DESENCADEANDO uma ampla e irrestrita campanha de violência, ódio e culminando com as famosas execuções sumárias de membros da indefesa comunidade bahá’í iraniana, o Aiatolá Khomeini fez aquele país, outrora resplandescente como uma verdadeira jóia no Oriente, mergulhar uma vez mais nos obscuros e tétricos períodos que caracterizaram a Idade Média. Evidenciando-se como uma potência, sendo uma excessão em termos de progresso material, o Irã explode hoje em uma vasta e infindável desintegração moral e social. Atinge seu fundo com o sempre crescente fanatismo religioso, desde há muito característica dos povos orientais. De 1978 a 1982 pouco mudou, ou melhor, quase nada mudou. Revolucionou-se. O que? Um sistema carcomido pelos preconceitos seculares, em que à mulher o chaddor aprisio-nava e à religião a superstição tolhia. A revolução no Irã deveria ter emulado a verdadeira revolução ocorrida naquele mesmo país, em 1844, quando, em Shiráz, alguém que viera a ser conhecido como o Báb (a Porta) se proclamara como Precursor de uma mais recente Manifestação de Deus, Bahá’u’lláh; que por sua vez, fundara a Fé Bahá’í. Trazendo uma mensagem de paz e unidade entre todos os seres humanos e proclamando aos reis e governantes da terra, bem como aos líderes do pensamento humano e aos povos do mundo, que “a terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos”. Ele, Bahá’u’lláh, viera inaugurar “um novo ciclo do poder humano, quando todos os horizontes estão iluminados. . . .” Princípios tão revolucionários e necessários para a segurança e bem-estar do gênero humano, como a harmonia essencial entre a religião, a ciência e a razão e a eliminação de todas as formas de preconceitos, quer sejam de raça, classe, cor ou credo – foram, na segunda metade do século passado, proclamados enfaticamente por Bahá’u’lláh. E foi nesta mesma Shiráz, na qual o Báb anunciou sua vinda, que em 5 de dezembro de 1982, vários membros da Comunidade Bahá’í foram cruelmente assassinados e várias dezenas de bahá’ís aprisionados. Uma única acusação: eram bahá’ís. Sim, porque no Irã é crime ser bahá’í. É crime também acreditar na unidade mundial, é crime acreditar que “o homem e a mulher têm direitos e oportunidades iguais.” Sobre isto, os bahá’ís correm muito perigo, pois se lem-bram das palavras de ‘Abdu’l-Bahá, o Exemplo Perfeito dos ensinamentos bahá’is, que disse: “a humanidade é como um pássaro, uma asa é o homem, e a outra asa, a mulher. . . . um pássaro não poderá alçar vôo se as duas asas não estiverem em equilíbrio!” Gostaria que os que me lêem, soubessem aquilo que o coração não mais pode suportar. Mas tem que suportar. No dia 16 de novembro de 1982, o Sr. Habibulláh Hawjí foi enforcado. O Sr. Yadulláh Siphir Arfá foi executado por um pelotão de fuzilamento e o Sr. Manutchéhr Vafaí foi apunhalado, em sua residência. O assassino deixara o punhal em seu corpo. E dele pendia uma nota explicativa sobre o motivo de seu bárbaro crime: ele era um bahá’í e merecia a morte. No dia 21, cinco bahá’ís foram presos e a eles concedidos 30 minutos para que cada um renegasse sua Fé. Devido à coragem desses bahá’ís, aliás, algo comum entre os bahá’ís – já tão acostumados a serem alvo de violências e crueldades–, três deles receberam da Corte Religiosa de Shiráz a sentença de morte. Os outros dois continuam na prisão aguardando a sua hora. A verdade é a única arma que os bahá’ís possuem para se defender e com ela nunca falta fogo. Isto tem sido evidenciado desde o nascimento da Fé Bahá’í em 1844, tempo suficiente para que aproximadamente 20 mil pessoas fossem martiri-zadas. Assim, sempre tem sido com o alvorecer de quaisquer das religiões mundiais. Olhemos o alvorecer do cristianismo. Olhemos o início do islamismo. Observemos, agora como testemunhas, o destino dos bahá’ís no Irã. São mais de 500 mil pessoas, na “primeira linha”. Para eles não existe a certeza do amanhã. Nem mesmo do próximo instante. Passos apressados à noite, certamente são dos bahá’ís, que se dirigem para a relativa segurança dos seus lares. Barulhos ensurdecedores à noite, tochas acesas, tiros cruzando o ar e impropérios ditos em tons altos e vibrantes, são certamente dos algozes e acusadores. São daqueles que mancham o sagrado nome do Islã com atos que, indubi-tavelmente, fariam o próprio Maomé se envergonhar e exclamar: “Este não me pertence!” Como bahá’í do Brasil e integrante da grande família de Bahá’u’lláh, hoje espalhada em mais de 125 mil localidades do mundo, o que me consola é saber que aquele sangue não tem sido derramado em vão. É saber que, em qualquer parte onde residam bahá’ís, eles devem trabalhar e se esforçar dia e noite para promover a unidade do gênero humano. A religião, acreditam os bahá’ís, deve ser motivo de amor e unidade entre os seres humanos. Crêem, também, na progressividade religiosa: existe apenas um Deus, que de tempos em tempos envia uma nova mensagem para a humanidade. Esta mensagem faz o homem progredir espiritual e materialmente. E assim crêem os bahá’is nos ensinamentos e princípios sagrados de Jesus Cristo, de Buda, de Moisés, de Maomé. A fonte é a mesma e vem revivificar os corações humanos, trazer-lhes paz e felicidade e, notadamente, acender em cada coração a chama do amor de Deus. Que mal há nisso? Por que se deve pagar com a vida o privilégio inigualável de ser um bahá’í? A ONU aprovou inúmeras resoluções repudiando enfaticamente os crimes perpretados contra esta minoria inocente. O Parlamento Europeu e o Conselho da Europa também fizeram o mesmo. Governos soberanos de todo o mundo aprovaram moções de repúdio e solicitaram a rápida cessação de todas essas atrocidades. Será a situação dos bahá’ís, no Irã, a “ponta do iceberg”? Não será tempo de nos olharmos uns aos outros como irmãos e compreendermos que existe um planeta . . . um só povo? No momento em que me dirijo aos leitores do Jornal do Brasil, sei que bahá’ís estão sendo executados, friamente, calculadamente, barbaramente. Crianças ficarão órfãs e mulheres ficarão viúvas. Pergunta-se: onde está a consciência da humanidade? É, acho que o coração não pôde suportar. E gritou.

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