A declaração do Papa João Paulo II em mensagem aos bispos reunidos durante o Conselho Episcopal Latinoamericano (CELAM), afirmando que “o crescimento das seitas é motivo de preocupação” e indo além, reunindo em um mesmo grupo narcotráfico, corrupção, evangélicos e pobreza oferece um bom gancho para a reflexão.

Não obstante tantos documentos pontifícios afirmando a vocação de ecumenismo da Igreja, principalmente desde o Concílio Vaticano II, com o Papa João XXIII, podemos entrever nessas afirmações o vírus da verdade religiosa absoluta, aquela verdade que para ser verdade destrói, desune e dilacera o corpo da humanidade naquilo que ela tem de mais profundo e sagrado que é o direito à liberdade de crença, a vocação para o espiritual, o transcendente.

É inegável que nestes anos finais do milênio encontramos uma busca desenfreada por meios para satisfazer a sede de espiritualidade, ou como os teólogos afirmam exaustivamente, a sede de Divindade. Neste contexto, constatamos que os modelos sociais e econômicos, as ideologias ditas salvadoras em várias décadas deste século que finda, refluiram em crescente busca de outros valores. É como se o materialismo tivesse produzido o que tinha que produzir e então, fartos de materialismo, avançamos em busca do transcendente.

O crescimento dos movimentos evangélicos, pentecostais, messiânicos, das vertentes orientais são um prova cabal de que a verdade religiosa poderia ser vista como algo mais para o relativo que para o absoluto. Este crescimento incomoda, sem dúvida, as formas tradicionais de religiosidade. Para um país majoritáriamente católico como o Brasil, o crescimento dos evangélicos traz em seu bojo o elemento perturbador – ou preocupante como afirmou João Paulo II – do “novo” que faz surgir os focos de intolerância religiosa. A mesma intolerância que tem ceifado vidas em nome da fé, da religião, do amor ao próximo. Exemplos? O massacre sistemático dos membros da religião bahá’í no Irã, que apesar de acreditarem na unidade das religiões são forçados em nome da mesma verdade única a abandonarem sua crença ou a perderem sua vida. Outro exemplo? O sistema policialesco gerado pelo partido Taleban no Afeganistão, que em nome da intolerância para com a igualdade entre homens e mulheres ameaça observadores internacionais sob a mira das metralhadoras kalashnikhov. Isto, sem mencionarmos a carnificina na Argélia ou a linha de altos e baixos com que se digladiam décadas a fio árabes muçulmanos e judeus israelenses.

Seria oportuno nos questionar, sobre a possível reação de um popular de Pequim ou de Shangai à preocupação do Papa com o “crescimento das seitas”. Fica subentendido que ele na condição de dirigente máximo da cristandade católica considera o Catolicismo Romano como único e legítimo representante do cristianismo e as demais vertentes religiosas e ou espiritualistas estariam abrigadas sob o conceito-ônibus de “seitas”, um termo tão depreciativo que a própria CNBB, em entrevista à revista evangélica “Vinde”, informou que a Igreja Católica buscava evitar o uso desta expressão “devido à sua conotação pejorativa”. Para aquele chinês, certamente seria razoável entender que o catolicismo seria fonte de preocupação, uma vez que a religiosidade na Ásia assume contorno muito mais definido da mandala óctupla e da imagem do Buda do que a da imagem da cruz e de Jesus Cristo crucificado. No mínimo, algo em que pensar.

É portanto, temerário observar que, em um ambiente francamente favorável ao crescimento das ditas seitas que João Paulo II não se intimida em denunciar, o rastilho de polvora que por um lado dinamita as boas intenções entre as diversas denominações religiosas que buscam através da prática de seus ensinamentos isolar aqueles que se sentem detentores únicos da verdade religiosa e por outro lado, denuncia a sinceridade nos chamados esforços ecumênicos promovidos pela Igreja Católica.

É oportuno refletirmos sobre o apostolado de 19 anos de João Paulo II. Um Papa que vem se notabilizando cada vez mais por sua abnegação em rever erros históricos sacramentados pelo establishment do Vaticano, como foi o caso da absolvição com quatro séculos de atraso, é verdade, do cientista Galileu-Galilei e sua determinação férrea visando elevar a qualidade de vida das populações carentes, como por exemplo, as frequentes denúncias da indiferença dos países desenvolvidos em relação a grande maioria dos países subdesenvolvidos, que passam por situações dpeloráveis de pobreza e até de miséria absoluta. Em suma, um líder, em uma época tão marcada pela ausência de verdadeiros líderes.

Em sua condição de líderes máximos, seja o Papa João Paulo II ou os expoentes das demais religiões mundiais, o mínimo que se espera é que sejam os semeadores do amor, mais que da tolerância, da unidade, mais que da reunião, entre todos os que buscam Deus em suas vidas. Um Deus que a todos receba com infinita bondade, compaixão e compreensão.

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