Quando Corumbiara e Eldorado dos Carajás saíam dos telejornais e das primeiras páginas dos grandes veículos da mídia impressa, eis que somos surpreendidos por nova avalanche de violência, a violência nas cidades, onde a vida humana tem sido (mal)tratada com extremo despre-zo, irresponsabilidade, negligência e impunidade exemplares. Primeiro foi a tragédia de Caruaru: 43 mortos na Clínica de Hemodiálise.

Depois, ficamos perplexos com a morte de quase uma centena de idosos – por no mínimo negligência – da Clínica Santa Genoveva, no Rio de Janeiro e agora o Shopping de Osasco explode em pedaços vidas e projetos de vidas. Mais de 40 pessoas que se encontravam em sua praça de alimentação têm um fim trágico com a explosão causada por vazamento de gás em suas tubulações. Momentos de dor e de profunda apreensão nos conduz à inevitáveis reflexões.

E se fosse com a gente? Se precisaRmos de uma transfusão de sangue e nos dirigimos ao Centro de Hemodiálise de nossa cidade e descobrimos que a água lá utilizada está contaminada? E se, pela necessidade de cuidados médicos, transferimos nossos entes queridos para tratamento especializado em uma Clínica Geriátrica, o que esperamos? Contaminação de alimentos, maus tratos, ausência de assistência médica? Quando vamos com nossos filhos comemorar um aniversário em família em um Shopping, o que devemos esperar? Saber se a canalização do gás foi devidamente vistoriada e não corremos perigo?

Os casos acima mencionados mostram que nossa vida pode estar participando de uma grande “roleta russa”: não sabemos quem será a próxima… vítima. É necessário restabelecer o respeito pela vida humana. É indispensável restabelecer a soberania da lei. É urgente localizar as causas que fazem da vida uma aventura perigosa, muito perigosa.

E não demoraremos a concluir que tudo passa pela ausência de justiça. Justiça no campo, justiça nas cidades, justiça na área de saúde, justiça no comércio, justiça nos presídios e por aí vai. Em meados do século passado um sábio persa ensinou que “a mais amada entre todas as coisas é a justiça” e nos fez um alerta de que “não te desvies dela se é que Me desejas”. E a questão assume então um toque de transcendência: ser justo significa estar próximo de Deus. Isto posto, começamos a nos dar conta que a falta de justiça na sociedade é também a falta de Deus na sociedade.

Ou seja, quando perdemos nossa dimensão humana perdemos também nossa dimensão divina, aquela que o Texto Sagrado diz que “fomos criados à sua imagem e semelhança”. Nestes últimos anos do século XX, quando vemos dores e aflições por todos os lados, com o aumento da marginalidade, a imensa legião de famintos e subnutridos, o perigo do uso das drogas, o enorme contingente de crianças vivendo nas ruas, a prostituição infantil e também todos os movimentos reivindicatórios possíveis, dos Sem Terra aos Sem Teto, dos Desempregados aos Aposentados, das Escolas Públicas às Particulares, dos Sindicatos de Trabalhadores aos Patronais… chegamos à triste consta-tação de que é como se cada um de nós fossemos microempresários chamados a fechar seus balanços a prestar contas.

O que fizemos? O que deixamos de fazer? Lucramos ou ficamos no vermelho? Não obstante este quadro tão alarmista, nele podemos ver o clamor da população pela justiça. Uma justiça que não seja tardia e nem também apenas uma quimera a ser perseguida.

A sociedade necessita rever seus conceitos sobre a humanidade, reconhecer os laços que nos unem uns aos outros, entender que “o sofrimento da parte é o sofrimento do todo”. Devemos trabalhar por um mundo no qual possamos sentir no coração as angústias que perpassam as mentes de nossos vizinhos, sentir na pele os efeitos da trágica hemodiálise de Caruaru, chorarmos as lágrimas amargas dos nossos idosos nas Clínicas Santas Genovevas do Brasil, e nos sentir diminuídos em nossa dimensão humana ante os que tiveram suas vidas interrompidas brutalmente no Shopping de Osasco.

Até este dia teremos sido apenas um número a engrossar as estatísticas de um mundo que falha em perceber que Deus não nos abandonou e muito ao contrário, está mais próximo de nós do que podemos imaginar. Falhamos em entender que somos “folhas e ramos de uma mesma árvore, gotas de um mesmo mar, estrelas de um mesmo céu”.

Os ensinamentos bahá’ís são enfáticos ao afirmar a unidade intrínseca de espécie humana. Longe de nos desesperarmos com o quadro atual, que não é muito diferente da realidade do mundo, devemos trabalhar para realizar a grande revolução: a mudança de nós mesmos, de nossas atitudes e visões da vida.

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