O jornal de cara nova

reformasChega de debates estéreis, de esquerda, de direita. Chega de reformas à meia boca. Chega de ilusões. O único chega que deu certo foi o que decretou: “Chega de saudade!” O ponto é que criamos uma cultura de impotência e tudo parece confirmar que nada podemos fazer para mudar o estado das coisas, que a realidade é sempre asfixiante e que se torna sempre mais distante a idéia de que podemos pensar por nós mesmos. Há uma cultura de perpetuação – a nos gritar a todo instante – que só podemos existir desde que consideremos nossa existência como eficiente forma de obediência. Mas, ai dos atilados, dos que se atrevem a existir com um projeto próprio, com uma visão de mundo para além desta que nos fazem crer ser a única possível, com seu carcomido sistema de valores éticos, morais, espirituais.

Pois bem, vamos ao que interessa que o domingo se esvai célere e logo iremos deparar com a cinzenta segunda-feira de cada semana. A partir deste domingo (23/5), o jornal Folha de S.Paulo estreia novo projeto gráfico e editorial. Nem vou esperar para ver o jornal na mão. De vez em quando é preciso avançar o sinal e fazer algum exercício mental senão o raciocínio fica irremediavelmente embotado. Mas não vou carregar nas tintas porque bom senso e brinde de revista semanal para novos assinantes não se pode recusar, oras.

“Catequese sexual”

Desta vez, o foco se dirige ao pensamento e não ao arcabouço, ao esquadrinhamento estético, sempre tão afeito aos anunciados projetos novos do jornal paulista. Agora a mudança é de nomes, talentos, biografias, profissionais liberais, enfim. No reino dos nomes em que estamos atravessados, seria impensável que não fosse dada uma meia sola no título de seus cadernos. É inegável que nossos meios de comunicação adotaram há muito a opção por servir a uma visão conformista da história. E isso implica achar acomodação para o mundo e a vida que nele palpita.

Ilustrativo é chamar o caderno “Brasil”, um dos únicos cadernos da grande mídia a ostentar o nome do país, passar a se chamar “Poder”. A uma primeira vista, em um tempo marcado pelo resgate do prazer e do orgulho (diriam alguns) de ser brasileiro, somos arremessados a essa coisa bruta e forte de poder, e tudo o que abarca a palavra, desde o poder de manter tudo tal como está até a luta cotidiana pelo poder ou, ao menos, pela manutenção deste.

A notícia da Folha esclarece que ao sair “Brasil” de cena e entrar na vitrine “Poder”, a mudança de foco é para lançar jato de luz aos três poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário) e ainda “para tratar de assuntos relacionados à religião, ao meio ambiente, aos movimentos sociais e às diversas organizações da sociedade civil”. Anuncia-se também que o caderno rebatizado é dedicado aos interesses do cidadão e à esfera pública. Novamente, mais estrada que pernas para percorrer. Desejando abarcar o todo, é possível que deixe muito de fora, talvez a maior parte da gama de assuntos seja condenada a entrar no caderno pela porta dos fundos.

Há uma assimetria do decantado “Poder” que assume o lugar de “Brasil”: é razoável que seja espelho dotado de visão e fala para os conhecidos três poderes e espelho cindido para os subpoderes emanados da sociedade – meio ambiente, religião, ONGs. Óbvio que mudanças climáticas e efeito estufa, direitos humanos saem logo perdendo de 10 a 0 em relação ao tema dos temas nas semanas e meses logo à frente – as eleições na primeira semana de outubro de 2010.

Não deixa de ser interessante saber que a Folha descobriu talento para análise política na ótima atriz Fernanda Torres. Lerei seus textos lembrando as falas hilárias da impagável Vaní em Os Normais. E suas memoráveis entrevistas em programas da TV Globo, como aquela em que comentando sobre o tema homens-galinha, no Domingão do Faustão, disse: “Acho que mulher gosta de homem cafajeste”. Ou quando, em entrevista no TV Fama, na RedeTV!, referindo-se à personagem que viveu na peça A casa dos Budas ditosos, disse que “ela faz uma catequese sexual”. Fernanda Torres terá como parceiro no novo caderno o diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo. Para a grande imprensa, esta é a única ONG realmente transparente – e, não por acaso, tem o adjetivo em seu próprio nome.

Um freio de arrumação

Outro caderno repaginado e que virá com nome novo é o atual “Dinheiro”. Passará a ser “Mercado”. Neste caso específico acho que até demorou muito para que o deus-mercado assumisse seu lugar de direito e não me surpreenderá se em futura reforma editorial a Folha venha a trocar seu nome para “Mercado”. É esperar para ver. Dinheiro foi importante quando apenas poucos estratos sociais tinham acesso a ele. Mas, hoje em dia, não apenas deixamos de dever ao Fundo Monetário Internacional como o Brasil até lhe empresta uns trocados de US$ 10 bilhões para ajudar os gregos a sair da encalacrada em que se meteram, não obstante o apoio de sua extensa legião de deuses.

Dinheiro só é problema para quem não tem. E agora muito mais gente tem dinheiro. Agora, mercado é coisa para gente grande e graúda e somente uns poucos podem dizer do alto de suas oblíquas reputações que conseguem manipular o mercado. Eike Batista, aquele que pode até colocar na mesa de negociação a doação de rio para indígenas de Peruíbe concordarem com a construção do Porto Brasil em suas terras, obviamente não foi escolhido por isso, até porque o acordo não vingou. O novo colunista da Folha, aos 52 anos de idade, é o brasileiro que se tornou o oitavo homem mais rico do mundo. Ninguém no planeta ganhou tanto quanto Eike Batista em 2009. O homem mais rico do Brasil tem uma fortuna de US$ 27 bilhões, o que equivale a R$ 48,6 bilhões. Credencial melhor que esta para escrever na Folha?

A serviço do caderno (deus)”Mercado”, os leitores do jornal paulista terão encontros quinzenais em suas páginas com o banqueiro Fábio Barbosa, presidente da Federação Brasileira de Bancos, a Febraban, e também do cada vez mais onipresente Banco Santander. Como falar de economia e mercado sem o olho afiado de um banqueiro? Terá também o consagrado publicitário Nizan Guanaes, vivendo literalmente na ponte São Paulo-Nova York. Com tais pesos-pesadíssimos, haveria que ter um médico incomum, dublê de economista, a dividir a bancada do pensamento de mercado – o deputado Antonio Palocci, agora coordenador da campanha de Dilma Rousseff à presidência. É o velho jogo de claro/escuro, de morde-e-sopra, uma-no-prego-outra-na-ferradura e assim dízima-periodicamente a coisa engrena.

Dificilmente seríamos surpreendidos com o convite a outros colunistas, a pessoas com perfil de maior sensibilidade social, pessoas que operem os maiores programas de transferência de renda do planeta, não por acaso existentes aqui mesmo no Brasil. Estamos testemunhando apenas um freio de arrumação na casa. A grande mídia e o poder econômico encontram-se no aquecimento, na concentração, a se preparar para fazer o desfile de sua história, aquele que incensará políticas econômicas ou que inviabilizará políticas sociais que não atendam a objetivos e metas econômicas claramente difundidas ao longo dos 365 dias do ano e, sempre, no viciado ritmo do “entra ano, sai ano”.

Outros cadernos ou mudam de nome ou recebem novos colunistas. Falarei destes em outra ocasião por motivos óbvios e já anunciados previamente – não tenho o jornal reformulado em mãos.

Um filme já conhecido

Enquanto isso, os espaços da imprensa independente, da expressão independente, se reduzem crescentemente. Com uma exceção, que eu acho extremamente importante, que é o acesso cada vez maior da população aos milagres propiciados pela internet. A internet realmente abriu clareiras enormes para que se pudessem ouvir vozes historicamente interditadas, vozes roucas de quem foi talhado apenas para ouvir, e nunca para falar.

Outro assunto que não pode passar batido. Agora mesmo vemos a ausência de intenções sinceras pelos países-membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas ao tratar do acordo conseguido pelo Brasil e pela Turquia junto ao Irã na questão do domínio de tecnologia nuclear. Quem decide as coisas dentro das Nações Unidas? Quem amarra o sino no pescoço do gato? Na Assembléia Geral estão todos, mas estes só formulam recomendações, emitem opiniões como se estivessem em clube recreativo das nações. Quem toma decisões mesmo é o Conselho de Segurança, onde cinco países têm direito a veto. É a lógica dos vencedores da Segunda Guerra Mundial ainda comemorando, inebriados, o ocaso dos nazistas na Alemanha e observando partículas de poeira nuclear que varreram as populações das cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.

Pois bem, esses cinco países que prezam pela paz no mundo e se autodesignam tutores da segurança internacional são os cinco principais produtores de armas. Ou seja: os que lucram com a tragédia humana são também os defensores angelicais da paz mundial. E enquanto não se mudar essa estrutura de poder não poderá haver nem justiça nem democracia no mundo. Tampouco haverá paz, pois se as guerras necessitam de armas, as armas também necessitam de guerras. E não se fazem guerras com povos amigos: há que se escalar o inimigo, a bola da vez. Para isso, que se rasguem todos os tratados de relações internacionais, de diplomacia, de ética a permear a convivência entre as nações.

Mas, como era de se esperar, os esforços do Brasil e da Turquia encontraram na imprensa brasileira uma espécie de filial da imprensa norte-americana em seu interesse de diminuir os esforços de paz e trabalhar pelo esforço de guerra que, certamente, começa a tomar corpo com as novas sanções ao Irã. E antes que os apressadinhos de costume entendam que estou defendendo o Irã declaro, logo de início, que bem ao contrário, continuo com o pé atrás quando se trata de avalizar a palavra dada pelos que falam em nome do governo iraniano. Naquele país de riquíssima história, um dos berços da humanidade, encontra-se um imenso déficit de respeito ao mais importante dos anseios humanos – o respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana. Os bahá´ís que o digam, idem os cristãos, os curdos, as mulheres, os homossexuais, os jornalistas. A lista dos que têm seus direitos humanos violados sistematicamente no Irã é realmente de encher os olhos de dor e tristeza.

Feita esta advertência, voltemos ao curso do texto: ganha uma assinatura de Veja quem apostar que vai demorar muito a ficarmos sabendo que o Irã possui atualmente imensos depósitos de armas químicas para destruição em massa. O resto do filme é já conhecido por todos.

Estarei errado ao entender que nosso mundo é escandalosamente injusto?

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br


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