O Brasil, na condição de 3ª maior economia agrícola do mundo, enfrenta uma contradição paralisante: é também um dos maiores bolsões de miséria do Hemisfério Ocidental. Se as características do IPEA estiverem corretas, temos no país o equivalente, em números populacionais, nada menos que 10 Uruguais ou 5 Suíças. Ou seja, 32 milhões de brasileiros e brasileiras, ou 1/5 de nossa população, passam fome. Elevar a qualidade de vida passa a ser um formidável tarefa que nos induz a repensar aonde foi que erramos: se exportamos alimentos para o resto do planeta, por que aqui tantos milhões de pessoas passam fome?

Um indício preliminar seria repensar as nossas estruturas econômicas e sociais , o modelo de desenvolvimento. A bandeira da distribuição eqüitativa de renda deixou de ser o fino charme de ideologias para se constituir na mais indispensável das reivindicações desse multidão de gente que estão reunidos sob o conceito cruel de “excluídos sociais”. Sem uma rápida alteração nos mecanismos de distribuição de rendas, sempre ao amparo da lei, continuaremos a endossar o que de pior pode existir em busca de algo tão antigo quanto a própria existência humana: a sobrevivência física.

Não podemos reeditar no Brasil o odioso sistema de castas tão comum no sub-continente Indiano. Adotado há algumas décadas na Europa e na América do Norte, a participação dos empregados nos lucros das empresas, é uma antiga aspiração de todos os que residem nos chamados países “em desenvolvimento”, ou seja, nem são subdesenvolvidos e nem muito menos, desenvolvidos – ficamos ali no meio, como em um purgatório. O ar puro que o mercado pode ter não será de outra fonte que não a da satisfação do empregado em produzir bens e serviços, em sentir que o sucesso da empresa é seu próprio sucesso. Acredito que nenhum empregado gostaria de sentir que está vendendo a sua vida por dinheiro, mas antes, que está enobrecendo sua vida através do trabalho.

A Casa Universal de Justiça, tem enfatizado que a agricultura será “a economia do futuro” e que “o agricultor é o principal produtor de riquezas de uma Nação”. Decorrente da força que este conceito abarca, somos levados a concluir que uma atenção toda especial e perseverante deveria ser dada àqueles que trabalham na agricultura muito mais que industrialização sem que um e outro sejam excludentes. No entanto essa constatação, simples como são todas as verdades elementares, parece passar despercebida das classes dirigentes. É como se tivéssemos dificuldade em compreender que ao alocarmos capital na ciranda financeira em detrimento da produção, agrícola, por exemplo, frustraria a contrapartida de assegurar os meios à sobrevivência física da Nação. Com efeito, é inconcebível imaginar que CDBs, RDBs, LTNs, e outros papéis do mercado financeiro substituam eficazmente o significado de feijão, arroz, soja, milho para a sobrevivência da população. O principal pilar de qualquer economia está na agricultura e medidas efetivas deveriam ser tomadas para favorecer investimentos nessa área. É nesse contexto que podemos ver com atento que ações governamentais visando superar nossos conhecidos cenários de secas crônicas e mesmo a retomada de projetos como a ferrovia Norte-Sul, mal afamada não por seus objetivos maiores, mas antes pela corrupção com que foram efetuadas as concorrências, passam a sinalizar para uma emergente preocupação com o social, em toda a sua extensão. Outro fator que ensejaria uma reflexão diz respeito ao fato de que, como prenunciou Bahá’u’lláh (1817-1892), o “sofrimento da parte é o sofrimento do todo”. Ou seja: não teremos uma economia saudável enquanto persistirem os cruéis mecanismos que infelicitam parte preponderante da população. Neste caso, é imoral que em um país que se firma como a terceira maior economia do planeta, tenha tão imenso contingente de pessoas passando fome e também que, ao favorecermos um modelo de exportador de alimentos, sejamos também socorridos por inúmeras organizações não governamentais (ONGs) do exterior a nos enviar alimentos!

Mudanças estruturais são inadiáveis e não importa o que digam os nossos filósofos e teóricos econômicos. Sem uma solidariedade viva, constituída pela compreensão de que é aético reclinar a cabeça no travesseiro quando, ao nosso lado pessoas morrem à míngua, por inanição, vítimas que são de um sistema impiedoso que, economicamente, recria no Brasil o sistema cruel das castas, separando os que possuem muito dos que nada possuem, é difícil pensar na viabilidade do país. Quanto a este aspecto, Herbert de Souza, o Betinho, conduz em boa hora a segundo fase da Campanha Contra a Fome e Pela Cidadania, que busca tratar das causas e identifica, com muita correção, a questão do emprego.

Se fossemos um povo indolente e avesso ao trabalho como muitos querem nos fazer acreditar, não seríamos este grande celeiro agrícola que os números evidenciam e este fato, até posterior contestação, é uma credencial para o povo que dobra quarteirões em filas na busca de empregos que, quando muito, oferecem um salário mínimo – por sinal um dos menores do Terceiro Mundo.

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