Cobertura econômica – sopa de números

sopaA arte de escrever manchetes parece estar em baixa no Brasil. Ao menos em nossos jornais diários de maior circulação. Refiro-me às manchetes de segunda-feira (10/5). O assunto é o mesmo, a idéia geral é a mesma e a palavra-chave das três manchetes é a palavra “crise”. Vejamos:

** O Globo: “Europa socorre países em crise com mais US$ 650 bi”

** Folha de S.Paulo: “Europa visa conter crise com pacote de € 750 bi”

** Estado de S.Paulo: “UE negocia criação de fundo de € 500 bilhões para gerenciar crises”

É claro que não há reparo algum ao tema levado às manchetes. O problema é que o diabo continua morando nos detalhes. E, nesse caso, os detalhes elevam-se a bilhões em moeda forte, sonante, de encher os olhos. Observe o leitor que a diferença entre um e outro pode chegar aos 250 bilhões de euros, diferençazinha desprezível de pouco mais que 574 bilhões de reais.

Deve também se observar que enquanto dois optam pelo euro como moeda na manchete – os dois jornais paulistas – o carioca O Globo vai mesmo de dólar norte-americano. Em se tratando de crise encravada solidamente no continente europeu, capaz de contagiar como catapora em crianças da vizinhança, a verdade é que o caos que vem se tentando controlar na Grécia ameaça seguir para Espanha e Portugal e em seu rastro trazer incertezas aos demais potentados que sustentam a economia do velho continente – França e Alemanha, principalmente.

Onde canta o galo

É fato que redigir uma boa manchete não é fácil. A intenção é sempre a de dizer o mais importante acontecido no dia anterior, mas dizer de forma que informe o fato principal do assunto escolhido e que capture a atenção dos leitores. E tem que ser curta. Mais fácil de ser apreendida, entendida, replicada. Para conseguir o feito há que ser clara.

Acontece que as três manchetes variam não apenas no tamanho da cifra, algo fundamental em se tratando de manchete sobre economia, mas também na ação que buscou retratar. É aqui que mora a imprecisão. O Globo decidiu usar “socorrer”, dando idéia do que melhor retrata o aporte de fundos da União Européia; a Folha escolheu algo brando, muito leve, a junção do “visar” com o “conter”; o Estadão foi de “negociar”.

Quem conseguiu ultrapassar a manchete correu para a editoria de Economia ou de Internacional, observou que a confusão estava apenas anunciada na capa de cada jornal. Em um jornal a informação está toda focada nas ações da própria União Européia, em outro o peso ficava sobre os ombros do Fundo Monetário Internacional, e entre um e outro surgia como salvador das finanças européia o Federal Reserve Bank – Fed para os íntimos, dos Estados Unidos.

Enfim, perseguir os fatos relevantes e, após encontrá-los, dissecá-los, pelo jeito foi deixado inteiramente a critério de cada leitor; e se esse leitor estivesse acompanhando a crise grega, provavelmente desejaria ler na internet – que é bem mais em conta – o que os outros jornais e portais noticiosos estavam trazendo sobre o assunto.

Pronto. O quebra-cabeça tinha mais peças do que o anunciado na caixa e o trabalho duro mesmo é montar uma matéria que se ponha em pé, com início, meio e fim, algo que após ser lido seja compreendido e, começando pelo montante gritado na manchete, haveria de se converter dólares americanos em euros, descobrir se o pacote estava aprovado ou, como sugere o Estadão, ainda em fase de negociação… enfim, a manchete deveria mostrar que o galo não apenas cantou como também em que lugar estava cantando e, se possível, quanto tempo durou a cantoria.

Notícias completas

As notícias sobre a economia sofrem com títulos desastrosos. E mais ainda com coberturas desastrosas. Editores de Economia poderiam visitar seus arquivos e, com certeza, iriam encontrar matérias de melhor qualidade, com apuração adequada, muito distante dos contumazes pilotos-automáticos que vira e mexe são acionados. Descobririam a importância de boxes explicativos, a necessidade de trocar em miúdos 750 bilhões de euros.

Útil também seria a análise bem fundada sobre os efeitos da atual crise européia na economia nacional. Igualmente, alguma santa alma, alma de economista competente com aura de jornalista perspicaz, poderia nos dizer se o remédio financeiro é suficiente para debelar a enfermidade do paciente… e, de quebra, se esta ainda apresenta características contagiosas.

Não posso deixar de passar em branco a sensação – então lembro Lúcia Hippolito com suas diárias e corriqueiras “sensações” – muitas vezes usual e infantil de que a mídia (especialmente a impressa) tem uma queda irresistível para ver apenas o lado ruim das coisas. Nada demais que a mídia busque, sim, o extraordinário, o raro, o inédito, o curioso. Mas, tem que ser sempre bem sucedida em se tratando de noticiar tragédias?

A Grécia conflagrada, o populacho ensandecido, promovendo quebra-quebra para grego nenhum botar defeito, e a consequente repressão policial estarão sempre em matérias mais bem elaboradas, com mais apuração, mais espaço e mais doses de talento aplicadas à sua feitura em nossos jornalões do que a decisão em tempo recorde de salvar a economia com providenciais 650 bilhões de dólares, 500 bilhões de euros ou 750 bilhões de euros?

Pelo que vejo, daqui por diante as notícias publicadas em nossa grande mídia só serão completas se tratarem de José Serra e Dilma Rousseff. E números confiáveis e transparentes somente os que informam o valor pecuniário das multas aplicadas pelo TSE aos pré-candidatos presidenciais. Será isso?

 


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