Um jornalista é sempre um jornalista?

A resposta comporta ao menos três variáveis. Uma afirmação, uma dúvida e uma negação. Algo tão monossilábico quanto “sim”, “depende” e “não”. Comecemos analisando do fim para o início.

Se a resposta for não é porque você não é jornalista, está jornalista. Estamos diante da velha noção de dualidade que o verbo ser nos apresenta, de forma tão escancarada, em português. É a pessoa que tem no jornalismo apenas a profissão. Mas dispensa a pretensão de ter a vocação e menos ainda de se sentir dono do talento para seu exercício. É o que escreve seu texto com a mesma criatividade com que lava o rosto e escova os dentes diariamente. É presa fácil para usar a profissão com muitos outros fins que não o de informar a realidade, os fatos que ocorrem e dar a interpretação destes com a paleta que carrega consigo e de onde extrai as cores que simbolizam a ideologia, a moral, a filosofia, a crença.

Sente-se jornalista quando entra na redação onde trabalha, quando se conecta com seu editor via iPad ou note/netbook, quando, qual um peixe, movimenta-se em seu aquário particular. Esta resposta é escorregadia pelo volume de equívocos que transporta. A pessoa pode agir como jornalista sempre em conformidade com suas conveniências e interesses, cada vez mais pessoais. E pode deixar de agir como jornalista exatamente pelos mesmos motivos: sonegando informação do público em troca do vil metal ou como gesto de gratidão por recompensa previamente recebida. Os que se enquadram nesta resposta não merecem confiança. E muito menos se chamarem jornalistas.

Simulacros

Sendo a resposta “Depende” estamos diante de um cenário furta-cor, lusco-fusco, aqueles que nem são noite nem são dia. São seres acostumados à penumbra da madrugada. E mesmo tendo a aparência de jornalista, falarem como jornalista, escreverem como jornalistas, contudo não podem ser confundidos com jornalistas. Podem até ter aquele jeitão de jornalista, caçador implacável de uma quimérica objetividade; ainda assim, são meros simulacros de jornalistas.

Estes têm predileção pelo off, pelo sigilo, pelo secreto. E são peritos no toma-lá-dá-cá. Sabem zelar, com especial apuro, quartos com esqueletos de histórias de suas fontes e também suas próprias histórias, estas que nunca foram devidamente esclarecidas: plantaram notas, foram descobertos, caíram em desgraça por um par de dias ou semanas e, num passe de mágica, retiraram a nódoa de suas biografias ressurgindo sempre como talentosos profissionais da imprensa em um telejornal, em redação de uma outra revista, na editoria de qualquer outro jornal.

Não titubeiam em entregar série de reportagens bombásticas, escritas com a tinta do escândalo criado para atravessar semanas e meses em troca de um reles emprego para o filho, a mulher, a irmã ou para o sobrinho talentoso do irmão mais velho. O emprego tanto pode ser no serviço público, em qualquer dos Poderes da República, quanto na iniciativa privada, em especial no ramo das empreiteiras e do sempre hipervalorizado mercado da telefonia. O trágico é que para quem dispõe apenas de um martelo tudo que aparece à sua volta tem o formato de prego.

Olhos interrogativos

Sendo a resposta “Sim” inferimos que a profissão não nos abandona ao longo de todo o dia e ficará conosco por todo o resto de nossa vida. É que um jornalista pode ver a realidade que o cerca (e muitas vezes o envolve) apenas com o que chamamos de “olhar jornalístico”, aquele par de olhos interrogativos, sempre disposto a colocar em alto relevo as famosas questões centrais para a redação de uma notícia (onde, quando, quem, como, por que etc).

Um jornalista que é jornalista em tempo integral consegue sempre enxergar naquela direção que seus olhos apontam um princípio de reportagem, uma peça a mais na matéria investigativa que está lapidando, um comentário pertinente, desses “caídos do céu”, para dar brilho à coluna diária que tem de escrever. E também pode sentir ali, ao alcance da vista, a poucos metros de seu nariz, a semente de uma crônica ou, no mínimo, a idéia-base para algum artigo futuro.

Este tipo de jornalista é reconhecido por seus textos. Estes dispensam adjetivos adulatórios e se põem de pé pela força das idéias que trazem, pela maestria dos argumentos lançados ao alcance dos leitores. E se recusam a concluir em nome do autor pelo simples fato de não terem recebido destes procuração para tal. A palavra empenhada por um jornalista a tempo completo, sete dias por semana, é tida como algo sagrado. Merecem fé sem precisar de chancela cartorial.

Mas, como tudo na vida que envolve paixão – no caso, a paixão pelo jornalismo – são estes Don Quixotes que pagam o preço mais elevado da vida: seu tempo tem cotação mais alta que barril de petróleo tipo Brent… em tempos de crise no Oriente Médio. Por ousarem trocar a camisa trocada diariamente pela própria pele que lhes reveste, estes jornalistas – muitas vezes em total inconsciência, quando não em opção insana de viver – sacrificam sua relação familiar. Não espanta que sejam useiros e vezeiros na arte de construir famílias: algumas não passam dos alicerces, outras avançam pelas paredes e por ali ficam. Apenas quando entrados em anos, ultrapassando o limiar da terceira idade é que conseguem construir uma família com cara de família, com jeito de família, com sabor de família. Esta última, se fosse casa, brotaria do chão por completo, com sólidos alicerces, paredes confiáveis, teto acolhedor e dependências generosas para abrigar pensamentos e vontades, sentimentos e perdas – sim, as sempre inevitáveis perdas.

É fato também que quando este jornalista escreve um texto seu intuito não é outro que mostrar o que encontrou e não o que esteve procurando. Simples assim. O jornalista em tempo integral percebe muito cedo que o prazer está em escrever e não em terminar o texto. Entende que o fim do texto – seja um artigo, seja um livro-reportagem – pode ser visto como mais uma de suas muitas mortes. E não me parece pretensioso afirmar que este jornalista bem poderia se sentir como o inglês Andrew Wiles (1954 – ) que consumiu oito anos de sua vida em total estudo para solucionar o Último Teorema de Fermat – finalmente publicado em 1995 – e que ficara 300 anos sem solução desde que havia sido proposto pelo francês Pierre de Fermat. A verdade é que Andrew Wiles chorou copiosamente quando demonstrou o teorema. O que se passava em sua mente? Ele pensava: “Nada do que eu fizer de novo na minha vida vai ser tão importante”. Porque para Wiles o importante era o processo de descoberta e não o fim. O jornalista que exerce a profissão a cada respiração investe no processo de escrever porque é isto que lhe dá prazer, satisfação, realização.

Turma

Você que é jornalista pode muito bem pairar por cima de cada uma destas respostas. Mas não por muito tempo. Cedo ou tarde haverá de encontrar seu nicho, de encontrar sua turma, a turma do Não, a turma do Depende, a turma do Sim. E mesmo que deseje continuar pairando… não se preocupe: os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas saberão – mais dia menos dia – em que turma você melhor se encaixa. Porque, no fundo mesmo, o que é duro é ser um ser humano. Você, como jornalista, pode até tirar um dia de folga, mas como ser humano, não existe tal possibilidade. Tem que ser humano em tempo integral. Do contrário terá que conviver com toda aquela profusão de coisas que morreram dentro de você enquanto você ainda estava vivo. No meio destas coisas encontram-se, amontoados ou de pernas pro ar, seus sonhos.

Volto, então, a lhe perguntar: Um jornalista é sempre um jornalista?

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=636IMQ008


ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Observatório da Imprensa
  • Vale

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Carta Maior
  • Meu Advogado