Uma mulher descansa os braços na cadeira negra, ladeada por dois policiais sonolentos. Seus olhos estão no chão e o peso da cabeça parece-lhe ser insuportável. Ali, naquela cadeira, seu destino escorre entre os dedos. Trata-se de Mariluce que há alguns anos passados teve o despautério de violar a Lei Maior: a ninguém é dado o direito de retirar a vida de outrem. Fui convocado para atuar no corpo de jurados desta pauta de agosto. Com outros seis, formaremos o Conselho de Sentença e segundo bem afirmam os advogados de defesa e acusação (promotor público), seremos os Juízes de Fato. Uma Instituição – a do Júri Popular – que remonta à Idade Média, que merece crédito pela nobreza de sua função: proteger a sociedade, livrando-a dos que não têm condição de um convívio saudável. Aqui estamos em busca da verdade.

Os autos do processo dão margem às mais diferentes concepções do paradeiro da verdade. E me vêm à mente a pergunta colocada por Pilatos ao Orador da Montanha: “- Mestre… o que é a Verdade?” E Cristo deu o silêncio como resposta. Um silêncio que atravessa os milênios. Enquanto faço estas ponderações, observo as condições em que se dera o homicídio. A acusada estava em seu bar, embalada pela brisa da Redinha em preamar, quando a vítima adentra e observa o jogo de cartas na mesa tosca. Os gracejos, inevitáveis, formam parte das rodas de amigos pescadores da Redinha. Ela ouve da vítima os gracejos que sempre ouvira, nem mais, nem menos. Atravessa a rua e volta de sua casa armada com a “arma branca”, o “objeto cortante”, um “cordeirinho”, por uma das testemunhas arroladas.

O Promotor, brilhante, eloqüente como era de se esperar, faz com maestria seu papel de acusador. Uma mente arguta, nos encaminha pelos autos, com a familiaridade quem já participou de uma centena de júris e cônscio de que muitas Mariluces já desfilaram em suas linhas de argumentação. Erudito sem ser pedante. A defesa não encontra nada em que se apoiar. Ela que precisaria daquele ponto de apoio para mover o mundo, tal qual o sábio Copérnico, tem que literalmente apelar para a compaixão e a bondade dos jurados. Neste momento, a acusada fita o teto, como a esperar alguma clemência. Talvez uma clemência que não virá e os policiais que a guarnecem demonstram o cansaço da posição estática e escuto, atentamente, a réplica do Promotor a nos admoestar a fazermos justiça, mesmo que “sendo o crime um fato humano, o mesmo é um fato humano, porém, punível!”

Faz bem o seu trabalho esse Promotor e demonstra ter aprendido com Hiering em sua “Luta Pela Justiça”, que seu trabalho é árduo, mas imprescindível para a vida em sociedade. E sou solidário com ele em sua tese. Sentindo esta tendência por uma das teses, me esforço ao máximo para ser justo. Um desafio tão pesado quanto o silêncio do Mestre sobre o significado da Verdade. O que é justiça? Não seria desejar para os outros o que desejamos para nós mesmos? Mas, e neste caso em julgamento: teria Mariluce desejado para ela o destino que selou a sorte de João Batista? Não seria dar a cada um o que é seu? Mas, nesse caso poderia se cometer o equívoco de dar a miséria ao miserável e a riqueza ao rico? Não, sinto que somente através do choque das opiniões contrárias, quais pedras que se atritam, poderá, enfim, surgir a faísca da luz e a verdade tem muito a ver com luz, claridade!

E assim, começo uma outra meditação sobre a natureza humana, que, acredito convictamente, não é má por natureza, antes é boníssima, por natureza: não fomos criados à imagem e semelhança de Deus! E me detenho no olhar perdido daquela que se senta na cadeira fatídica ou desgraçada cadeira como afirmaria dramaticamente a sua advogada constituída. Não lamento pelo seu destino após este julgamento. Lamento pela ordem jurídica que não será justa com você. Você não será reabilitada ao convívio social após algum tempo na Penitenciária. As nossas penitenciárias não são os instrumentos ideais para tal reeducação social como nos ensinam os livros de Direito. Antes, são as Universidades do Crime.

Mas, sei também, que, como ensinou nas primeiras décadas deste século o sábio persa ‘Abdu’l-Bahá: “A única prisão é a prisão do ego… quando o homem se libertar desta prisão, alcançará então a verdadeira liberdade!” E penso, qual a utilidade da filosofia àqueles que não receberam a educação básica? Terminam os debates e vamos à Sala Secreta. A Voz da Sociedade será ouvida por Mariluce em sua cadeira, olhar distante, perdido e em busca de si mesma.

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