Mas, o que é ter uma experiência mística? Significa criar um canal com o Espírito e com o Sagrado que permeia e está em tudo e em todos. Mas, como isso ocorre? Primeiro temos que renunciar ao nosso status quo em que nos encontramos, abdicar de referenciais com que nos vemos e vemos ao mundo. Assim nossa tranquilidade é sacudida pelos sopros do Espírito, que são a um só tempo, criativos e regenerativos: renova dentro de nós a Chama Sagrada, a Sede da Presença da Antiga Beleza: Deus. As religiões têm nos símbolos evocativos da divindade muito da essência espiritual de sua mensagem. Para os hindus a flor de lótus, para os judeus a estrela de Davi, com cinco pontas; para os budistas a mandala óctupla; para os zoroastrianos, uma chama de fogo, para os cristãos a cruz e o peixe, para os muçulmanos a lua no quarto minguante, para os bahá’ís, a estrela de nove pontas e o Nome Mais Sagrado formado com as consoantes B e H em árabe. Como todas despertam a espiritualidade humana, talvez um símbolo que pudesse ser comum a todas fosse a do beija-flor: ele consegue percorrer oitocentos quilômetros sem pouso, bate asas noventa vezes por segundo e… quando os cientistas examinaram sua estrutura descobriram que 60% do seu peso é representado pelo coração! Temos então, como disse alguém “um coração alado.” O processo de desenvolvimento espiritual tem muito a ver com aquele dia em que, caminhando pelas praias da Galiléia, Cristo, vendo Pedro atirar sua rede ao mar, disse: “Segue-Me…” E Pedro seguiu. Não pediu um tempo para pensar. Apenas seguiu. Deixou atrás de sí sua realidade, simbolizada pelo barco e pela rede de pesca.

Destaque-se que aqueles primeiros três anos do cristianismo, sempre que alguém seguia a Cristo, não apenas renunciava ao judaismo, como era candidato certo às perseguições, às arenas dos leões no Coliseu Romano e finalmente ao martírio. O que os milhares de Pedros e Estevãos recebiam em troca? A satisfação espiritual. O que alguns chamam de paraíso, nirvana, iluminação interior. A contemplação mesmo que fugidia do Bem-Amado. Inspirados pelo Objeto da Busca, em todas as religiões existiram aqueles seguidores extremamente devotados à Busca do Bem-Amado: os iogues (Hinduísmo), os cabalistas ((Judaísmo), os dervixes (Zoroastrianismo), os monges (Cristianismo) e os sufís (Islamismo). Mas, hoje, vinte séculos depois, a experiência mística exige o componente ação. Fundamenta-se em uma fé real que, como afirmou o sábio persa ‘Abdu’l-Bahá, significa “acreditar com o coração, professar com os lábios e demonstrar com os atos.”

O caminho místico precisa então ser trilhado com pés práticos. Nessa categoria, encontramos exemplos vibrantes neste século: ‘Abdu’l-Bahá, Mahatma Gandhi, Albert Schweitzer, Martin Luther King, Rahmat Muhájir, Madre Teresa de Calcutá, dentre outros. E ficam na poeira da história os ascetas e os contemplativos que isolados do mundo, buscam restabelecer a conexão com o Todo. Observamos também um grande processo espiritual em movimento, um processo em que, segundo Leonardo Boff “as grandes mitologias, os grandes sonhos e as grandes vertentes religiosas se reanimam” e nesse contexto o papel do místico, na ante-sala do terceiro milênio não é outro que desvendar o Espírito que se oculta nesses sinais do mundo. É igualmente ressuscitar o Deus Vivo nos corações humanos e, embora testemunhas da queda do Império atual, fortemente enraízado na injustiça e erigido em detrimento de uma espiritualidade autêntica, continue sonhando com o estabelecimento do Reino e lutando pela emergência de uma Nova Ordem Mundial. Afinal a história demonstra que muitos dos mais proeminentes acontecimentos tiveram seu início na forma etérea e muitas vezes lúdica dos sonhos, esperanças, utopias e de expressões da “imaginação criadora”.

A visão espiritual da vida e do mundo é imprescindível, pois temos como irrecorrível o fato de que a Busca do sagrado permeia estes anos finais do milênio. – Não acredito em Deus. Eu o vejo. Esta é a declaração peremptória de Carl-Gustav Jung (1875-1961), que desenvolveu o interesse pela metafísica, tendo como ponto de partida a observação de que os métodos de Freud não funcionavam com pacientes com idade superior a 35 anos. Jung afirmou então, no seu Modern Man in Search of a Soul, que “pode-se dizer, com segurança, que cada um desses pacientes adoeceu porque havia perdido aquilo que as religiões vivas de todas as épocas têm dado aos seus seguidores, e nenhum paciente foi realmente curado sem que antes tivesse recuperado sua visão religiosa.” Os últimos anos da vida de Jung foram dedicados a uma ampla reflexão sobre o homo religiosus ou a influência do sobrenatural na vida do homem, é quando ele afirma que Deus é uma experiência primordial na vida humana e desde um tempo imemorial o homem se esforça exaustivamente para explicar e expressar essa experiência única, para integrá-la, seja como dogma ou interpretação ou mesmo negá-la. Entende que as religiões se acham tão próximas da alma humana, como tudo que elas são e exprimem.

O ponto é que, tanto Freud quanto Jung, como bons místicos de mãos práticas, trabalharam instrumentos que levantassem nossas âncoras e com estas, vinha à tona nosso eu mais profundo, mais sincero, com suas glórias e fracassos, genialidade e mediocridade, mas um eu interior que supoear a tudo que rescende a superficialidade. Essa supeficialidade com que ao vermos pessoas felizes, chegamos a esta conclusão pela cor e o bronzeado da pele, pelo que está alí na superfície do corpo. Mas quando queremos nos auto-definir, sentimos que precisamos olhar para dentro de nós e o que vemos? Pâncreas, fígado, sangue jorrando, algo muito próximo da definição do vocábulo caos. Quando escutamos a palavra anjo… que pensamentos nos vêm à mente? Um ser com um par de asas imensas, trajando túnica alvíssima ou azul-celeste e acima da cabeça, uma auréola? Ou um Ser alado salvando alguém em perigo iminente, caindo de um precípicio ou prestes a ser atropelado? Ou, seria o dono daquela Voz Interior que nos induz a agir desta ou daquela forma? Encontramos pessoas que guardam a imagem do anjo no meio de uma multidão de anjos que em um coral repetem interminavelmente “Santo! Santo! Santo! É o Senhor Todo-Poderoso…” Essas e outras imagens, despidas de real significado espiritual, fornecem um sentido amplo à súplica do poeta-piloto francês Saint-Exupéry “Aparece-me Senhor , porque é árido perder o gosto de Deus!”.

Quando perdemos o gosto da divindade resvalamos para o campo dos símbolos inanimados, para o deserto da alma e para esta ante-sala da espera de Deus que é a solidão humana. Quando isso ocorre, somos convocados a mergulhar nos Textos Sagrados e daí, aspirar à liberdade de pensar na presença de Deus. É o estágio da meditaçäo. Mestre Eckhart, o teólogo dominicano refletia que a alma em sua forma mais pura assemelhá-se a Deus, “mas é o anjo que nos fornece uma melhor idéia Dele. Isso é tudo o que um anjo é: uma idéia de Deus.” É bem verdade que essas imagens que afluem à nossa mente ante o vocábulo anjo denotam o meio-ambiente espiritual em que vivemos e tornam evidentes os referenciais que temos para as realidades espirituais. Mostram o quão acostumados estamos com a superficialidade dos referenciais e símbolos místicos. Buscamos em um anjo a figura do protetor em um mundo que nos torna cada vez mais desprotegidos, inseguros, pois passamos tempo demais rotulando e catalogando as verdades espirituais como meras fantasias, fazendo-nos perder a dimensão maior do mundo espiritual que é em uma primeira análise, evocadora de amor, ternura, paz, perdão, misericórdia. Pensando com o intelecto que a tudo avalia, perscruta, mensura – somos impelidos a pensar com o coração que sente, pulsa, acelera, desacelera – se desejarmos resgatar nosso eu interior. Como refletiu Thomas Merton, a maior distância é aquele existente entre a cabeça e o coração. A mudança desses referenciais pode parecer radical a uma primeira vista, mas estando em jogo nossa saúde e felicidade interior supera em muito quaisquer esforços nesse sentido: precisamos fechar os olhos para ver melhor. Fechar os olhos exteriores para abrir nossos olhos interiores, alcançando aquela Visão de que nos falam os sábios e místicos de todos os tempos. E, compreender aquelas poucas palavras rabiscadas por Francisco de Assis em um bilhete dirigido a Clara: “Clara, precisas aprender a amar sem os olhos.”

Ao fim da década de 1890, o grande santo indiano, Sri Ramakrishna, foi perguntado: .

– Acredita em Deus, senhor?

– Sim – ele respondeu.

– Pode prová-lo, senhor?.

– Sim.

– Como?

– Eu o vejo exatamente como vejo você aqui, apenas mais intensamente.

Na maioria das vezes procuramos ver o espiritual com o mesmo instrumental com que vemos e avaliamos a matéria e, então esbarramos na questão levantada por Isaac D’Israeli “quantos anjos podem dançar na ponta de uma agulha muito fina, sem se acotovelarem?” Com o acelerado desenvolvimento do raciocínio, as grandes descobertas e novas fontes de energia, enfim, quando o homem houver dominado os ventos e as marés, ter aproveitado a força da gravidade, segundo o jesuíta, antropólogo, paleontólogo e teólogo francês Teilhard Chardin “usaremos para Deus as energias do amor e, então, pela segunda vez na história do mundo, o homem terá descoberto o FOGO.”

Martin Luther King (1929-1968) observou que a vida humana possui três dimensões: comprimento, largura e altura e que “a extensão da vida, o seu comprimento é o caminho interior de cada homem em busca de seus propósitos… a largura é a procura do bem-estar do próximo e a altura é a subida para Deus.” E o que seria o Sagrado, senão a verticalização de Deus no coração da criatura, estando sua profundidade ocupando o vazio da existência humana? E, como relembra um profeta do Antigo Testamento, o pior castigo que Deus pode dar a um povo é dar-lhe sede de Deus e não prover os meios para saciá-la.

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Observatório da Imprensa
  • Vale

ESPAÇO PUBLICITÁRIO

  • Carta Maior
  • Meu Advogado