem na vala comum do non sense.

 

Clarice criou seu próprio lugar e não foi menos cronista de jornal que escritora Cult. Mas era inconfundível e em sua arte parece não ter deixado seguidores. Longe de eleger desafetos para massacrar em textos semanais Clarice esticava todo o significado da palavra provocação. Era uma provocação expor sua relação com Deus e com Suas criatura como também era pura provocação falar da felicidade sentindo-se infeliz ou das guerras quando tinha o pensamento em paz. Não conheci pessoalmente Clarice Lispector e seus textos só apareceram em minha vida após sua morte em 10 de dezembro de 1977. Em compensação devo conhecer, como qualquer pessoa, milhares de outras pessoas. Dessas tantas que conheço nenhuma marcou meu pensamento tão fortemente quanto a palavra, sempre em transe, de Clarice. Ainda na casa dos 20 lembro da sentença definitiva: “O que alarga a vida de uma pessoa são os sonhos impossíveis”.

 

A essa altura do campeonato da vida há muito desisti de encontrar nas páginas de um jornal crônica que tenha trecho como este, também da crônica de 25 de setembro de 1971: “Não quero pedir a Deus que me aplaque, mas amo tanto a Deus que tenho medo de tocar nele com o meu pedido. Meu pedido queima. Minha própria prece é perigosa de tão ardente e poderia destruir em mim a imagem de Deus, que ainda quero salvar em mim.” Um esclarecimento aqui é inadiável: não estou buscando alguém para suceder Clarice nas páginas de sábado de um jornal porque sei que isso é impossível, seria o mesmo que pedir que as mesmas águas voltassem a passar sob a mesma ponte. O que busco é algo bem mais simples; são crônicas que não se envergonhem de ser crônicas; são crônicas que não almejem ser ensaio; são crônicas despojadas, aquelas que não guardam a pretensão de alterar o movimento dos planetas nem retardar a passagem das estações do ano. É que não se escreve mais pelo prazer da escrita. E a vida, há muito, deixou de ser tema de nossos cronistas. Aprendi há tantos anos que a pior tragédia na vida de homem é aquilo que morre dentro dele quando ele ainda está vivo.

 

Intuindo que um dia alguém poderia estar fazendo esse tipo de busca, encontrei com um meio sorriso de satisfação, essa explicação de Clarice: “Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada… Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…”

Ah, o nome da crônica do Jornal do Brasil de 25 de setembro de 1971 é “Dies Irae”.

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Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=557IMQ003

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COMENTÁRIOS

Paulo  de Allmeida , –IN – jornaleiro

Enviado em 2/10/2009 às 4:15:07 PM

 

Ivan, combinam os nomes que vc citou com a sua frase morta: “O problema é o gênero anda meio em baixa e os jornais de hoje não dão o mesmo espaço de antigamente”. O problema, é que vivemos num mundo fantasma de mortos vivos, etéreis. Gente que muito decora, que muito remeda, e que näo vive o que pensa. Na verdade pouco se percebe daquilo que se pensa, assim como pouco se pensa sobre aquilo que se sente. A Clarice levava adiante aquilo que pensava… e é por isto que näo se conformava com os sintomas rotulantes tipo a frase acima. O mundo dos jornais roda num curto circuito, num beco denominado reducionismo, que tudo separa (jornalismo cultural…) e nada une. Nada! Um mundo isolado só no intelecto. Täo reduzido que esfarelou a cultura. O jornal näo tem mais a ver com cultura. Deveriam riscar esta palavra do dicionário. O que é isto que tanto zoa se também näo é cultura? É informacäo? E informacäo deve ser alguma parecida com a frase do Ivan…

Isabelle Macêdo , Macapá-AP – Quase jornalista

Enviado em 2/10/2009 às 1:03:13 AM

 

Eu tenho saudades da Clarice, mesmo que eu tenha apenas 19 anos, morro de saudades dela quando quero dizer alguma coisa e não consigo. E você consiguiu arrancar de mim o meu primeiro comentário neste site que visito há quase dois anos. Faltam bons cronistas daqueles que te deixam pensando… “nossa, é mesmo”.

Helio Moreira , Feira de Santana-BA – juiz de direito

Enviado em 1/10/2009 às 4:31:10 PM

 

A primeira crônica que li em minha vida foi de Humberto de Campos, ainda nos anos 60. Falava de um pé de cajueiro que tinha na casa de seus pais lá nas Alagoas. Nunca esqueci. Um gênero meio demodê é verdade mas ainda assim um gÇênero que enriquece muito a leitura de jornais e revistas. Saúdo o colega pelo assunto escolhido. Poucos se arriscam a falar do gênero crônica. Menos ainda conseguem falar com a embocadura correta e certeira. Você o fez.

Edivaldo Oliveira , Diadema-SP – funcionário público

Enviado em 1/10/2009 às 4:27:34 PM

 

No lugar de Machado temos Sarney, no lugar de Rubem Braga temos Diogo Mainardi, no lugar de Antonio Maria temos o Macaco Simão e no lugar de Clarice temos Danuza E durma-se com um barulho literario desses!

Francenildo  Aguiar , Recife-PE – historia

Enviado em 1/10/2009 às 3:50:08 PM

 

Concordo com o comentário de que seu texto é uma crônica e apoio que você seja instado a escrever cronicas semanalmente para o Obvservatorio pois traria um toque maior de humanismo, idealismo, dignidade humana, gosto de ler. Resta saber se já não vão ficar te olhando enviesado no OI por ousar tratar de cronica/cronistas em um sítio marcado pela crítica ideologizada da mídia/imprensa etc e tal

Saulo Antonio Cansanção , Manaus-AM – jornalista/advogado

Enviado em 1/10/2009 às 3:47:14 PM

 

É que jornalismo virou um grande negócio, uma atividade econômica como outra qualquer e muito do idealismo, da defesa de teses e causas libertárias caíram no vazio por não haver interesse em publicá-las, se Clarice ou Drummond fossem vivos dificilmente conseguiriam espaço para publicar suas inspiradas crônicas. Infelizmente esta é a realidade nua e crua. Muito espaço para escândalos de corrupção, vícios políticos, big brothers da vida, folhetins e pouquíssimo ou nenhum espaço para qualquer coisa mais alta que uma gilete deitada, como aliás vocês mesmo com maestria denunciou em coluna anterior

Nina Andrade , São Paulo-SP – redatora

Enviado em 1/10/2009 às 3:05:09 PM

 

Concordo com o Ivan, quanto aos nomes que ele citou. Mas concordo com você também, Washington, especialmente no que tange ao alargamento dos horizontes dos temas abordados. eu anda me lembro da coleção “Para Gostar de Ler” e acho que seria difícil fazer um único volume de qualidade equivalente com os cronistas atuais.

Ivan Berger , Santos-SP – jornalista

Enviado em 1/10/2009 às 11:05:56 AM

 

As observações são válidas,mas creio que ainda temos,sim,cronistas ( ensaistas seria o mais correto) do maior gabarito em nosso jornalismo, como Sérgio Augusto,Ruy Castro,Zuenir Ventura,Cony , L.F.Verissimo,Paulo Santana,enfim,vários nomes que em nada ficam a dever aos aí mencionados.O problema é o gênero anda meio em baixa e os jornais de hoje não dão o mesmo espaço de antigamente.

Thereza varejão , vitória-ES – jornalista

Enviado em 30/9/2009 às 11:25:50 PM

 

Tá em falta nao só bons cronistas mas tb bons jornalistas. A imprensa só tem picareta de esquerda e de direita e ler CL é um sopro de ar puro no embotado em que se transformou o meio jornalistico. Bonito seu texto e evocativo da maior escritora brasileira de todos os tempos.

Paulo  de Allmeida , –IN – jornaleiro

Enviado em 30/9/2009 às 5:30:59 PM

 

Valeu Araújo! Até que enfim algum jornalista parou de se esfregar no bigode reacionário destes políticos decadentes. Isto é uma tragédia que mata aquilo que nunca deveria acabar enquanto ainda se vive. Mas já dizia a Clarice que a gente se acostuma com o que näo deve… Esta de desabrochar é ir além do verde, do só vegetar. É virar flor, e nesta transformacäo acaba alterando as coisas, querendo ou näo.

Líslei  Santana Kreulich , Taquara-RS – fisioterapeuta

Enviado em 30/9/2009 às 1:46:28 PM

 

Realmente, não são vistas crônicas Clariceanas em qualquer dia, ou em qualquer jornal. Isso deve se dever ao fato de que escrever crônicas dá trabalho, é preciso pensar e digerir um assunto, e ter a sensibilidade de um poeta (como o Drummond) para traduzi-lo em palavras. É muito mais fácil escrever notas, críticas, e textos sentimentalóides, porque estes se fazem tão presentes no cotidiano, que não é preciso pensar muito, basta transcrever ideias que já estão por aí. Cito aqui dois nomes que merecem o título de cronistas: Luís Fernando Veríssimo e Marta Medeiros. Ambos escrevem em Zero Hora. Como se vê, boas crônicas ainda podem ser lidas em jornais atuais, basta um olhar atento e uma sensibilidade apurada.

Herval Miranda , Campo Gde-MS – jornalista com 30 anos de estrada

Enviado em 30/9/2009 às 10:16:53 AM

 

Exceelnte reflexão. Não temos bons cronistas. O espaço está literalmente dominado por francos atiradores. Você detectou bem o tipo que temios hoje: gente pretensiosa querendo ser sociólogo ou semiólogo, sei lá, gente que fala fuitilidades e lugares banais típico dos velhos cartões publicados pelas edições Paulinas. Olha só que beleza: “O que alarga a vida de uma pessoa são os sonhos impossíveis”. Mais CL impossível.

Reinaldo Fonseca , São leopoldo-RS – Professor universitário

Enviado em 30/9/2009 às 10:13:51 AM

 

Também gostaria de ter em minha geração um cronista do porte e magnitude d euma Clarice pois ela sabia os mistérios da escrita pra dentro. A coluna de hoje me sensibilizou porque não encontro facilmente quem alie conhecimento jornalístico com capacidade crítica e carga lírica. Você conseguiu. Bingo.

Maria de Fatima Fernandes , Maceió-AL – letras

Enviado em 30/9/2009 às 10:10:54 AM

 

Texto claro, direto ao ponto, bem escrito e nos brinda com a percepção da falta que Clarice Lispector nos faz.

Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS – Diagramador

Enviado em 30/9/2009 às 1:26:25 AM

 

Respondendo sucintamente à pergunta formulada no título: os cronistas foram substituídos pelos releases das agências internacionais. Já sobre Clarice Lispector eu devo admitir que é minha escritora preferida em Língua Portuguesa. Mais até do que Machado de Assis ou Cecília Meirelles, que me perdoem os notáveis. O interessante sobre Clarice é que além de ser uma escritora/cronista fora de série, ela também se notabilizou por ser uma entrevistadora de mão cheia, que conseguia extrair histórias e infomações muito interessantes dos entrevistados, em vez de ficar naquelas perguntas modorrentas (e óbvias) que abundam certas páginas amarelas. Uma das frases mais geniais ditas por Vinicius de Moraes (“detesto tudo que oprime o homem, inclusive a gravata”), por exemplo, surgiu em resposta a uma colocação que Clarice fez sobre a aparente contradição entre o antiformalismo do poeta e sua passagem pela carreira diplomática. Clarice sabia fazer os entrevistados dizerem coisas inteligentes e sabia conduzir as entrevistas para rumos surpreendentes, ao contrário desses jornalistas biônicos que seguem um script linear tal qual quadrúpedes com viseiras – sem olhar para os lados. Falando em jornalistas biônicos, muitos chancelados por diplomas, vem de A Paixão Segundo G.H.: “Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir”.

Carlos  Ayres , BSB-DF – jornalista

Enviado em 29/9/2009 às 10:21:31 AM

 

Em tantos anos acompanhando o Osservatorio até hoje não tinha deparado com um texto tão legal, light em todos os sentidos e ainda assim tratando de mídia, da falta que os bons cronistas fazem. O senhor terminou escrevendo uma crônica sem tirar nem por. E o conseguiu rememorando experiências vividas, desencantando mortos ilustres que marcaram o gênero no brasil. Parabéns. Gostaria que o Dines, o Weiss e o Luiz Egito lhe convidassem para ecsrever semanalmente uma cronica aqui no site assim como fizeram e muito bem ao convidar o mestre Dallari para tratar de direito e imprensa. O que vocês acham? Uma texto seu em formato de crônica iria trazer ainda mais brilho ao cast de textos que nos são servidos a cada semana. FICA A SUGESTÃO A QUEM DE DIREITO E ENQUANTO ISSO: PARABÉNS.

Rejane Malta , RIO-RJ – jornalista

Enviado em 29/9/2009 às 10:16:22 AM

 

Emocionante seu texto e trazer clarice mais perto da gente é uma forma de trazer humanidade aos textos publicados na imprensa. Algumas observações suas são maravilhosas. Antonio Maria, Rubem Braga, Drummond e até Machado – são estes nossos melhores cronistas, além é claro da própria homenageada nesse seu texto cheio de ternura. É covardia sim colocar uma cronica (qualquer que seja) de Clarice Lispector a par com a filosofia de parachopque de cmainhão da Lya Luft ou com o nariz arrebitado pela soberba intelectual do Pompeu de Toledo ou pelo desbocamento ilimitado do infeliz Diogo Mainardi. Você nos faz pensar no tempo em que escrever bem era uma arte e a vida era nada menos que matéria prima maior desta arte. Amei seu texto e não pude conter a emoção.


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