– DEIXE que vou dar um jeitinho.

Quantas vezes ouvimos esta frase mágica em nosso cotidiano! O jeitinho, em questão, não é outro senão aquele que buscamos para contornar algum imperativo legal, ou mesmo de ordem moral. De tão assimilado em nossa sociedade, já deixamos transparecer em outros países essa nossa característica de apelarmos, nas horas difíceis, para o famoso jeitinho brasileiro.

Ao estacionar o carro em local proibido, ao furar a fila em algum banco ou na telefônica, ou mesmo para adquirir um emprego sem passar por todas as formalidades previamente anunciadas, eis que surge o jeitinho.

Aparentemente inocente, simpático até, a forma de solicitar o jeitinho varia de pessoa para pessoa e de autoridade para autoridade; mas, em todos os casos, a essência é a mesma: burlar o estabelecido, passar por cima da lei, auferir privilégios e benefícios.

O bordão de Boris Casoy para “passarmos o Brasil a limpo” somente terá efeito se nos detivermos sobre as causas e a prevenção de nossa conduta como cidadãos, no respeito ao dispositivo legal de que a lei é para todos e a ela todos devem se submeter.

Fonte precípua de corrupção, elemento de desagregação do conceito de cidadania, crescemos com uma visão deturpada da lei. É o momento onde a Lei da Selva, que é a do mais forte, e também a Lei do Gérson de sempre querer levar vantagem, toma a dianteira e solidifica o sentimento de que a lei deve ser para os outros, não para nós mesmos; e que a lei somente deve ser invocada se em benefício próprio – em contraposição com o benefício da sociedade como um todo.

Em 25 de agosto de 1992, ao proferir uma palestra para os formandos do curso promovido em Natal pela Associação dos Diplomados da Escola Superiror de Guerra (ADESG), abordei este tema. O título de minha palestra era Ética na Política. Naquela tarde, o senador Almir Lando lia o relatório da CPI, da qual o Deputado Benito Gama era o presidente, com cobertura televisiva em cadeia nacional.

Uma das conclusões a que cheguei era a de que o ensino básico precisava passar por uma completa reformulação. Em minha visão, tão importante quanto uma criança aprender o alfabeto e o sistema numérico, deveria ser, paralelamente, ensiná-la com exemplos práticos o significado de princípios morais e éticos como honestidade, veracidade, fidedignidade, acatamento às leis.

Natural, que os adultos pudessem exemplificar tais pressupostos morais. No entanto, é impossível visualizar uma nação próspera, fraterna e justa, sem que o fortalecimento desses aspectos comezinhos, condizentes com a formação de um caráter nobre, estejam firmemente enraízados.

Uma sociedade áurea não será construída com indivíduos de chumbo. Mais do que nunca, essa afirmação mereceria uma reflexão profunda dos pais e educadores e, também, daqueles que são formadores de opinião em suas diversas áreas de abrangência.

Mas, como jogar luz sobre ética e moral em um país tão dilacerado pelo mau-caratismo, onde vemos nos telejornais “a vida como ela é” a nos convidar como meros expectadores e, com o tempo, a considerar a situação atual como absolutamente normal? É o momento de questionar os valores morais nas pautas dos telejornais, as mensagens, explícitas ou subliminares, que a dramaturgia televisiva nos serve a cada noite.

Não se trata de censura, trata-se de posicionamento. Existe um bem maior a ser preservado e que diz respeito ao futuro da nação: o que estamos fomentando nas mentes das crianças colabora com a construção de um novo Brasil?

Nos Estados Unidos, li no The New York Times, que as próprias emissoras de televisão se reúnem para adotar um código de ética. O primeiro fruto foi o de que cada programa a ser exibido na telinha doméstica passará a ter uma espécie de certificado, não de censura, mas de advertência aos pais sobre a idade recomendada para sua audiência.

É um passo inicial, nada mais que isso, mas um grande passo na ótica de uma educação moral. É bem verdade que, não faz muitos anos, tínhamos no Brasil tais certificados, estes de censura: “cenas de sexo explícito”, “violência excessiva” e “violência moderada”. Existirá algo mais patético do que o adjetivo “moderado” seguindo o substantivo “violência”?

Não precisamos de uma excelente memória, uma vez que os enredos das novelas se repetem à exaustão, para constatar que os personagens que possuem algum senso moral alcançam pouco IBOPE em detrimento de outros não tão éticos assim, que, em sua maioria, tornam-se personagens símbolos da vida nacional. Odete Reutmann ou o médico Felipe Barreto, os mais recentes, exemplificam essa crua afirmação. E que fim levou o Beija-Flor, aquele personagem simpático e que era ridicularizado por ser honesto?

A maior tragédia de um homem é aquilo que morre dentro dele, enquanto ainda está vivo. E lamentavelmente o que morre primeiro são os seus sentimentos mais tenros, aqueles que remontam à sua infância. Saint-Exupéry, como grande humanista que foi, certa vez assim se autodefiniu: “Sou de minha infância como se é de um país.”

Nesta era da informação global, uma época predita por Daniel como sendo um tempo “em que o conhecimento encheria a terra assim como as águas enchem o mar”, de Gramsci, e MacLuhan, os meios de comunicação em massa têm uma responsabilidade que transcende os simples números do ibope. Uma responsabilidade com as novas gerações. Algo assim inescapável.

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