Acordei pensando no ouro ganho por Eric Lidell

carruagensNão sabemos se um certo Evángelos Odysséas Papathanassíu tem o hábito de correr, mas uma de suas obras acompanha corredores de todo o mundo, desde pequenas corridas de bairro até provas de longa distância como a Comrades, na África do Sul. A partir de 1981, muita gente passou a gostar de correr – ou a reafirmar essa paixão – com a trilha sonora do filme “Carruagens de Fogo”.

O título foi inspirado pelo poema visionário de William Blake “Jerusalém”, musicado por Charles Parry e cantado nos funerais de Abrahams, no começo e fim do filme. O verso “traga-me minha carruagem de fogo” seria uma referência à passagem em que o profeta Elias foi levado ao céu, relatada em 2 Reis 2,11. Assim corriam aqueles atletas britânicos, com asas nos pés.

“ENTREGUEI-LHE TUDO”. No mesmo ano em que Vangelis nascia na Grécia, o tema de uma de suas futuras composições (Eric’s Theme) era aprisionado em um campo de concentração das forças de ocupação japonesas no norte da China. O missionário cristão escocês Eric Henry Liddell morreria dois anos depois, ainda confinado, com um tumor no cérebro, a poucos meses do final da 2ª Guerra.

Embora tenha passado metade da vida evangelizando na China – onde nasceu em 1902 – trabalhando com educação, saúde e esportes, Liddell não seria lembrado por isso. Nem o seria pela atuação na organização da precária vida no campo de concentração; e nem pela doação integral aos internos em meio à deterioração de sua própria saúde. Seria celebrado por outros feitos, em outros tempos e campos.

Quando ainda não se dedicava à missão, Liddell corria pela glória de Deus: “Acredito que ele me fez para um propósito, mas também me fez veloz, e quando corro sinto o seu regozijo”. O homem que se entregou a Deus em vida já tivera a sua glória entre os homens duas décadas antes, nos Jogos Olímpicos de Paris.

100 METROS. Harold Maurice Abrahams, também tema de Vangelis (Abraham’s Theme), participava de um jantar especial todo dia 7 do mês 7, às 7 horas da noite, desde 1925 até sua morte, em 1978. Um ano antes, nos Jogos Olímpicos de Paris, exatamente nessa hora, ele havia conquistado a medalha de ouro na prova dos 100 m; seu companheiro de pódio e de gastronomia era o neozelandês Arthur Porritt, medalha de bronze. Eles celebraram ano após ano, por mais de meio século, aqueles 10,6 segundos de Abrahams – recorde olímpico – e os 10,8 de Porritt. Atualmente o recorde mundial é de 9,77.

O inglês Abrahams, filho de um judeu lituano, tinha participado dos Jogos da Antuérpia em 1920 sem muito sucesso. A seis meses dos Jogos de Paris, entretanto, tomou uma decisão que mudaria sua vida: contratou um técnico profissional. O experiente Sam Mussabini, apresentado pelo rival Eric Liddell, enfatizou o treinamento nos 100 m, deixando os 200 m em segundo plano.

200 METROS. Ao se recusar a participar da prova dos 100 m, Liddell foi muito criticado por abandonar chances de conquistar uma medalha de ouro em sua especialidade. Seu motivo – incompreendido – foi que uma eliminatória aconteceria em um domingo, dia consagrado ao Senhor. Pela mesma razão, declinou das provas de revezamento 4 x 100 m e 4 x 400 m. Disse que nunca questionava as escolhas de Deus: “Não preciso de explicações, simplesmente acredito nele e aceito qualquer que seja o meu caminho”.

Liddell conquistou a medalha de bronze nos 200 m com o tempo de 21,9 segundos e Abrahams terminou em sexto e último lugar, na única ocasião em que ambos competiram na mesma prova. O norte-americano Jackson Scholz ganhou a medalha de ouro com 21,6, recorde olímpico. O atual recorde mundial é de 19,32.

“PENSE SÓ EM DUAS COISAS” – Scipio Africanus Mussabini (SAM) nasceu em Londres em 1867, de ascendência árabe, turca, italiana e francesa. Foi corredor, jornalista, técnico de ciclismo, especialista em bilhar e técnico de corrida. Fotografava atletas em ação e aperfeiçoou as três fases dos 100 m: a largada, o comprimento e ritmo das passadas e o mergulho para a chegada. Entretanto, nunca teve reconhecimento oficial por ser um técnico pago em uma época de espírito amador no esporte.

Com a decisão de Liddell de não correr os 100 m, as expectativas de medalha de ouro recaíram sobre Abrahams. Aguilhoado pelo preconceito anti-semita, ele trazia também um lembrete de Mussabini para a final dos 100 m: “Pense só em duas coisas – a pistola e a fita. Quando ouvir uma, corra como um demônio até romper a outra”.

A aliança entre os dois discriminados renderia ainda mais uma medalha. Abrindo a equipe britânica no revezamento 4 x 100 m, Abrahams conquistou a prata com o tempo de 41,2 segundos; os Estados Unidos levaram o ouro com o recorde mundial de 41,0. O atual recorde é de 37,40.

400 METROS. Após o episódio dos 100 m – e o bronze nos 200 m – Liddell foi para a prova dos 400 m sem ser considerado favorito. Atualmente o recorde mundial é de 43,18 segundos, mas em 1924 a marca olímpica era de 48,2, que na eliminatória foi baixada para 48,0 pelo suíço Imbach. Na semifinal, o norte-americano Fitch puxou-a para 47,8, criando uma grande expectativa para a final.

“A quem me glorificar, eu glorificarei”, dizia o bilhete que Liddell recebeu pouco antes da largada, citando 1 Samuel 2,30. Ele então correu como sempre: na reta final jogando a cabeça para trás, abrindo largamente a boca, olhando para o céu e cruzando a linha de chegada – e vencendo. Conquistou a medalha de ouro e estabeleceu novo recorde olímpico: 47,6. O ex-recordista Fitch ficou com a medalha de prata, com 48,4; o outro, Imbach, não completou a corrida.

Liddell percorreu a primeira metade da prova em 22,2 segundos, apenas 0,3 menos rápido que o seu tempo para a medalha de bronze nos 200 m. Sua explicação era tão singela quanto cristalina: “O segredo de meu sucesso nos 400 m é que corro os primeiros 200 tão forte quanto posso. Então, para os 200 restantes, com a ajuda de Deus, corro ainda mais forte”.

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Sam Mussabini morreu aos 60 anos. Em cinco olimpíadas seus atletas ganharam um total de onze medalhas. Seu grande feito ocorreu em Paris, com o ouro de Abrahams. Nos Jogos de 1928, um ano após sua morte, seu último atleta ainda obteria a prata nos 100 m e o bronze no revezamento.

Harold Abrahams encerrou a carreira aos 25 anos, um ano após os Jogos de Paris, ao sofrer grave lesão na perna no salto em distância. Manteve o recorde inglês dessa prova por 32 anos. Atuou como advogado e foi jornalista e dirigente esportivo. Morreu aos 78 anos, convertido ao cristianismo.

Eric Liddell encerrou a carreira aos 23 anos, um ano após os Jogos de Paris, para se dedicar a Deus. Seguiu competindo esporadicamente até 1930, em festividades e campeonatos regionais no interior da China. Morreu em um campo de concentração, aos 43 anos de idade.

Nos Jogos Olímpicos de Paris, estas vidas se cruzaram nas pistas: dois atletas excepcionais e um técnico à frente de seu tempo. Conquistaram duas medalhas de ouro, uma de prata e uma de bronze. Atingiram o apogeu de suas vidas esportivas oito anos depois dos Jogos abortados pela guerra de 1914 a 1918. Embora não soubessem, haveria ainda uma outra grande guerra, e o técnico descendente de árabes e turcos morreria antes dela; o cristão que corria em nome do Senhor, durante; e o judeu que desafiava a intolerância sobreviveria a ela. Tinham em comum a paixão pela corrida pedestre, mas para todos eles – por diferentes razões – não haveria mais tempo para os próximos Jogos. Assim, brilharam por inteiro naquele verão de 1924, separados apenas pelas raias e pela linha de chegada.

“Tomarão asas como de águia; correrão e não se fatigarão” – estas palavras de Isaías 40,31 assinalam a lápide de Eric Liddell em um local remoto no interior da China. E aqui, sempre que corremos com “Carruagens de Fogo” sabemos que elas alçarão vôo de lá, e que nos buscarão pelo ar, e que nos alcançarão, e que nos darão novas forças, e que não nos deixarão cair. Então, e só então, correremos com asas nos pés.

4 Responses so far.

  1. André disse:

    Uma história linda de um homem que estava afrente de seu tempo ,com a expiração de Deus em sua Vida.

  2. Elias disse:

    O pastor Palharim falou de lidell,mas disse que ele fez os 400m em 49 segundos,qdo, na verdade,fez 47 segundos.

  3. Santimar disse:

    Que este grande de Deus, seja expiração para a igreja atual.

  4. lazaro disse:

    Fatos da vida de Eric Liddell, Retratadas no Filme, Carrugem de fogo,são parcialmente verdadeiras,já que alguns fatos foram distorcidos para aumentar o drama.Contudo Eric
    provou com seu testemunho de vida, ser possível colacar DEUS ,em primeiro lugar…


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