A bola, a arte e o risco

alg green missesDepois da estreia esperei pelo dia seguinte. Queria conferir o poder de síntese de nossos principais jornais sobre nosso primeiro jogo na África do Sul. Ainda de madrugada observei que cada manchete espelhava (ou não) o grau de confiança em nosso êxito rumo ao hexa. São elas:

** Folha de S.Paulo: “Golaços em jogo morno”
** O Globo: “Tanto segredo para isso?”
** O Estado de S.Paulo: “Tensão na estreia do Brasil”
** Jornal do Brasil: “Ganhou. Mas precisava do sufoco?”
** Correio Braziliense: “Achou pouco? Essa é a seleção do Dunga”
** Zero Hora: “Estreia sofrida”
** Estado de Minas: “Ufa!”
** Jornal do Commercio: “Foi bom… pode ser melhor”
O jogo deveria ser filé. Não foi. E Kaká não achou em cada enxadada uma minhoca, perdendo, quase sempre, a viagem. Fez o verdadeiro estilo escorregou “tá” no prego. Também não sei quem foi leão no treino, mas pelo jeito, mesmo estando na África, o rei não deu as caras. E ninguém podia falar em maçarico, já que era jogo noturno. Coisa bem diferente da carne assada que foi enfrentar Zimbábue e a Tanzânia.

À exceção de Ramirez, os demais companheiros da Pátria de Chuteiras eram, vamos dizer, pé de boi. Não quero nem falar em cabeças-de-bagre até porque alguns estavam em campo defendendo nossos canarinhos. Para não dizer que não vi ninguém comendo grama – em nosso favor – destaco logo a atuação do Maicon e do Elano.

Embora, tenham realizado os dois tentos não se pode afirmar, em sã consciência, que o goleiro saiu catando borboleta. Ainda bem que ninguém abriu a caixa de ferramentas. Também não assisti ninguém pegando na orelha da bola. Se vivo fosse não sei o que João (Coragem) Saldanha diria do jogo de estreia de Brasil na Copa de 2010. Provavelmente falaria que nada de importante aconteceu na zona do agrião. O jogo não foi ao ponto de pensarmos na marca do pênalti – para tanto teríamos que sofrer o segundo gol dos coreanos do norte.

Embora considerada fraca, fraquíssima a seleção do país do Kim Jong-il, tendo participado apenas da Copa de 1966, estava bem longe de ser considerada freguês dos brasileiros. Não vi ninguém mandando um pombo sem asas e nenhum dos gols acertou onde a coruja dorme. Drible de vaca também não ocorreu. E ninguém pipocou. Sede de rede mesmo só Robinho e estamos conversados.

Campos hipotéticos
 

 

Os parágrafos acima estão, propositalmente, recheados de expressões futebolísticas. São frases e termos que frequentam nossos barzinhos e biroscas, são impressas em colunas de esportes, são recitadas por narradores ensandecidos de jogos de futebol de ontem e de hoje e, quem sabe?, de amanhã. Estudiosos da comunicação já identificaram cerca de dois mil neologismos conceituais relacionados com a linguagem do futebol, cujos significados podem ser compreendidos pela maioria das pessoas. Mas isso já é outra história. Fica pra depois.

A bola que corre nos gramados da África do Sul é tão importante que até tem nome: Jabulani.

Com a bola toda, bola murcha, bola fora, bola pra frente, trocar as bolas, comer bola… o certo é que cotejando as diversas estreias das seleções que sempre chegam com ares de favoritas (Brasil, Itália, Espanha, Inglaterra, Argentina; exceção, apenas, a da Alemanha) sou impelido a afirmar que tem tudo pra sobrar pra ela. O goleiro chileno Claudio Bravo, por sua vez, comparou a mesma a uma bola de vôlei de praia. Diego Maradona, o enfant-terrible argentino, dublê de treinador/polemista de plantão, deitou entrevistas trazendo a Jabulani para o centro do debate. Para Don Diego, ela é a principal suspeita para escassez de gols nos jogos iniciais da Copa africana. “Não quero mais falar da bola Jabulani. Os goleiros, os jogadores e todo mundo já falou, mas ela influencia muito nos poucos gols. Peço a Pelé e a Platini que se dediquem a ver se a bola é boa em vez de ficarem falando de mim”, alfinetou seus companheiros lendas do futebol, com a sutileza de sempre, o técnico argentino.

Não demora muito e teremos no Youtube vídeos sobre a primeira Copa do Mundo de Futebol realizada em terra africana em que a principal estrela será Jabulani. E deixará na poeira o ora desditoso goleiro inglês Green e o sempre falado Droghba em número de acessos diários. Seu outro nome poderia ser “a criticada”.

Acontece que a bola vem sendo muito criticada por jogadores da seleção brasileira. Felipe Melo, disse que o nome da bola deveria ser “Patricinha”. Júlio César chegou a classificá-la como “bola de mercado”. Júlio Baptista e Robinho foram unânimes em qualificar a bola da Copa como “muito ruim”. Luís Fabiano disse que a bola é “sobrenatural”.

Em apoio a esta apurada percepção sobre assuntos de outro mundo, claramente exposta por nosso Fabuloso, pode-se inferir que o jornalista que pretenda perfilar a Jabulani saberá, logo de cara, que em seu histórico consta longa experiência nos hipotéticos gramados de Hogwart – sim, aquela escola freqüentada por quem não é trouxa, por astros do quadribol como Harry Potter e Draco Malfoy, jogadores com o nível técnico de Kaká (quando em forma), Robinho (quando pedala para o gol) e Beckham (quando não contundido). Sem trocadilhos, Jabulani deve ser a obra prima do incompreendido Lorde Valdemorte.

História terrível
 

 

Em defesa da Jabulani, apenas o testemunho do fabricante alegando que a bola foi feita após muitos anos de estudo e aprimoramentos tecnológicos. Claro, bola que parece ter vontade própria, que julga de forma soberana e nunca subalterna se deve empinar para a direita ou para esquerda, exige tecnologia de ponta. É como fazer sair da prancheta artefato apto a esquadrinhar a superfície de Júpiter. Na bolsa de intrigas há quem desconfie que as críticas podem ter surgido da rivalidade econômica entre empresas de material esportivo, já que muitos dos jogadores que criticaram a bola são patrocinados pela maior rival da Adidas, a estadunidense Nike.

Dois físicos da Universidade de Adelaide, na Austrália, especializados em aerodinâmica, Derek Leinweber e Adrian Kiratidis, que já estudaram a aerodinâmica de bolas de futebol, golfe, críquete e vários outros esportes, declararam que as manifestações (negativas) dos jogadores sobre a Jabulani têm razões bem mais profundas do que simplesmente agradar este ou aquele patrocinador. Eles afirmam que “a nova bola é de fato mais rápida, faz curvas de forma imprevisível e é sentida como sendo mais dura no impacto”. E mais: a maior dificuldade em lidar com a Jabulani deverá ser sentida pelos goleiros.

O inglês Robert Green que o diga. Aliás, até o momento a cena mais desconcertante da Copa foi a escapulida de Jabulani das mãos de Green, que voou para trás, desesperado, tentando apagar os segundos seguintes, esticando o braço, fechando o punho e socando com pura raiva o chão. Depois, o mundo viu seu rosto congestionado e a mão direita levantada formalizando o mais sincero dos pedidos de desculpas pelo gol não impedido. E nunca na história de todos os Mundiais de Futebol uma seleção demonstrou tamanha frieza e pouco caso para um companheiro envergonhado, vítima das artes do ofício: nenhum dos 10 jogadores ingleses emprestou solidariedade ao jovem goleiro.

Solidariedade que viria justamente do goleiro americano Tim Howard, o herói que segurou o empate de sua seleção com a Inglaterra, em 1 x 1, na estreia da Copa do Mundo. “Ele fez algumas ótimas defesas. Infelizmente, neste nível, às vezes coisas assim acontecem. Lamento muito por ele.” Nem mesmo pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração são capazes de passar incólumes pela Jabulani. Suas vítimas bem poderiam ouvir a voz rouca de Adoniran Barbosa que conta, quase consolada, a terrível história da noiva atropelada 20 dias antes do casamento: “O chofer não teve culpa, Iracema. Paciência”. É, Green, já tem gente dizendo: “A bola não teve culpa, Green. Paciência.”

Sem Pelé
 

 

Pelo menos a bola é, em suas intenções, politicamente correta. Em autópsia da Jabulani procedida por perito legista com ampla experiência na difícil arte de fabricar bolas logo escreveria no laudo o seguinte: seu fabricante é a Adidas; possui 11 cores diferentes, cada uma representando os 11 dialetos da África do Sul, os 11 jogadores de cada selecionado e as 11 etnias que compõem a população sul-africana; seu nome significa “Celebrar” no idioma Bantu isiZulu; dispõe de apenas oito gomos em formato 3D, ao contrário dos moldes anteriores das bolas de futebol constituídas por gomos planos; seu design abarca traços africanos, misturados numa diversificação de 11 cores em que o branco predomina.

O futebol, mais que paixão brasileira, está fortemente entranhado em nossa cultura, em nosso cotidiano. E suas expressões transcendem em muito as quatro linhas do gramado, se esparramando por diversas atividades não relacionadas com o esporte. Nas primeiras décadas do século 20, o futebol deixou de ser um esporte da elite e ganhou, imbatível, o gosto das camadas populares. E ainda na primeira metade dos anos 1940 verificou-se um processo de aportuguesamento do futebol, que, até então, usava muitos termos em inglês. Um exemplo: a palavra goleiro, nascida a partir de goalkeeper, do inglês. Portugal manteve o seu pitoresco “guarda-redes”.

Daí em diante, o futebol ganha dimensão imensa no imaginário brasileiro e faz o caminho inverso, invadindo o vocabulário das elites também. Nos últimos sete anos o futebol passou a envergar a faixa presidencial: Lula usa expressões próprias do futebol para tratar de reajuste de aposentados, da crise nuclear envolvendo o Ocidente e o Irã, da corrida presidencial empreendida por Dilma, Serra e Marina.

Em seu primeiro ano de governo (2003) o presidente usou termos do futebol para referir-se à economia: “Isso aqui é como um time que estava com medo de perder o jogo. Entrou, marcou um, marcou dois gols, e agora o técnico pode dizer: `Vamos para o ataque, dá para a gente fazer mais e, quem sabe, golear os adversários´.” E, no mesmo ano, faria o balanço de seu então incipiente governo: “Estou chegando ao primeiro ano de governo com a sensação de leveza, com a sensação da primeira etapa do jogo ganha em todas as áreas”.

Em 2004, descartaria reforma ministerial também em puro futebolês: “Em time que está ganhando não se mexe (…). (No ministério) só sai por contusão”. Ao falar que a eleição em 2010 não está ganha, disparou: “Vamos trabalhar para ganhar as eleições. Não é uma eleição fácil. É como time de futebol. Quando o time está ganhando de um a zero, de dois a zero, quando o time está ganhando, recua, não quer mais fazer falta, pênalti, fica só rebatendo a bola. E quem está perdendo vem para cima com tudo, e é com gol de mão, de cabeça, de chute, de canela. Não tem jogo ganho ou fácil”.

Em uma frase Lula se define e defende sua propensão para ser otimista: “Tem gente que não gosta do meu otimismo, mas eu sou corintiano, católico, brasileiro e ainda sou presidente do país. Como eu poderia não ser otimista?” E no recente drama mexicano em que se transformou o “processo” de escolha de um vice para José Serra ainda havia espaço para encaixar o comentário presidencial. Neste caso, restava patente “não ser uma boa para o PSDB” que Aécio Neves figurasse na chapa como seu vice: “Não sei. Eu acho que num time de futebol… não sei se dois Coutinhos, se dois Tostões, se dois Dirceus Lopes dariam certo no mesmo time. Não sei. Às vezes, é preciso fazer uma composição diferenciada para poder dar certo, então… mas aí o PSDB que decide”.

Tão afiada argúcia não passaria batido pelo não menos afiado blogueiro de Veja: “Entendi. Que a torcida fique sabendo: para Lula, Serra e Aécio são dois craques de primeiro time. Não sei se perceberam a notável ausência de Pelé na metáfora. Bem, Pelé, como vocês sabem, só existe um: o próprio Lula”.

Placar imprevisto
 

 

Com sua popularidade em ritmo de Jabulani bem chutada o presidente bate um bolão quando se põe a discorrer sobre o porquê de a maioria de nossos titulares na África do Sul praticar seu futebol fora do Brasil. “O Brasil não é mais onde se pratica o melhor futebol do mundo. O Brasil é o país que mais cria craques. É uma fábrica de produzir jogadores. Mas o bom futebol do mundo é praticado nos campeonatos europeus, no campeonato inglês, onde as pessoas têm mais dinheiro para pagar por jogador”, disse Lula.

E vai além, penso que 100% sintonizado com a vasta maioria de nossa população ao afirmar que “o problema do esporte brasileiro é que, no Brasil, não vemos mais os jogadores atuarem quando estão no auge de suas carreiras”, queixou-se o presidente. “Vemos os jogadores atuarem até os 18 anos. Com 18 ou 19 anos, ele vem para a Europa e ficam até 14 anos e voltam já aposentados”, disse o presidente. E mais: “Só vemos eles jogarem pela TV ou na seleção”.

Agora é esperar que Dunga, após o 2 x 1 contra a Coreia do Norte, encontre tempo para atualizar a conversa com seus botões – aliás, nunca vi botões tão grandes em casaco mais estiloso jamais trajado por técnico de futebol. Sim, há muito o que conversar com eles. Devem estar ansiosos para ouvir as razões que levaram o técnico a deixar no Brasil o Ganso que poderia ter feito a diferença na luta contra os vermelhos patos norte-coreanos. E, de quebra, Dunga poderia emprestar seus botões aos técnicos da Espanha, Itália e Inglaterra que também querem entender o significado de zebra no linguajar do Brasil.

Adianto. O termo foi usado pelo técnico carioca Gentil Cardoso para qualificar um resultado imprevisto de um jogo, e não tardou para que a expressão caísse no domínio público e viesse a ser largamente empregada. Uma pista adicional: provavelmente, o técnico foi buscar inspiração no jogo do bicho que utiliza quase todos os animais… menos a zebra.

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=594JDB011


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