Em entrevista ao jornal Estado de S.Paulo Caetano Veloso ultrapassou os limites do bom senso e derrapou na curva da civilidade ao atacar – segundo sua mãe, Dona Canô, gratuitamente – o presidente Lula. Chamou-o de analfabeto, cafona e grosseiro.

“Ela [Marina Silva] é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando e grosseiro. Ela fala bem”. (Estadão, 4/11/2009)

Antes de desancar Lula o artista baiano poderia se informar mais sobre a realidade brasileira. Se isso fizesse veria que o Brasil aparece como o país com o maior número de analfabetos na América Latina. Temos 14,1 milhões de brasileiros, o que equivale a 10,5% da população maior de 15 anos, que não saber ler nem escrever. Nos últimos dez anos esse número era aumentado em 2 milhões. Sinal que, aparentemente tímidos, tivemos progresso nessa área que tem relação direta com o exercício da cidadania. Esses dados foram divulgados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) por ocasião do último Dia Internacional da Alfabetização, celebrado em 8 de setembro.

Por que tão palavroso? Por que desferir ataques ao léu cometendo a grosseria que condena contra aquele que, por eleição direta, representa o povo brasileiro, esse mesmo povo que abarca formidáveis 10,5% de seu contingente na mesma situação do presidente? (Claro, isso se levarmos a sério a diatribe de Caetano e aceitarmos o gato por lebre dando conta que Lula é realmente analfabeto.)

Curiosos, saborosos

Desde quando cultura passou a ser sinônimo de inteligência? Eloquência passou a definir caráter ou competência? E cafonice entrou para a categoria de vícios de estadista? Conhecemos muitos tiranos que sempre foram elegantes, eloqüentes e além de apreciar a música de Wagner sabiam de cor longos poemas de Heine. Muitos opinaram que Caetano desejava se autopromover, divulgar seu novo CD e novo show. Aquele que foi alvo dos ataques minimizou todo o episódio demonstrando que (1) não iria partir para a denunciada grosseria; (2) passaria a usar surrada expressão latina sine qua non em pronunciamentos porque se “o Caetano pode usar, o Lula também pode”; e, (3) demonstrou que pode “não ser adepto da última moda musical mas que tinha juízo suficiente para responder a Caetano ao som da música de Chico Buarque de Hollanda”.

Seu irmão Rodrigo, secretário municipal de Cultura de Santo Amaro da Purificação (BA), achou por bem emitir nota oficial:

“Venho a público esclarecer que a recente declaração, feita pelo cantor e compositor Caetano Veloso sobre o presidente Lula, não expressa, em nenhuma hipótese, a opinião da família Velloso. Sua matriarca, Dona Canô, por meu intermédio, deseja se dirigir ao governador Jaques Wagner, a todos os brasileiros e, principalmente, ao presidente da República, com um sincero pedido de desculpas”. (Rodrigo Velloso, 15/11/2009)

A repercussão foi tanta que a matriarca dos Veloso, Dona Canô, a mulher centenária mais famosa do Brasil, decidiu se manifestar:

“Lula não merece isso. Quero muito bem a ele. Foi uma ofensa sem necessidade. Caetano não tinha que dizer aquilo. Vota em Lula se quiser, não precisa ofender nem procurar confusão.” (O Globo, 16/11/2009)

O assunto poderia ter morrido aí. Mas, em se tratando do bardo de Santo Amaro da Purificação, as coisas nunca morrem por inanição. Elas parecem ter sete vidas. E tiveram. Suas declarações continuaram sendo repercutidas em jornais e revistas e depois nos blogues, primeiro dos tais analistas de políticas e em seguida em blogues de internautas, esses mortais comuns que dão um sentido de cidadania mundial à web.

Resolvi recolher alguns comentários para termos a dimensão que o assunto tomou. De 106 comentários pinçados na Grande Teia, apenas 11 davam razão a Caetano. Poucas vezes fiz uma pesquisa tão divertida na internet e acabei encontrando nos comentários virtuais novas facetas dando conta da sabedoria popular dos brasileiros.

Até Dona Canô ter entrado no circuito com a repreensão oficial ao filho famoso, com repercussão inclusive no vistoso O Globo, os comentários eram desancando o artista, denunciando seu pedantismo e egolatria, fazendo comparações deste com Chico Buarque e com Gilberto Gil – e Caetano levando a pior. Depois da nota da matriarca dos Veloso encontramos aquele jeito brejeiro, prosaico no mais das vezes, de aconselhamento. E aí vicejam conselhos ora para Dona Canô, ora para Caetano e muitos dirigidos à vítima dos ataques. Expressões de afeto para Dona Canô são recorrentes. Algumas manifestações são bem curiosas e, por isso mesmo, mais saborosas. É difícil deixar de ter um sorriso no rosto após a leitura desses comentários. Aqui, uma amostra.

Conselhos para Caetano

** Antonio: Deixo aqui um conselho que ouvia sempre da boca do meu falecido e visionário avô! “Cada um no seu quadrado!” Caetano, pega o violão, senta pra não cair e toca qualquer coisa… Não faça como o Pelé, deixe a seara alheia…

** Vitor: Toda minha admiração para Dona Canô, que já vivenciou todos os desmandos neste país e tem lucidez suficiente para reconhecer e separar o joio do trigo. Caetano, mãe é mãe (e sempre tem razão!) e só resta a você lavar a boca com sabão. Da próxima vez Caetano deveria primeiro ouvir sua mãe antes.

** Vânia: Caetano precisa de um psicólogo que o faça refletir sobre as qualidades de sua mãe. Talvez ele consiga depois disso saber a importância de chamá-la de mãe. No momento ele não passa de fedelho.

Conselhos para dona Cano

** Marília: Dona Canô: bote Caetano pra ajoelhar no milho! Já imagino seus [pensamentos] na cadeira de balanço, desalentada: Onde foi que errei na educação desse menino?

** Antonio Pereira: Democracia começa em família! Dona Canô: aquele abraço e peço que dê dois puxões de orelha no Caetano. Está merecendo. Parabéns à família Veloso, menos ao seu filho mais pavão.

** Vera: Essa briga é do Caetano, Dona Canô. Gosto muito da senhora e lhe peço que mantenha distância. Por favor não se envolva. E se alguém tem que pedir desculpas, somos nós por darmos ouvidos às crises de holofotite do Caetano.

Conselhos para Lula

** Herbert: Aconselho o Lula a parodiar o Chico e cantar para o Caetano: “Você não gosta de mim, mas sua mãe gosta…”

** Jean: Ao Lula: Adorei sua entrevista na Rede TV, vi duas vezes. Agora, coitado do Caetano… está levando chapuletada de todo lado.

** Sérgio: Então acho de bom termo que Lula diga de Caetano o mesmo que Mick Jagger disse dele: “Que Caetano? Ah! Aquele subdesenvolvido de miolo mole do terceiro mundo?”

Defendendo Caetano

** Paulo: Caetano está certo! Falou apenas a verdade! Dona Canô era “gente” do ditador ACM…

** Fernando: Caetano está certo, certíssimo. Assino embaixo de tudo o que ele falou sobre o Lula. Vai dizer que o presidente não é analfa? Não é cafona?

** Carlos: Por acaso Lula é o quê? Caetano foi franco, honesto e não dissimulado. O Estado de São Paulo Censurado, agora Caetano não pode falar o que pensa! A Bolívia é aqui.

Defendendo os analfabetos

** Lia: O Caetano devia dar graças a Deus por o Brasil ter tantos analfabetos, assim a maioria não precisa entender as músicas ruins que ele canta!

** Jamile: Dona Canô, um exemplo de educação e respeito. Quando se referiu ao Presidente como analfabeto, quem Caê achou que estava ofendendo? Como um homem com um pensamento desses se acha inteligente e culto? Ah, Caetano, não envergonhe a nossa Bahia! Você quer criticar? Critique o governo, o presidente e não o ser humano que é analfabeto teve suas dificuldades/motivos, porém é o presidente da República! E você? Alfabetizado, inteligente… Quem é mesmo você?

** Rita: O Caetano tem todo direito de dizer o que pensa, porém achar que chamar uma pessoa de analfabeto é diminuí-la é simplesmente mesquinho. Caetano deixa os baianos envergonhados com sua falta de educação.

Curiosos

** Jane: O que deve mais ter doído no Caetano: o puxão de orelha da D. Canô (sempre maravilhosa) ou o Lula – e nós também – preferir o Chico? Onde andará a egolatria do Caê? O passinho do Caetano também é bem cafona, pois as quedas nos palcos indicam que: ou ensaios não acontecem, ou os tombos são resultantes do peso da grosseria.

** Rodrigo: Depois desta dona Canô vai revelar que Chico Buarque é filho dela e que Caetano foi adotado. Não é à toa que CAItano, teve novamente uma queda no palco. Está tropeçando na própria língua felina. Né, Leãozinho?

** Rivaldo: Caetano esculhambou o Lula e foi premiado com uma capa da revista Caras. Confiram na fila do supermercado. Ele é a nova Regina Duarte. E foi escalado pelos jornalões para bater no Lula.

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