HAITIDurante muito tempo aprendemos que para fazer bom jornalismo é necessário investigar, levantar questões, buscar respostas, analisar informações. Tudo em nome de manter bem informado o leitor, o ouvinte, o telespectador e o internauta. Fazer bom jornalismo implica esforço, determinação, objetividade, visão analítica, percepção do conjunto disso que chamamos realidade. Mas existe outro jornalismo, o de impacto. Foi impactante? Será dado na primeira página do jornalão. O impacto resultou em milhares de mortos? Capa de revista semanal. A declaração sobre tema polêmico é, por todos os motivos, desastrosa? Assegure-se, então, a geração de edição especial do telejornal de maior audiência. Depois… bem, depois é repercutir as variadas versões do mesmo fato.No livro O Reino e o Poder, sobre a história do New York Times, o jornalista estadunidense Gay Talese preferiu se arriscar a dizer o óbvio. Tem vezes que dizer o óbvio é o melhor a fazer. E é ótimo então para destacar esta ou aquela apreensão da verdade. Muito bem, concordo com Talese quando disse que os jornalistas preferem “ver países em ruínas e navios a pique do que uma cena sadia, que compõe boa parte da vida”. Há uma atração fatal pela doença, pelo doentio. De tanto se bater na tecla que doença contagia ninguém mais se atreve a perder alguns centésimos de segundos acreditando que saúde também pode contagiar. E, no entanto, é a mais pura verdade.

Confesso que, eventualmente, quando tenho em mãos uma edição do New York Times, logo após ler as chamadas de capa sigo direto para a seção de obituários. Um bom obituário vale por muitas reportagens dando conta do óbvio: 2.700 morreram na Faixa de Gaza, 11.300 morreram no sul de Bagdá, 300 mil morreram em Porto Príncipe. É que enquanto alguns escrevem o número de mortes no corpo maior, mais chamativo, bem centralizado e tudo, a leitura de um obituário assinado por Robert McG. Thomas Jr. me faz pensar horas a fio sobre o que seu texto me ensina de vidas inspiradoras. O mesmo acontece quando leio texto assinado por Richard Pearson. Gente que tem o dom de eternizar quem acaba de morrer por intermédio de um punhado de palavras, duas ou três frases e não mais que isso; que consegue captar o sentido da vida e da morte mais que o repórter afoito que empurra seu microfone por debaixo de escombros buscando saber como se sente a vítima de soterramento. É a destreza profissional desses repórteres que inundam as redações do jornalismo-catástrofe. E como não noticiam nada que valha a pena ser lido uma segunda vez, não hesitam em carregar no informe do número de vítimas fatais.

Perguntas sem respostas

Mas ainda há que se ter talento. Saber contar uma história que sacie a fome de informação e de sensibilidade. Na cobertura de terremoto devastador (como se existisse terremoto pacífico e não destruidor), o jornalista tem que escolher entre informar “o lugar e os números” – algo como: terremoto no Haiti, 80 mil mortos – e “o lugar e as vidas” – algo como: terremoto no Haiti semeia dor, luta e morte entre milhares de pessoas.

A segunda opção trata de humanizar a catástrofe da natureza. E só se consegue isso se enveredar pela narração de histórias de gente normal, de carne e osso, com sentimentos, angústias e anseios, desespero e esperança. Há que se discernir o grau de importância dada a informe dando conta que 100 mil tratores ficaram inutilizadas e 100 mil vidas foram interrompidas. De 130 mil pés de laranja que foram arrancados pela enchente e 2 mil pessoas que ficaram feridas e desabrigadas.

Jornalismo interrompido é o que temos. Depois de ocupar noticiários em todas as plataformas – rádio, jornal, TV, internet – e passados 90 dias do terremoto de 12 de janeiro de 2010, ninguém fica informado sobre o que realmente acontece no Haiti. As perguntas se acumulam como cadáveres a céu aberto – insepultas.

Qual o volume de recursos financeiros que efetivamente chegou ao Haiti após o terremoto? Alguém sabe se Porto Príncipe voltou à vida normal? Qual o contingente atual de tropas estrangeiras sediadas no Haiti? Quem coordena os esforços das Nações Unidas pós-terremoto? O Brasil ou os Estados Unidos? O país é governado por haitianos ou por forças de paz? Em que resultaram os megashows de celebridades internacionais em favor do povo haitiano? E a adoção de crianças haitianas? Qual nação recebeu o maior número de crianças adotadas? A dobradinha Bush-Clinton rendeu o que, em termos práticos, para a reconstrução do Haiti? A quantas anda o plano de reconstrução, a infraestrutura hospitalar, o aparato governamental? E o cônsul haitiano em São Paulo, aquele que disse que o terremoto foi ocasionado pela crença haitiana em vodu… o que aconteceu com ele? Segue representante de seu país no Brasil?

Qual o montante de dinheiro doado pelos brasileiros – aquele depositado em bancos oficiais – para o povo haitiano? Que países decidiram perdoar a dívida externa do Haiti? Sobreviventes que perderam suas casas receberam ajuda financeira para reconstruí-las? Países cumpriram promessas de ajuda financeira trilionária? Existe alimento suficiente para a população desabrigada? Quantos são os desabrigados?

País sem rosto

Sem respostas a tais questões vemos a pauta “Terremoto no Haiti” morrer por inanição. Inanição no jornalismo também pode ser descrito como preguiça mental, desleixo profissional, desrespeito com o consumidor final da notícia: eu, você, ele, nós, vós, eles. Imagino reunião de editoria de Internacional decretando solene: “Haiti deu o que tinha de dar”. Mas, será que jornalismo se faz assim mesmo? Os fatos se empilham na forma de equações desconexas destinadas a nada produzir, a nada resultar. É que a equação nasce mal formulada, ostenta apenas a primeira parte, o que foi impactante, o que podia fisgar a curiosidade, interesse e atenção do público consumidor de notícias.

Assim como as pessoas anônimas sofrem mortes comuns, ou seja, sofrem a morte do esquecimento rápido, repentino, súbito como o piscar de olhos, as grandes catástrofes nestas encontram seu espelho: logo são esquecidas, relegadas a um último plano editorial. De tanto ser informado sobre o terremoto no Haiti, a verdade é que quase nada sei sobre o tanto que li, ouvi e vi da movimentação de terra. Não me contaram nenhuma história e por isso a humanidade que há em mim não ressoou tão fortemente ante o estrepitoso noticiário. Porque o que retenho na memória permanente é o rosto humano que se sobressai do relato. E o Haiti ficou sem rosto. Infelizmente.

Mas isso não me impede uma pausada reflexão: quem deixou de viver no dia 12 de janeiro de 2010? Tantos corpos e histórias foram enterrados naquele e nos dias seguintes. Tantas vidas interessantes e interrompidas que jamais conhecerei. É um fardo pesado para carregar. E fica mais pesado porque toda esta multidão morreu sem que ninguém achasse importante escrever seu obituário. Um que fosse, já seria bom.

Reproduzido do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=585IMQ001

 

One Response so far.

  1. helena disse:

    Estou fazendo um trabalho para a faculdade e tenho buscado informações sobre a real situação do Haiti. Infelizmente, essas informações cessaram com o advento de novas tragédias. Esse texto, remete a verdadeira situação, na qual encontra-se inserido os meios de comunicações. É muito triste sabermos que apesar de estarmos vivendo uma evolução da era da informática, temos ainda pouco acesso as informações em tempo real.


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