Existem imagens que falam mais que duas mil palavras. Assim foi quando meus olhos pousaram em Kim Phuc Phan, aquela menina de pouco mais de 9 anos que corria nua pelas ruas de Trangbang, no Vietnã. Suas roupas haviam sido consumidas pelas chamas de napalm. Guardei na memória a data: 8 de junho de 1972. Outro dia de junho tocou fundo o território que tenho em mim chamado humanidade. Era 1989 e no dia 8, o jovem Wang Weilin, de 19 anos, enfrentava uma coluna de tanques do Exército Popular da China. O cenário era Tian-an-men, a Praça da Paz Celestial.

Tenho também imagens belas. Em julho de 1969, Neil Armstrong pisando na superfície lunar e afirmando ser aquele “um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para a humanidade.” Vinte anos depois, novembro de 1989, vejo as picaretas destruindo um muro em Berlim e acabando de uma vez por todas com aquela estranha cicatriz deixada na consciência espiritual da humanidade após a segunda Grande Guerra.

Agora, a memória me obriga a reservar um espaço doloroso: o corpo enfaixado do índio pataxó, Galdino Jesus dos Santos, de 45 anos. Ele estava em Brasília para participar de uma reunião na Procuradoria-Geral da República. A pauta: reclamar por suas terras. Chegou de madrugada na pensão que o hospedava. Ninguém atendeu a porta após suas batidas. Decidiu ali mesmo: dormir ao relento, tendo como abrigo uma prosaica parada de ônibus. Pouco depois, como se fosse algo corriqueiro, atearam fogo sobre ele.

Nas chamas que envolveram 95% do corpo do índio pataxó, observei que mais que seu corpo, as chamas consumiam algumas das mais preciosas virtudes com que um ser humano pode adornar o seu caráter: compaixão, justiça, solidariedade,. E junto a estas, se consumia algo similar a uma virtude, nestes tempos loucos, o senso de humanidade.

As chamas atingiram não apenas Galdino, mas também a sua tribo, os Pataxós e por extensão a humanidade como um todo, uma vez que os povos indígenas desde há muito, como assinalam os antropologos, são patrimônio da humanidade. Sintomático que os quatro assassinos do índio Pataxó sejam provenientes de famílias da classe média, filhos de profissionais liberais, e segundo a imprensa, inclusive, juízes.

O quadro se apresenta como uma fotografia três por quatro, sem retoques, do descaso e do desprezo com que nossa sociedade, governo e povo, vem tratando os povos indígenas em particular, e por extensão, os milhares de excluídos sociais. Tratados como “coisas”, nossos índios perambulam pelo país como almas penadas, mendigos da esperança, objeto do sarcasmo de nossas classes dirigentes, tristes figuras folclóricas que viram seus deuses perecer como a neblina desaparece ante o calor do sol da manhã.

Com suas terras envolvidas em eternas promessas de demarcação, com os posseiros e grandes fazendeiros em seus calcanhares, eles continuam a resistir, acreditando em dias melhores por vir. Conseguiram sensibilizar o Congresso em 1988 e viram seus direitos resgatados no texto da considerada Constituição Cidadã, aquela que foi proclamada com voz trêmula por Ulysses Guimarães.

Menos de dois anos depois, tiveram que se mobilizar novamente: a reforma constitucional parecia ameaçar a grande maioria dos seus direitos e os povos indígenas somente escaparam ilesos porque a famigerada reforma não foi avante. Ou seja, eles foram os únicos beneficiários da revisão que não houve.

Como reza a sabedoria popular: Deus ama as crianças, os loucos e os índios. Se antes os indígenas tinham todos os dias do ano e eram os legítimos proprietários de todas as terras, incluindo as curvas que iam dar nos rios e a extensão dos campos, até onde a vista podia alcançar, hoje estão confiandos em verdadeiros guetos, formados por terras em sua maioria, improdutivas, tendo que travar a luta dos desiguais, entre aqueles que possuem dinheiro, armas e algum prestígio social e aqueles outros unicamente possuem o sentimento de estar travando o bom combate, a luta pela justiça.

Não está muito distante o desabafo do índio guarani, Marçal: “nosso sofrimento começou quando as primeiras caravelas chegaram ao Brasil”. Distante mesmo, o outro desabafo de o índio asteca, relatando o que significou a descoberta da América para eles, os habitantes naturais deste continente: “os espanhóis nos matam por fora, os missionários nos matam por dentro.”

Galdino é o mais bem acabado ornamento esculpido nestes tempos de perplexidade, tempos onde o brilho da justiça foi nublado pela ambição desmesurada, o cheiro da corrupção poluiu os mais nobres sentimentos, a insensibilidade para com os sofredores — os sem terra, sem teto, sem emprego, sem alimentos, sem educação, sem saúde — chegou ao climax antes do tempo.

Apregoam-se vitórias a torto e a direito, pontifica-se nas universidades e academias européias, tenta-se reeditar um nacionalismo futil e enquanto isso, vemos a fábrica de exclusão social funcionando a todo vapor.

Quantos Galdinos mais serão necessários para que despertemos do profundo sono da indiferença em que nos encontramos?

Até quando, continuaremos meros expectadores da cena rural e urbana. Vale lembrar o que Bahá’u’lláh (1817-1892) enunciou em fins do século passado: “o que infelicita a parte, infelicita o todo.” E também que “somos folhas e ramos de uma mesma árvore, gotas de um mesmo mar, estrelas de um mesmo céu.”

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