Foi convivendo com a sociedade carioca durante quase dez anos que comecei a refletir sobre a contradição paralisante que formam as grandes metrópoles. Por um lado, encontramos a concentração ostensiva dos bens de consumo e em especial daqueles que chamamos “supérfluos” e do outro, a extrema pobreza a alimentar o crescimento da violência e da busca, com ou sem limites éticos ou morais, de meios para a sobrevivência física.

No primeiro plano, encontramos os abastados socialmente, aqueles que desfrutam de tudo o que nossa sociedade de consumo pode oferecer, desde as tecnologias recém-formuladas nos Tigres Asiáticos, como o Japão e Singapura na vanguarda, até os modismos mais caros e alienantes, com o norte da América e da Europa na ponta. Para estes, o céu tem sido o limite; coberturas na Avenida Atlântica e modernos BMW e Mercedes nas garagens. Para manter a opulência e tornar o contraste ainda mais evidente, encontramos um grande número de serviçais, do chofer uniformizado aos seguranças familiares.

No segundo plano, encontramos os morros do Boréu, Santa Marta e prolífera Rocinha, sem antes passarmos pela Mangueira e Santa Tereza, e neles a feérica luta por condições básicas de saneamento, posto de saúde e principalmente segurança para suas extensas populações que vivem na maioria ou desempregados e subempregados ou simplesmente a serviço de todas as formas de ilícitos penais – grupos pró-seqüestros, redes de narcotraficantes e até funcionários do aparentemente inocente “jogo do bicho”.

Se na Nossa Senhora de Copacabana, os jovens até bem pouco exibiam seus vistosos e caros tênis Nike e Reebok, nas favelas que dominam os céus cariocas, encontramos o desespero, a dor e a luta dos que não se deixam vender na busca de um lugar ao sol. Se para os abastados a liberdade é cercada por grades, qual presídios domiciliares, nas favelas, a liberdade é tolhida pelas quatro paredes dos barracos, refúgios improvisados das “balas e projéteis perdidos”. O cenário de Cidade de Deus ainda formam no inconsciente coletivo um quadro desolador de revolta sufocada e do abuso de poder em toda sua devastação.

E então, nas conversas da Fundação Getúlio Vargas e dos Centros de Estudos Sociais surge a inquietante pergunta, que a todos cala e aterroriza: – E se a Rocinha descer o morro? Na pergunta, nada mais que o temor que a luta de classes se generalize e a aparente trégua social ferva em um caldeirão de violência de incerta previsão quanto aos seus resultados mais imediatos. A Rocinha representa então a ponta do iceberg social brasileiro e por conseguinte, de todas as nações que formam o chamado Terceiro Mundo.

Significa que os que não têm podem, a qualquer tempo, reivindicar, na força, o que julgam ser seu e que se não têm os meios elementares de sobrevivência, acreditam ser resultado de seculares formas de má e insidiosa distribuição de rendas. Reflito então sobre Ruanda, Marrakech, Nova Déli e Islamabad, apenas para citar alguns países do bloco dos que “não têm” para imaginar que para a Europa, a América do Norte e para os irrequietos Tigres Asiáticos (Japão, Taiwan, Singapura e Hong Kong), o que chamo de Princípio da Rocinha é também sintoma de temor, preocupação e muitas vezes desespero.

No contexto internacional, a frase se reformula, mas não muda em sua essência. – E se o Terceiro Mundo vier para o Primeiro? Com efeito, em contraponto a esta rápida deterioração do relacionamento entre as nações, encontramos o surgimento da perniciosa XENOFOBIA, ou seja, o desamor e o ódio aos estrangeiros que “vêm a nossos países violar o establishment econômico e social”, quebrar seus sistemas previdenciários, reduzir a renda per capita pelo emprego de mão de obra subalimentada, de educação deficiente e segundo seus filósofos sociais “de baixo padrão de civilidade”. A realidade do que expresso pode ser visto pelos crescentes regulamentos alfandegários e consulares buscando impedir a cidadãos do Terceiro Mundo a usufruir da tranqüilidade e paz veladas de Paris, Londres, New York ou Frankfurt.

Daí os vistos serem cada vez mais difíceis e os prazos de permanência permitidos cada vez mais exíguos. Para a França, 3 dias, para Londres, um mês e para alguns outros 90 dias, se comprovada renda estável em seu país de origem e também, em qualquer caso, se o cidadão estiver ingressando com um mínimo de dois a três mil dólares para consumir nesses países. Quando em 1955, o filósofo francês designou os países pelo ordenamento de sua renda per capita, imaginou, como é de todo filósofo social, que o 3o. Mundo deveria ser a designação daqueles países que poderiam emular, refletir, lutar pela renovação que ensejou a 3a. República à França, após sua festejada Revolução de 1789.

Mas, lamentavelmente, hoje e nos últimos decênios, a expressão serviu para envenenar ainda mais o relacionamento entre as nações prósperas e abastadas e aquelas outras, mais pobres, com todo tipo de preconceito: racial, social, religioso. É quando, com tristeza, sentimos que Terceiro Mundo passou a ser sinônimo de Terceira Classe, nem mais, nem menos. Quando observamos a marca da brutalidade alemã contra os cidadãos turcos naquele país ou quando vemos que para um brasileiro passar algumas semanas no Canadá ou mesmo buscar conhecer as maravilhas artísticas do Louvre em Paris ou do Metropolitan em New York, temos que reconhecer que somos tratados como cidadãos de terceira categoria. A par dessa situação, o protecionismo do Primeiro Mundo progride célere e os eixos do poder mundial, antes marcado pelas ideologias, apresentadas em ambos os casos, seja no capitalismo ou no socialismo, como “fórmulas salvadoras” do establishment mundial, passam a ser as novas forças econômicas e não ideológicas das imensas disparidades da riqueza do planeta.

Esgotado o conflito ideológico que embutia como seu bem mais aprimorado, os estertores da guerra fria e prenúncio do holocausto nuclear, muitas vezes iminente, vemos também o esgotamento de um modelo econômico fadado a perecer, irremediavelmente, uma vez que se baseia em um sistema injusto de distribuição de renda, onde os ricos tornam-se cada vez mais ricos e os pobres, avançam para a miséria. Aliás, uma miséria que busca suplantar a tragédia metropolitana que é uma Calcutá ou uma Bombaim e porque não irmos mais próximos, um Duque Caixas ou o Xerem, ali na Baixada Fluminense? Neste contexto soa ignorância explícita, buscar resolver o problema econômico sem antes passar por uma reflexão inadiável das estruturas econômicas e que contemple um redirecionamento para os valores humanos universais.

Somente, acredito, através de uma solução espiritual do problema econômico, quando viermos a compreender que a dor da parte é a dor do todo e que somos interdependentes pois participamos do mesmo gênero – o Humano – é que poderíamos reverter o quadro desolador que as sociedade hoje enfrentam, mas lutam em não identificar suas causas. A compreensão da unidade do gênero humano é a necessidade vital e urgente. Sem esta compreensão, o mundo caminhará perigosamente para o declínio, qual Roma antiga que caiu não pela força do inimigo em suas fronteiras, mas antes, pela incapacidade de seus líderes de vocalizar os mais legítimos anseios de sobrevivência dos povos oprimidos de sua época.

O Império Romano, mostrou-se ineficaz para reverter sua decadência tanto quanto a França mostrou alienação na proteção dos direitos dos mais fracos e a História foi implacável com um e com outro. Reeditam-se, em escala internacional as mesmas evidências, os conhecidos sintomas e não é necessário ter uma visão muito aguçada para se prever que algo de muito sério está ocorrendo e, parafraseando Shakespeare, existe algo de podre no mundo, onde antes “existia algo de podre no Reino da Dinamarca”, como proferiu Hamlet. Não é por acaso que, sentindo a inabilidade e a falta de espírito público de tantos governantes de nossos países, que surgem à mão cheia milhares de entidades não governamentais (ONG’s), que representando a sociedade civil se engajam em campanhas para erradicar a fome e a miséria (Betinho me impede obliterar esta verdade), bem como para proteger o meio-ambiente, os povos indígenas, os meninos de rua, enfim, os “excluídos sociais”.

E também as Associações de Moradores e os Conselhos Comunitários que buscam em si mesmos as soluções para os males que lhes afligem e lhes estancam, diariamente, a promessa de uma nova vida, digna, decente, honrada. Aventuro-me então a recomendar àqueles que detêm alguma forma de poder que parem um pouco com seus laboratórios sociais e econômicos e uma única vez, reflitam sobre o Princípio da Rocinha, pois a meta é uma só, estabelecer uma sociedade justa e fraterna e que, possa ser rapidamente transposta do ideal para o chão duro da realidade.

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