Irã vive Idade Média tardia

É sempre um curioso exercício mental pensar em como seria viver atualmente na Idade Média. Aquela época de sombras e densos nevoeiros embotando o pensamento humano, retardando o progresso material e espiritual de todos os povos e encobrindo a maior das tragédias humanas: extirpar do ser humano o sentimento de fé.

E não será o sentimento de fé o que melhor distingue o humano do animal? E não será este sentimento que lhe permite, com os pés no chão, tocar as estrelas e se sentir seco em imensas profundezas oceânicas? Se quisermos interromper no mundo a mais vital das experiências humanas basta que se interditem todas as preces, se lacrem todos os templos, igrejas, sinagogas e mesquitas, se impeçam a realização de toda forma de adoração ao Sagrado, toda forma de culto, liturgia e rito.

Mas, nem mesmo se desejando extirpar de dentro da consciência humana essa chama que tanto aquece quanto ilumina, ainda assim, será impossível ser bem sucedido em tão titânica empreitada. Isto é assim porque a fé transcende o próprio ato de pensar. E está tão firmemente entranhada na vida humana que logo nos faz recordar esses versos do poeta Pablo Neruda:

“Tu eras também uma pequena folha/ que tremia no meu peito./ O vento da vida pôs-te ali./ A princípio não te vi:/ não soube que ias comigo,/ até que as tuas raízes/ atravessaram o meu peito,/ se uniram aos fios do meu sangue,/ falaram pela minha boca,/ floresceram comigo.”

É como lutar para que o sólido se desfaça no ar, o fogo se torne aquoso, a água deixe de conter duas moléculas de hidrogênio e apenas uma de oxigênio. Milênios se passaram e em nossa memória coletiva ainda está bem fresco a profusão de sangue derramado no período das Cruzadas, e as labaredas ainda crepitam abrasando milhares de vidas inocentes nos anos da assim chamada Santa Inquisição.

Inquisição toma ruas de Teerã

A luta pelo direito de acreditar em ‘algo transcendente’ em pleno século XXI, ainda não é líquido e muito menos, certo. Ainda se demitem pessoas de seus empregos, se proíbem milhares de jovens de cursar universidade, se proíbem reuniões em que seriam ouvidas orações e entoados cânticos. E prendem, torturam e assassinam impunemente homens e mulheres, jovens e idosos, acusados – ainda que apenas informalmente – do mais antigo dos crimes que a humanidade teve a infelicidade de conhecer: o crime de manter inamovível a crença na existência de um Deus Uno, Poderoso e Invisível. Mais do que isso, a sistemática e monstruosa perseguição movida contra os seguidores da Fé Bahá´í no Irã, se apresenta, nos dias que correm, como irmã tardia e caçula daqueles que em tempos passados tomaram para si o sinistro protagonismo de Cruzados e a também não menos aviltante à dignidade humana, função de Inquisidores. E o que eram os Inquisidores se não aqueles doutos na arte de atear  o fogo do ódio nas consciências para, logo em seguida, acender imensas fogueiras em praças e ruas de milhares de vilarejos e cidades?

As pessoas mais cerebrais poderiam até se concederem o benefício de imaginar que os agônicos pesares que afligem toda uma Comunidade Religiosa poderia até estar acontecendo em alguma minúscula e remota ilha do Pacífico Sul, no interior do Madagascar ou em algum ponto inacessível da África. Enganam-se redondamente. Tudo isso acontece em uma nação-berço da humanidade, a antiga Pérsia – atual Irã – terra de estadistas como Ciro, Dario e Xerxes; solo em que deram seus primeiros passos poetas magníficos que escreveram tanto em Persa como em Árabe como Ferdusi, Saadi, Hafez, Sanaí, Rumi e Omar Khayyam, mundialmente conhecidos e que tanto influenciaram a literatura em vários países. É tão forte a aptidão persa para versificar expressões do dia-a-dia que se pode encontrar poesia em quase todas as obras clássicas, seja de literatura persa, ciência ou metafísica. Em suma, a capacidade de escrever em verso era um pré-requisito para qualquer erudito. Não à toa que, por exemplo, quase metade dos escritos médicos de Avicena – o Pai da Medicina – encontram-se na forma de versos.

O Irã tem passado demais… e presente de menos

Portanto, não estamos falando de um povo sem passado ou de uma nação sem história. Muito pelo contrário. O problema é que existe passado demais no Irã e presente de menos.

O que o Irã terá como futuro? Como um país pode almejar algum futuro de paz se a semeadura nas mentes das novas gerações passa necessariamente pelo louvor à intolerância, à negação de fatos históricos como o Holocausto dos judeus na II Guerra Mundial, à opressão da mulher e o menosprezo total à sua vasta diversidade humana, que, de certo modo, assemelha-se como microscosmo da multifacetada e rica diversidade da própria humanidade?

Enquanto isso, as Nações Unidas, os países que formam o G8 e os que integram o agora mais representativo bloco de países do G20, são unânimes em condenar a violação sem trégua aos direitos humanos dos 300.000 bahá´ís que residem dentro de suas fronteiras. As condenações alcançam também líderes religiosos de denominações que não sejam islâmicas, como os xiitas e os sunitas. Assim, queimam no caldeirão do fanatismo religioso bahá´ís, cristãos e judeus. Por ser a mais numerosa minoria religiosa do país persa, é urgente relatar a caótica e completa situação de insegurança física, psicológica, econômica, alimentar e cultural em que tentam sobreviver os bahá´ís:

Atualmente, mais de 100 bahá’ís se encontram nas prisões no Irã. Entre eles estão as sete lideranças da comunidade – cada uma cumprindo sentenças de 20 anos de prisão sob acusações forjadas – e sete educadores aprisionados por seu envolvimento numa iniciativa informal para ajudar os jovens bahá’ís impedidos pelo governo de frequentar instituições de educação superior. Mas, isso não é tudo.

Além dos que já se encontram atrás das grades, mais de 300 bahá’ís que foram detidos anteriormente e depois libertados estão aguardando julgamento ou intimação para cumprirem suas sentenças. As somas exigidas como fiança – a maioria das vezes utilizando escrituras de propriedades ou licenças comerciais como garantia – são exorbitantes. Centenas de residências de bahá’ís foram atacadas e pertences pessoais – incluindo livros, computadores, celulares, fotografias e documentos – confiscados.

Tudo isso constitui uma maneira adicional de esgotar os recursos dos bahá’ís, os quais já são submetidos a amplas e sistemáticas tentativas para empobrecê-los por meio de táticas como: serem impedidos de possuir (ou trabalhar) mais de 25 tipos de ocupações; terem licenças de trabalho canceladas sumariamente; o fechamento de lojas pertencentes a bahá’ís; e o impedimento da juventude bahá’í de frequentar instituições de educação superior.

Direito de crer e de ser

Na esteira de espuma de acusações absolutamente falsas, confissões forjadas e crimes encobertos pelo poder estatal do Irã, as nações do mundo, quase que unanimemente, deploram os esforços do regime dos aiatolás para dominar a tecnologia nuclear e assim evitar suas devastadoras conseqüências, como seu anunciado desejo de varrer Israel do mapa-múndi e quem mais se atrever a lutar por aqueles princípios legais, morais e sagrados entronizados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembléia-Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. É neste contexto que saudamos como extremamente oportuno que no dia 3 de novembro de 2011, o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas – um corpo de 18 especialistas independentes – criticou a não-submissão do Irã ao Tratado Internacional de Direitos Civis e Políticos, assinado e ratificado pelo país.

Antes tarde do que nunca. Mas fatos são fatos. E contra estes é difícil lutar apenas com calhamaços de declarações e documentos produzidos por organismos multilaterais. Por que enquanto estas linhas saem de minha consciência para tomar vida no monitor de meu computador, milhares de pessoas são vítimas da mais odiosa das violações aos direitos humanos: o direito de crer… e de ser… HUMANO.

 

Posts relacionados:

  1. Recaída para a Idade Média?
  2. Sem discriminação pela idade
  3. Cerca de 650 milhões de pessoas vive com algum tipo de deficiência física ou mental no mundo

One Response so far.

  1. Realidade triste essa! Isso me faz pensar que o ser humano não é lá tão humano assim.


ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Anped
  • Observatorio da imprensa

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Carta Maior
  • Meu Advogado
show
 
close
1. Destaque Cidadania: Bem-vindo, ministro Barroso! 2. Cultura: Ainda incipiente, energia eólica avança a passos... http://t.co/x0reIfI2GP