Aos 50, Brasília espera ser resgatada

O melhor presente que Brasília poderia receber em seu 50º aniversário seria nada menos que a punição de todos os envolvidos nos escândalos de corrupção flagrados pelo dublê de Secretário de Estado, delegado de polícia e cineasta Durval Barbosa.

Brasília faz 50 anos em 21 de abril de 2009 e tem sua festa comprometida pelo mais vistoso e documentado escândalo de corrupção governamental em seu meio século de existência. Cidade do futuro, obra-símbolo do arrojo de um presidente que tirou do nada uma nova concepção de urbe, misto de sonho com determinação empreendedora Brasília não merecia o lusco-fusco de comemorações que se avizinham: suas autoridades não conseguiram caminhar de cabeça erguida pela Esplanada dos Ministérios nem pelo Parque da Cidade e muito menos pelos caminhos prosaicos que embelezam suas imensas Superquadras. Que distância moral e cronológica daquele dia de abril de 1960 quando o ministro da Cultura francês André Malraux disse as famosas sentenças: “Brasília: Capital da Esperança… que hoje a História contemple conosco o despontar das primeiras edificações de uma cidade feita surgir unicamente pela vontade humana!”

Roubo, suborno, corrupção, vilania ilimitada é o que restou de uma programação há tanto aguardada e que pretendia trazer ao Cerrado estrelas do showbizz como Mick Jagger, Madonna, U2. E esse ar blasé de frustração pelo que poderia vir a ser e que não será. Mesmo o desfile dos 4 mil integrantes da Beija-Flor de Nilópolis, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, que aceitou convite e cachê do Governo do Distrito Federal (GDF) no valor de R$ 3 milhões para apresentar o tema “Brilhante ao sol do no mundo. Brasília, capital da esperança” corre agora o risco de receber na marquês de Sapucaí, nos próximos dias em que o país literalmente será comandado por Momo, as vaias, os apupos, a repulsa do populacho com o escracho e o deboche protagonizado pelo primeiro escalão do GDF.

Obviamente nada disso será noticiado no principal jornal brasiliense, o Correio Braziliense, como aliás já apontei aqui no artigo Panetones na redação. É a Omertá no cerrado. O silêncio sobre as falcatruas de uns e o grito estridente ecoando diariamente contra os pecadilhos dos que usam a verba indenizatória do Senado Federal para pagar passagens aéreas e outros quejandos não afetos à atividade parlamentar continuarão sendo eventos de primeira grandeza editorial no jornalismo praticado pelo veículo dos Diários Associados em Brasília.

O luto cobrirá Brasília com seu extenso manto. A vida continuará porque é de sua natureza estar sempre em movimento. Mas os brasilienses continuarão ao longo deste ano com travo amargo na boca: este seria o ano de mostrar a capital do Brasil-potência, a capital do gigante que cansou de dormir em seu berço esplêndido e acordou para assombrar o mundo com sua pujança econômica, com seu destemor em lutar contra o câncer das desigualdades sociais, com suas ousadas políticas públicas de empoderamento das populações carentes, dando-lhes condições de sobrevivência onde antes imperava a perversa noção de que ser justo é dar a cada um o que é seu, dava-se então a miséria aos miseráveis.

No traçado de Oscar Niemeyer e nos planos de Lúcio Costa não havia espaço para a mesquinhez humana. Tudo era celebração e festa, desvario de concreto, aço e criatividade. Brasília é feita para os olhos. Está “iconizada” no imaginário da arquitetura mundial. É uma cidade-portfólio de quando o futuro seria o ano 2000. Para qualquer estudante que ame a arquitetura visitar Brasília traz consigo a garantia de que terá aulas 24 horas por dia. Há dois anos, quem trafega pelo Eixo Monumental, pode observar os relógios do tempo assinalando quantos dias faltam para o cinqüentenário da cidade. Os moradores de Brasília já tinham entronizado em sua memória coletiva os três grandes eventos de 2010: a Copa do Mundo de Futebol na África do Sul, as Eleições majoritárias para presidente, governador, senador e deputado federal e as festividades dos 50 anos de Brasília. Este último evento que parecia trazer consigo a brisa da esperança transformou-se no mormaço da descrença na classe política do Distrito Federal. Resta-nos torcer para que o Brasil seja hexacampeão mundial de futebol e eleja quem melhor possa levar o Brasil ao lugar de destaque que o futuro lhe reserva.

E nada poderia ter causado mais danos à autoestima dos brasilienses que a escalada de malfeitorias que vem assolando os últimos governos do Distrito Federal, com ênfase especial para o atual governo distrital. É um contraponto por todos os motivos lamentável uma vez que se compara ao êxito arduamente conseguido por um Brasil já sobejamente respeitado no exterior, país que descobriu reservas fantásticas de petróleo na camada do pré-sal, que passa de contumaz devedor do Fundo Monetário Internacional para um de seus emprestadores, país que viu em poucos anos uma formidável massa de 18 milhões de brasileiros saírem da pobreza e ingressarem na classe média, país que será capital do mundo nos dois mais importantes eventos em que o planeta celebra a fraternidade entre os povos: a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

Não é de hoje que Brasília captura a imaginação no que ela tem de melhor: olhar o futuro com olhos expectantes. Começa pelo olhar poético do visionário-mor da capital brasileira, Dom Bosco ao afirmar que na extensão de terra onde hoje se localiza a capital federal “… aparecerá neste sítio a terra prometida, de onde fluirá o leite e o mel”. Passa por seu fundador, o mineiro Juscelino Kubitschek que ao colocar em movimento a aspiração dos brasileiros por uma nova capital, que pudesse promover a interiorização do governo e ocupar de forma efetiva e irreversível nosso vazio territorial havia dito onde antes havia apenas a vegetação do cerrado “… deste Planalto Central lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com uma fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.

Mas foi o urbanista Lucio Costa que melhor intuiu a natureza do maior desafio da nova capital ao dizer “…para que Brasília se torne uma verdadeira Capital deve impregnar-se de uma dignidade, de uma nobreza de intenção”. Oscar Niemeyer esperava que “Brasília fosse uma cidade de homens felizes: homens que sintam a vida em toda sua plenitude; ela foi construída para que possam viver homens mais próximos, mais amigos, iguais principalmente”. Niemeyer estava seguro da originalidade de sua cria: “… quem for a Brasília, pode gostar ou não dos palácios, mas não pode dizer que viu antes coisa parecida”. Vinícius de Morais que com o maestro Tom Jobim compuseram a bela Sinfonia da Alvorada dizia que “dois sentimentos são determinantes: amor pela obra e confiança no futuro de Brasília e do Brasil”.

Já nos últimos anos de sua vida o Poeta da Paixão mantinha ainda viva sua admiração pela cidade. Ele dizia que “Brasília já deixara de ser um sonho para transformar-se em uma realidade de âmbito mundial”. Clarice Lispector mostrou ao país uma Brasília desconhecida de todos, uma cidade milenar, plena de mistérios. Para ela “a beleza de Brasília são suas estátuas invisíveis” e estava convencida que “a alma de Brasília não faz sombra ao chão”. Ela dizia que “olhava Brasília assim como olhava Roma”.

Nenhum deles viveu – ainda bem! – para sofrer conosco o pouco caso, o desleixo e o cinismo escancarado com que o Governo do Distrito Federal vem buscando demolir o belo espaço que Brasília ocupa em nossa memória afetiva, em nosso sentimento maior de brasilidade.

A descoberta do Brasil pelo mundo em 2009 guarda boa parte do espanto com que o mundo saudou a inauguração de Brasília em 21 de abril de 1960. Naquele ano (e nos seguintes também) somente uma pessoa poderia ser referida como sendo “o Cara”: o cosmonauta russo Yuri Gagárin. Pois bem, ao ser saudado por Juscelino disse-lhe “a idéia que tenho presidente, é a de que estou desembascando num planeta diferente, que não a Terra!” Aos leitores desavisados vale informar que em 12 de abril de 1961, aos 27 anos de idade, Yuri Gagarin tornou-se o primeiro ser humano a ir ao espaço, a bordo da nave Vostok 1, na qual deu uma volta completa em órbita ao redor do planeta e proferiu a famosa frase “A Terra é azul”. Ele esteve em órbita 108 minutos.

Um dos maiores historiadores do mundo, o inglês Arnold Toynbee (autor da formidável obra ´A Study of History´, com 15 volumes) registrou que “a criação de Brasília é um ato de afirmação humana que constitui um acontecimento na história da humanidade”. O sempre hipérbólico André Malraux declarou ao Le Monde em maio de 1960: “Brasília é a ressureição do lirismo arquitetônico”, e não se deteve ante a beleza da nova capital brasileira. “Brasília sobre seu gigantesco planalto é de certo modo a Acrópole sobre o seu rochedo” afirmou. E havia também os enigmáticos. Um deles John dos Passos – companheiro de Ernest Hemingway, mas sem a fama do mesmo – chegou mesmo a dizer que “Brasília é como se fosse Pompéia ao contrário”. E não escapou nem mesmo à observação arguta do autor de 1984, Aldous Huxley quando escreveu em seu diário, em tom intimista “vim diretamente de Ouro Preto a Brasília: que jornada dramática através do tempo e da história! Uma jornada do ontem para o amanhã, do acabado ao que está está para começar, de conquistas antigas às novas promessas!”

Pensando bem o melhor presente que Brasília poderia receber em seu 50º. aniversário seria nada menos que a punição – rápida, exemplar, justa – de todos os envolvidos nos escândalos de corrupção flagrados pelo dublê de Secretário de Estado, delegado de polícia e cineasta Durval Barbosa. E se isto acontecer antes de 21 de abril próximo… Brasília tera feito jus à sua história e as esperanças que demarcam tão bem o espaço entre suas nuvens.


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