CENA INTERNACIONAL

A tragédia humana na dicotomia ‘Nós e Eles’

No tempo em que o mundo não passava de uma fotografia em preto e branco, onde uma pequena parte ostentava riqueza e bem-estar social e sua maior parte apresentava apenas miséria e sofrimento humano em seus mais variados matizes, o processo civilizatório parecia caminhar a contento. Ninguém reclamava de nada. Era como se pudesse ouvir algo como “a justiça nada mais é que dar a cada um o que é seu; no caso, a miséria fica para os miseráveis”.

Porque a história pode ser vista como a eterna luta entre duas posições, geralmente antagônicas e irreconciliáveis: a posição do “Nós” e a posição do “Eles”. Nós, muitos, nada tínhamos e Eles, poucos, tinham tudo. Eles podiam apenas esperar sentados que o fruto de suas aplicações financeiras logo viriam eclipsar todo e qualquer fruto do trabalho humano.

Nós tínhamos que manter a água bem ao nível do nariz para não morrermos afogados e, restava tão somente, que continuássemos a sonhar com outro mundo possível, um lugar em que havendo pão e mel seria o próprio paraíso na Terra.

Eles se autoconcediam o luxo de produzir armamentos, em larga escala, destruindo todo e qualquer recurso humano e material para criar cinturões de defesa no espaço, na terra e no mar, submarinos com ogivas nucleares e escudos antimísseis, tecnologia bélica de ponta, aquela onde quem as dispõe pode aniquilar milhares de vidas em um dia, milhões em um mês e sem sofrer qualquer baixa humana do lado de cá.

Por alguns anos, não mais que um decênio e meio, descobriu-se que o eixo do mundo estava mudando e que as instituições há muito honradas pelo tempo eram tão sólidas quanto icebergs de gelatina. Descoberta após descoberta, qual criança que ainda engatinha, o mundo dito auto-suficiente, dito próspero, dito civilizado foi rapidamente pressionado a concluir aquilo que antes parecia ser de todo impensável:

1 – As nações por mais ricas que sejam não podem ser alimentadas com ações em bolsas de valores nem com bônus dos seus Tesouros Nacionais; as nações por mais pobres que sejam jamais abdicariam do sonho de liberdade, do estado do bem-estar social, mesmo que este sempre recebesse o rótulo de “doce utopia”, “terna loucura” “sumidouro de piegas intenções”;

2 – As nações por mais ricas que sejam não descobriram qualquer meio de se automanter a não ser o de se portar como ave de rapina depredando os recursos naturais, primeiro aqueles dentro de suas fronteiras geográficas, depois os dos elos mais fracos da corrente, as nações por eles empobrecidas ao longo dos séculos; as nações por mais pobres que sejam nunca pensaram em delegar a autodeterminação de seu destino, para terceiros, e ao contrário, sempre desejaram escrever com suas próprias mãos o seu futuro;

3 – As nações por mais ricas que sejam jamais poderiam criar um mundo auto-suficiente, inteiramente imune à pobreza, um mundo indevassável aos miseráveis da Terra e surdo aos seus lamentos, lamentos que irrompem tanto da fome quanto de epidemias; as nações por mais pobres que sejam sempre souberam que sua miséria poderia ser debelada a qualquer momento pelos mais ricos da Terra, devido à imensa facilidade com que mostraram perícia na arte de produzir medicamentos, remédios, antídotos;

4 – As nações por mais ricas que sejam não demonstraram capacidade moral suficiente para guiar suas novas gerações, formadas obviamente por massas de crianças e jovens, mantendo-os todas no círculo vicioso da avareza, materialismo e do sistema egocêntrico, onde tudo gira, revolve, respira e vive em função do indivíduo; as nações por mais pobres que sejam nunca se recusaram a oferecer soluções para problemas muitas vezes inimagináveis, pois são estas mesmas nações que foram formadas por séculos a fio no fogo da solidariedade, na comunhão do pão gerado pelo suor do rosto, seja do escravo às voltas com as chicotadas, sejam dos desempregados e subempregados nas minas de carvão, nas lavouras condenadas pelo agrotóxico e em ambientes absolutamente impróprios para a vida humana;

5 – As nações por mais ricas que sejam não lograram êxito em tornar inesgotáveis recursos naturais escassos, assim como não tornaram viável transformar a água dos mares oceanos em água potável, própria para o consumo humano e animal; as nações por mais pobres que sejam nunca descuidaram da certeza de que existe – sim! – um futuro comum a partilhar e nem mesmo se furtaram ao entendimento luminoso de que ‘aquilo que infelicita a parte infelicita também o todo’;

6 – As nações por mais ricas que sejam não conquistaram o poder de apagar da História da Humanidade os inúmeros experimentos de natureza econômica e social, como a esterilização em massa de grandes contingentes populacionais, a dizimação de tribos indígenas e de grupos étnicos milenares, todos estes apresentados na forma de planos de salvação econômica, planos em que a moeda corrente oferecida pelo devedor nada mais era que a sua própria fome; as nações por mais pobres que sejam entenderam desde o princípio dos tempos que havia um Todo-Ambiente a preservar e não um Meio-Ambiente a ser destruído de forma vil e cruel, objeto apenas de resoluções e documento feitos por organismos nacionais e multinacionais;

7 – As nações por mais ricas que sejam nunca tiveram – e continuarão sem ter – o direito moral e ético de fazer descer goela abaixo de 2/3 da população mundial aquelas suas contumazes políticas econômicas desumanas, em que a vida humana vale menos que um Big Mac na vistosa loja de horrores em que se transformou o cassino global, também chamado banca financeira internacional; as nações por mais pobres que sejam lutam por preservar o senso de dignidade humana, o sentimento de pertencimento a uma mesma espécie humana.

Como escreveu Pablo Neruda (1904-1973), um dos maiores poetas da língua espanhola em nosso século, Nobel de literatura em 1971, glória do Chile e da poesia universal: “Por que não amanhece na Bolívia desde a noite de Guevara? E, ainda continua ali, buscando os assassinos, seu coração assassinado?”

One Response so far.

  1. ramin shams disse:

    Adorei.
    Parabens.
    Escreva sempre.
    abs


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