O Brasil tem o que ensinar a Ahmadinejad

iran women1 apva 090320Na última semana deste novembro o Brasil estará recebendo o presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, em visita oficial. Será a primeira vez que um presidente iraniano pisará em solo brasileiro. Terá uma oportunidade de aprender com nossas políticas públicas de defesa dos direitos humanos.

Na História, nunca houve um Império tão multifacetado quanto o Império Persa, talvez por reflexo da política adotada pelo rei Ciro, que apesar de dominar várias nações, respeitava suas peculiaridades culturais, obtendo dessa forma a admiração e o respeito dos povos conquistados. Mas cremos que nenhum imperador da Antiguidade foi mais político que Dario, o Grande. Foi durante seu governo que a Pérsia atingiu seu apogeu, e entrou para a história como um dos impérios da Antiguidade. Talvez, nada saberíamos desse povo se Dario não tivesse tido a grande idéia de perpetuar essa história, narrando suas conquistas e deixando tudo devidamente registrado nas paredes de Persépolis.

Entre o mundo antigo e o atual muitos séculos decorreram. E muitas voltas a história deu. Até mesmo o nome da Pérsia mudou para Irã. Nesse intervalo de tempo o palco de guerra teve outros protagonistas, armas de destruição em massa vieram à existência, mapas geopolíticos foram redesenhados, democracias floresceram, ditaduras surgiram e ideologias criaram raízes na consciência coletiva da humanidade. E carnificina aconteceu, e não foi pouca, e em todos os continentes.

O mundo viu e sofreu os horrores de dois megaconflitos, com proporção internacional. Apenas, para ilustrar, a Segunda Guerra Mundial contabilizou em seu rastro de morte nada menos que 46 milhões de pessoas. Dessas, 6 milhões eram judias e morreram de forma mais perversa, cruel e torpe – fuziladas, asfixiadas ou incineradas em campos de concentração na Alemanha nazista. Inclui-se também, como uma cicatriz na história moral da humanidade, duas cidades japonesas que literalmente evaporaram: Hiroshima e Nagasaki. Essas populações foram exterminadas ante a explosão de bombas atômicas de parte dos Estados Unidos da América.

“Incitando racismos”
Na penúltima semana de abril, ficamos atônitos com os rumos da Conferência sobre Racismo convocada pelas Nações Unidas com o objetivo maior de assegurar a continuidade do encontro de 2001, realizado em Durban (África do Sul). Pois bem, esse evento teve início em Genebra, em 20 de abril de 2009, em clima tenso devido à ausência de pesos pesados do Ocidente, como Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Itália, Israel, Austrália e Polônia. Evento dessa magnitude, convocado para tratar de um dos piores flagelos da humanidade que é a existência toda e qualquer forma de racismo e discriminação, dificilmente poderia se harmonizar com o pensamento e as ações do único chefe de Estado inscrito para falar na abertura da conferência: o presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad. Para qualquer pessoa minimamente informada, fica patente que a simples evocação do nome traz à memória episódios de racismo e intolerância explícitos.

Ahmadinejad é reconhecido nas esferas diplomáticas dos quatro cantos do mundo como incitador de intolerância e discriminação contra adeptos de minorias religiosas existentes em seu país (bahá´ís, judeus, cristãos, muçulmanos sunitas), contra minorias étnicas (curdos, árabes, balúchis) e, de uma maneira geral, contra as mulheres. Como era previsível, do seu lugar de fala, na condição de chefe de uma nação, o presidente iraniano chamou Israel de “governo racista”, provocando a saída dos europeus presentes. E não se contentou com isto. Foi além, muito além dos limites do aceitável. Ahmadinejad explicou que “após o final da Segunda Guerra Mundial, eles (os aliados) recorreram à agressão militar para retirar as terras de uma nação inteira sob o pretexto do sofrimento judeu” – e não se fez de rogado sobre a que país desejava atingir, falando em tom abertamente beligerante que “eles enviaram migrantes da Europa, dos Estados Unidos e do mundo do Holocausto para estabelecer um governo racista na Palestina ocupada”. Era uma óbvia, uma clara alusão a Israel.

Uma retórica alimentada pelo fogo da intolerância, a tal ponto atiçado quando, ainda em seu discurso-manifesto, convocou (ou seria melhor incitou?) sua audiência a envidar “esforços para pôr fim aos abusos dos sionistas e de (seus) aliados”.

Minorias e mulheres
Mesmo estando ainda em sua primeira sessão, bem no início, o evento viu-se diante de um duro dilema: como tratar de racismo, dialogar sobre formas de abolir a discriminação se o chefe do Executivo de uma nação-membro do sistema Nações Unidas, o Irã, personificava o próprio mal a ser extirpado? Foi quando, em meio aos ataques ao Estado de Israel, 23 representantes europeus saíram da sala sob as vaias dos participantes. Não tardou para que os meios noticiosos dessem ampla cobertura a tão turbulento início de evento internacional com a chancela das Nações Unidas.

“Lamentamos veementemente a linguagem utilizada pelo presidente iraniano. Do nosso ponto de vista, o discurso estava totalmente fora de contexto para uma conferência destinada a promover a diversidade e a tolerância”, indicou o porta-voz do alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay. Já o embaixador da França Jean-Baptiste Mattéi tratou de explicitar a saída dos representantes europeus do auditório principal: “No momento em que Israel era estigmatizado na tribuna pelo presidente iraniano, nós nos retiramos da sala para deixar clara a nossa rejeição absoluta a essas afirmações”.

O que teria motivado o discurso belicoso do mandatário iraniano? Uma coisa sabemos: ele não pode alegar destempero verbal nem aqueles nossos conhecidos equívocos da mal-afamada arte do improviso. Isto porque, algumas horas antes de iniciar seu discurso, o secretário-geral da ONU Ban Ki-moon havia alertado Ahmadinejad para evitar qualquer ligação entre sionismo e racismo. Por outras vias, delegados dos países europeus haviam feito chegar aos ouvidos da delegação iraniana que estavam prontos para deixar o salão caso Ahmadinejad, conhecido por suas diatribes antiisraelenses, proferisse “acusações antissemitas”.

Obviamente um barraco dessa grandeza estava, desde logo, destinado a ocupar parte do noticiário nas páginas da editoria Internacional mundo afora. Mas a mídia, de uma forma quase generalizada, deu mais importância à forma que ao conteúdo. Falou-se muito de suas frases.

Esqueceram de anotar que o salão em Genebra estava tomado em grande parte por claques constituída por “representantes” de organizações não-governamentais iranianas, a soldo de seu governo. Deixaram de informar os leitores, ouvintes e telespectadores que o objetivo do polêmico iraniano era nada menos que esvaziar os objetivos da Conferência sobre Racismo.

Tanto que a mídia deixou passar quase em branco o pronunciamento do ministro norueguês Jonas Gahr Store, que falou logo em seguida a Ahmadinejad. O norueguês disse ao plenário que após aquele discurso “o Irã havia se isolado do mundo civilizado” e que ele não iria permitir que “o presidente iraniano sequestrasse os esforços coletivos de muitos”. A imprensa perdeu uma oportunidade ímpar de chamar a atenção do mundo para os crônicos e cada vez mais penosos casos de violação sistemática de direitos humanos no Irã. E, quanto a isto, é de todo lamentável que Mahmud Ahmadinejad tenha deixado de falar sobre as severas formas de discriminação que ocorrem em seu próprio país, desviando sua atenção para propagar a idéia de extinção do Estado judaico.

Lamentável também que ele tenha deixado de observar que sob sua presidência a condição dos direitos humanos no Irã se deteriora grave e rapidamente como demonstram à larga relatórios produzidos e chancelados, regularmente, por organismos das Nações Unidas. Em se tratando de uma conferência para reforçar a luta mundial contra o racismo, a mídia não chamou a atenção para o fato de que a discriminação no Irã vitimiza em cheio minorias étnicas e religiosas e também as mulheres.

Vista grossa
Contra grupos étnicos, bastava ele citar que os curdos são acusados, por seu governo, de serem terroristas, de atuarem contra a segurança nacional ou de cometerem traição ao país, sem qualquer prova ou evidência concreta. Parece claro que as autoridades iranianas não desejam distinguir entre o que se configura como defesa pacífica dos direitos das minorias e o que são ataques de terroristas. Fato é que, em 2008, membros da minoria curda foram vigorosamente reprimidos e sofrem também perseguição no Irã minorias como a árabe e balúchi.

Contra grupos religiosos, existe disponível a qualquer interessado no tema da proteção dos direitos humanos vasta documentação e amplo noticiário dando conta que tal forma de discriminação é vastamente disseminada por todo o território iraniano, afetando os bahá´ís, cristãos, judeus, sufís e muçulmanos sunitas, além de outras minorias. Os bahá´ís, em particular, enfrentam múltiplas formas de discriminação devidas unicamente às suas crenças religiosas. Nos últimos quatro anos, mais de 200 bahá´ís foram arbitrariamente aprisionados, detidos, intimidados e molestados. Quando lhe são imputados crimes, em geral essas acusações são falsas, coisas do tipo “estar agindo contra a segurança nacional”. A eles são negados uma vida decente devido às restrições quanto a terem emprego e ao confisco de suas propriedades. Estudantes bahá´ís são expulsos das universidades tão logo eles se identifiquem como bahá´ís. Sete líderes bahá´ís no Irã estão presos na temida prisão de Evin, em Teerã, há mais de sete meses e contra eles ainda não foi iniciado o processo legal. A defensora constituída pelos bahá´ís, a Prêmio Nobel da Paz Shirin Ebadi, ainda não conseguiu autorização para se encontrar com seus clientes.

Preocupa, de forma particular, a maneira como o governo controla os meios noticiosos em sua política editorial de vilanizar os adeptos da fé bahá´í. Centenas de artigos, programas de rádio e de televisão, comentários na internet e panfletos contendo discursos de ódio vêm sendo disseminados no Irã desde que o presidente Mahmud Ahmadinejad chegou ao poder. E também clérigos e autoridades vêm publicamente incitando o ódio e a violência contra os bahá´ís.

Não se pode fazer vista grossa ao fato de que aos bahá´ís iranianos são negados o direito de resposta. Ataques contra lares bahá´ís, negócios e cemitérios dessa minoria religiosa – por sinal a maior do país, com cerca de 300.000 seguidores – são abertamente encorajados e depois tratados com impunidade.

Esperança de balanço
Qual foi, então, o foco da mídia? Primeiro, o discurso anti-Israel do presidente iraniano. Segundo, a saída do salão durante a fala do iraniano de dezenas de representantes de governos ocidentais. Terceiro, responsabilizar Ahmadinejad pelo esvaziamento – que não houve – da Conferência. Com isso deixou-se de pautar os males do racismo em várias partes do mundo, bem como suas funestas consequências.

Hora de voltar às páginas da História. Enquanto reis de impérios anteriores, na Antiguidade, produziam tumbas faraônicas, e outros esculpiam e pintavam imagens de guerras em que representavam o rei esmagando e massacrando os povos dominados, o rei persa Dario eternizava e honrava seus povos esculpindo-os nas escadarias do palácio de Persépolis, no acesso à sala de audiência. Eram imagens nas quais os povos dominados pelo império honravam o grande rei Dario, com oferendas típicas de seus países. Que outro rei retrataria seus ex-inimigos nas paredes de seu castelo?

Muito bem. Na última semana deste novembro o Brasil estará recebendo o presidente do Irã Mahmud Ahmadinejad, em visita oficial. Será a primeira vez que um presidente iraniano pisará em solo brasileiro. Esperemos que boa parte dos temas aqui apresentados sejam tratados pelo presidente Lula, veiculados pela mídia nacional e internacional. E que, em um futuro balanço dessa viagem, algum repórter possa escrever:

“O presidente brasileiro deixou claro ao seu colega iraniano que mais importante que tratar de volume de exportações era tratar de meios para elevar a dignidade humana. Mais vital que exportar minérios, tecnologia e produzir alimentos em larga escala, o Brasil reafirmou sua posição oficial de defesa e promoção dos direitos fundamentais da pessoa humana, seu repúdio a toda forma de racismo e discriminação, sua proteção à liberdade de crença e de opinião, sua defesa – sem meios termos – da condição da mulher.”

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Fonte original: http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=4472


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