A questão do menor abandonado no Brasil se agrava crescentemente. No triênio 1990/92, foram assassinados 4.611 meninos, mais da metade por arma de fogo, perfazendo um média de 4,2 assassinatos de menores por dia. Uma guerra silenciosa continua ceifando vidas. A impunidade permanece intocável. Outros fatos que sobressaem dessas estatísticas: 82% são crianças negras e 23% desse contingente são meninas. A faixa etária das vítimas: 15 a 17 anos. Transmitidas essas informações ao leitor, pergunto: não é um quadro por demais alarmante? O que a sociedade civil poderia fazer para deter essa longa noite do terror, abraçando essa multidão de meninas e meninos de rua? Os algozes são também revelados: interesses econômicos e políticos financiando grupos de extermínio formados por policiais, ex-policiais, traficantes e criminosos em geral.

Não faz muito tempo um grupo de extermínio de menores de Vitória, Espírito Santo lançou um ultimato ao Governador: “Ou o Governador tira essas crianças da rua, ou cada dia vamos matar uma criança para o Governador tomar uma providência.” A questão dos meninos de rua não é uma questão de polícia, mas antes uma questão social, em toda a sua agudeza. As crianças que perambulam pelas ruas, muitas vezes é a lamentável verdade, marionetes nas mãos de seus pais, como fantoches que rendem lucros ao explorar a bondade e a solidariedade alheia, são retiradas das ruas pelos Comissários de Menores ou pelas “blitz” da Polícia e devem ter algum lugar digno aonde possam serem reabilitadas ao convívio social. Não podem ser tratadas como lixo humano, pelo simples fato de que um ser humano não é lixo e não pode ser confinado ou incinerado em algum depósito humano.

Na Favela Malvina, na grande Salvador existe uma favela com dez mil crianças sem uma única escola ou posto de saúde ou guarita policial. É nesse ambiente que surge um quadro dantesco de prostituição e drogas. Já em Recife, cerca de mil meninas estão vivendo literalmente nas ruas, das quais se estima que 50% sobrevivem de prostituição. Idades: 7 a 18 anos. Na Baixada Fluminense e na Cidade do Rio de Janeiro, a extorsão dos frutos de roubos de menores por policiais é prática corriqueira. O quadro das crueldades praticadas contra menores é devastador. Todos este fatos me foram repassados por Rita Camata, que presidiu uma recente CPI sobre o “Extermínio de Crianças e Adolescentes no Brasil.”

No âmago da questão encontramos a insidiosa e má distribuição de renda no país. Sobre este ponto, gostaria de me socorrer com um texto que o Rogério, ele próprio um Menino de Rua de Curitiba me entregou: “Para vocês vida bela/Para nós favela Para vocês carro do ano/Para nós resto de pano Para vocês luxo/Para nós lixo Para vocês escola/Para nós esmola Para vocês ir à lua/Para nós morrer na rua Para vocês coca-cola/Para nós cheirar cola Para vocês avião/Para nós camburão Para vocês academia/Para nós delegacia Para vocês piscina/Para nós chacina Para vocês compaixão/Para nós organização Para vocês imobiliária/Para nós reforma agrária Para vocês tá bom, felicidade/Para nós… igualdade!” Embora no estilo dos textos descartáveis e carregados de piedosa intenção, nele encontramos a dura realidade a nos dizer que é um texto lúcido e realista entre o “nosso mundo” e o “mundo deles”. Somente encontramos alguma similitude nas rimas de cada verso, as realidades antagônicas espelham a mesma face de um único Brasil.

A hipocrisia social e a vaidade acumulada por nossa sociedade muitas vezes nos cegam e nos impedem de contemplar nestes rostos anônimos que perambulam nas ruas, pessoas como nós: cidadãos de um mesmo país. O resgate da cidadania passa pelo fortalecimento do tecido social. Como bem afirmou a escritora Bahíyyih Rabbani em seu “Prescrição para a Vida”: “… devemos ser como o cavaleiro que conduz o cavalo e não o contrário, sermos por ele conduzido…”. É o que vem ocorrendo: deixamos nossa indiferença com a dor do próximo atingir um nível muito alto e perdemos nossa maior perspectiva: a humana. Mas, enquanto houverem pessoas de boa índole, ainda há tempo para resgatá-la. E decidir e agir. Não há meio-temo.

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