Sem ameaças à liberdade

 
4 de outubro de 2010 traz em letras vermelhas nas agendas das campanhas que não conseguiram a vitória de seus candidatos nos primeiro turno a indefectível expressão: “É hora de avaliar”. Já os que foram eleitos no dia 3 estão cientes que agora é tempo de recolher os que ficaram feridos no meio do caminho, reunir as promessas factíveis, descartar as que foram pronunciadas no calor da luta e tratar de compor as equipes de governo ou de emitir recados aos muitos esperançosos navegantes naquela base do “… a formação de governo só na segunda quinzena de dezembro”.

Como era esperado, jornais e revistas semanais se engalfinharam na luta por seu candidato como se fossem apêndices midiáticos de comitê de campanha. Foram repercutidos escândalos sérios e escândalos pré-fabricados, aqueles existentes apenas para consumo interno de certo público político específico. Concederam importância desmedida à campanha presidencial e fizeram pouquíssimo caso de campanhas para o Legislativo.

Na falta de ataques frontais (vamos dizer assim) a seus desafetos políticos, jornais e revistas trataram de empinar o pesado papagaio da liberdade de expressão ameaçada. De tão pesado o monstrengo não levantou vôo porque a realidade não deu as caras: se existe algo que está muito longe de ser ameaçado no país é a liberdade de opinião, de expressão, de impressão e, afirme-se, quase nenhum tipo de pressão pareceu perceptível a ponto de se considerar minimamente séria.

Emissor de informação

Não é segredo para ninguém que o modelo dominante de desenvolvimento depende de uma sociedade vigorosa de consumidores de bens materiais. Em tal modelo, crescentes níveis de consumo são moldados como indicadores de progresso e prosperidade. Essa preocupação com a produção e acúmulo de objetos materiais e conforto (como fontes de significado, felicidade e aceitação social) consolidou-se nas estruturas de poder e de informação para a exclusão de vozes concorrentes.

O mesmo se dá com o consumo de informações por intermédio de jornais, revistas e programas de tevê. Lemos o massacre da semana ou o déficit das contas públicas do país tendo em seu entorno aquela casa dos sonhos, com arborização espetacular lembrando virgens florestas amazônicas no próprio coração de São Paulo. Buscamos acompanhar o texto do colunista de política exalando satisfação com a confirmação de um segundo turno nas eleições presidenciais e já oferecendo assessoria gratuita de como deveria proceder o candidato de sua preferência, tendo a poucos centímetros de seu pequeno texto nada menos que imenso carro com 160 HP anunciado como “o único symetrical awd 4×4” ou seja lá o que isso queira significar.

Não existe pausa para reflexão sem que nossos sentidos sejam sugados, empurrados, levados pelo canto do olho para o anúncio de imperdíveis férias em Cancun ou para usufruir promoções que nos levam a Nova York ou a Orlando a preços bem atraentes de importante agência de turismo.

A cobertura da campanha eleitoral não diferiu muito daquela observada na eleição anterior. A novidade foram os debates na internet, notadamente o patrocinado pela Folha de S.Paulo e o portal UOL. E também os piados do Twitter a ridicularizar posturas equivocadas da Folha em sua tentativa de demonizar a candidata governista.

O fenômeno da internet nos apresenta o paradoxo de uma máxima concentração e abuso da posição dominante sobre um instrumento que rompe com a mensagem unidimensional dos grandes consórcios da comunicação e converte cada internauta em emissor de informação e em receptor da biodiversidade informativa que é gerada no universo virtual.

Sentimento real

A realidade é que temos o cultivo irrestrito das necessidades e também dos desejos que desembocam em um sistema totalmente dependente do consumo excessivo para alguns poucos privilegiados, reforçando a exclusão, pobreza e desigualdade, em benefício de uma minoria. Cada uma das sucessivas crises globais (seja climática, financeira, energia, alimentos, água etc.) revelou uma nova dimensão da exploração e opressão inerentes aos padrões atuais de consumo e produção. O ter é eleito sempre em primeiro turno e com vantagem avassaladora bem ao estilo Eduardo Campo em Pernambuco ou ao Renato Casagrande, no Espírito Santo. E o ser só existe em pesquisas simpáticas até à boca de urna, mas de antemão se sabe que jamais chegará ao almejado segundo turno, aquele momento em que as vantagens entre o ser o e ter serão comparadas, mensuradas e cotejadas.

Agora teremos mais quatro semanas para a etapa final destas eleições. Haverá os que tratarão de zerar o jogo na base do “trata-se de uma eleição inteiramente nova”, maneira apressada de passar uma larga e longa borracha sobre os muitos erros cometidos contra sua campanha e principalmente contra o contingente de eleitores. E, de outro lado, os que dirão que será apenas parte final de uma campanha que teve início tanto oficial quanto extraoficial. Para estes trata-se de mostrar quem é mais competente para traduzir políticas públicas em ganhos reais, alguns imaginários, outros nem tanto, mas, de uma forma ou de outra, será vencedor quem souber traduzir discursos em sentimento real de felicidade a se dilatar por mais quatro anos, ao menos, até o pontapé na bola que significará o início da Copa do Mundo de 2014.

 

Fonte: http://twixar.com/jflwN

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