Ocaso de uns, aurora de outros

Há um ano apenas, quem, em sã consciência, poderia imaginar mudanças estruturais tão significativas no destino de governos e de povos como os do Egito, da Tunísia, da Líbia, do Iêmen e da Síria?

As populações dos cinco países mencionados chegam a 149.000.000 de seres humanos. Para efeito comparativo, esses números, frios e sem rostos, equivalem aos habitantes somados de 30 Noruegas ou de 37 Uruguais. Embora forme um contingente populacional impressionante, constatamos quão desolador é o somatório de seu Produto Interno Bruto (PIB), que em 2010 atingiu não mais que o raquítico montante de US$ 426 milhões, inferior ao PIB da Suécia (US$ 458 milhões) que tem uma população de apenas 9.045 mil habitantes. Em números redondos, os países que nos últimos meses “ouviram pés de pombo” em seu solo possuem população total superior a 16 Suécias.

Neste contexto, bem poderíamos atualizar para os dias atuais a frase que Shakespeare colocou na boca do príncipe Hamlet: “Há algo de podre no reino da Dinamarca” para algo como “Há algo de podre, muito podre, na Ordem Mundial prevalecente”.

E as revoluções, aquelas que verdadeiramente importam, continuam se fazendo. A diferença em relação a séculos passados, notadamente os que vão de XV a XX, é que as revoluções do passado aconteciam em meio longos e muito demorados banhos de sangue, em que a vitória significava a anexação de um ou mais países a uma potência maior, com maior poder bélico. Destituía-se do poder a família ou dinastia reinante, condenavam-se à morte e ao exílio as elites políticas vencidas, destruíam-se seus principais marcos arquitetônicos, e além de se escravizar parte das populações, aumentavam-se os impostos a serem pagos pelo populacho aos novos inquilinos do poder.

As revoluções do incipiente século XXI não anexam terras, não escravizam povos, não tornam o campo propício ao aumento de novos impostos. Ocorrem por outros motivos, bem mais nobres e inadiáveis: conquista de direitos humanos básicos, como o direito de eleger os governantes, direito de ter opinião, o direito à livre-expressão. Mas, permeando tudo isso, permanece a longa luta por justiça social.

Característica marcante dos tempos que vivemos é o desmascaramento de regimes ditatoriais, de tiranias consagradas pelo tempo, que já não ousam mais contar com a cumplicidade imoral de nações que há muito se proclamavam como paladinos da liberdade, da justiça e da fraternidade.

Arautas que eram de um mundo livre e amante da paz, os regimes apoiados pelas grandes democracias do Ocidente foram caindo por si sós, tal o elevado grau de putrefação em que se encontravam afundados. Ao contrário do Iraque e do Afeganistão, somente a título de ilustração, as populações do Egito, da Tunísia, da Líbia, do Iêmen e da Síria (é só aguardar mais um pouco) não terão que se defrontar com a política da terra arrasada, com o saque intermitente de seus recursos naturais – como os campos petrolíferos – e com o jugo de forças estrangeiras reivindicando sempre, como é regra, o direito de organizar a vida política, econômica e social de nações às voltas com suas próprias ruínas.

É de todo lamentável que países como o Iraque e o Afeganistão continuem sendo vistos, desde o primeiro tiro a lhes anunciar estado de guerra, como meros campos de experimentação de novas tecnologias bélicas, armamentos apenas existentes devido ao uso desmesurado de recursos naturais e humanos do planeta, geralmente em detrimento à preservação dos melhores interesses da espécie humana, e também devido à fixação de orçamentos militares estratosféricos, e eis que tudo isso vem desaguar em formidável esforço de guerra que somente agora vem apresentar sua salgadíssima fatura: desemprego em massa, instabilidade econômica assombrando nações acostumadas há muito ao sempre ansiado estado de bem-estar social.

À diferença da saga de ‘Guerra nas Estrelas’ (Star Wars, 1977, Steven Spielberg/George Lucas) é que torna-se bem pouco provável que se leve ao palco da realidade mundial alguma sequência que que tenha como título “O Império contra ataca”. Por que, à diferença dos ideais que sempre impeliam Luke Skywalker, o Império que sempre fora embalado pela pujança econômica, literalmente faliu: a dívida pública dos Estados Unidos, que em 11 de setembro de 2001 chegada a US$ 14,71 trilhões, é bastante superior ao volume de seu Produto Interno Bruto que, em dezembro de 2010, não passava de US$ 14,66 trilhões. Figurando como uma dessas ironias da História, o fato é que o Império que desde 1959 submete Cuba a um brutal bloqueio econômico, é o mesmíssimo Império que tem como seu maior credor a China, país de história milenar que ostenta reservas superiores a US$ 3 trilhões.

É também irônico que os países que tanto gritaram – e por tantos decênios – políticas econômicas desumanas a serem ministradas aos habitantes desses coirmãos subdesenvolvidos, são os primeiros a se rebelar contra o uso do opressivo medicamento, antes apresentado como panacéia para todos os males que trafegam entre a pobreza e a miséria.

Ocaso de uns, aurora de outros. Uns abarcam, por motivos diversos, países como Afeganistão, Iraque, Estados Unidos, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha, França e Itália. Outros abarcam países como Egito, Líbia, Síria, Iêmen, Tunísia, Índia, Brasíl e… China.

E, tenho plena convicção, que surgirá do embate entre essas duas realidades emergentes, em não mais que uma dúzia de anos, finalmente, a percepção de que a unidade da humanidade, além de possível, além de constituir anseio de passadas gerações, restará sendo a única alternativa possível à sobrevivência de nossa espécie.

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