Algumas cenas de Forrest Gump merecem reflexão. Gump é a crítica bem acabado do padrão moral destes últimos anos do segundo milênio. Ingênuo, patético muitas vezes, hilário quase sempre, encontramos na matriz do Gump, características perdidas do “homem sentimento”, aquele que respeita e obedece aos pais (no caso de Gump, à sua mãe), que é fiel à namorada (até sem esperar reciprocidade), cidadão responsável (no caso, eficiente cumpridor do alistamento militar), protótipo da verdadeira amizade, bastam as imagens em que contracena com o tenente Dan e suas missões de salvamento no Vietnã.

Além disso, Gump é pela Unidade Racial: sua amizade e lealdade ao soldado Buba, o dos camarões e o respeito com que digna-se a visitar sua família após a morte do mesmo. Pacifista sempre, é o que podemos depreender de sua afirmação sobre o QI do Exército americano e suas competições internacionais em um prosaico jogo de tênis de mesa.

O “Contador de Histórias” é exímio nos diálogos, curtos, muitas vezes para acentuar a falta de inteligência do narrador, outras, para deixar no ar, algum sentimento elevado desperdiçado ao longo do tempo. Sempre muito cômico é ver como Gump é bafejado pela sorte: ensina alguns passos de dança a um obscuro pensionista de sua mãe, chamado Elvis; flagra a invasão do edifício Watergate, que detonaria o presidente Nixon em 1972; representa os EUA em competições esportivas no auge da Guerra Fria; faz fortuna com barcos de pesca em um momento quando o setor está “quebrado” e ainda por cima, investe em uma obscura empresa de frutas que tem como logomarca uma maçã. Por acaso seria a futura Apple Computers!

Mas, o que fica de Gump é exatamente aquilo que ele não disse. O que soube deixar subentendido. Ao criticar a busca de salvadores da pátria, gurus e assemelhados, passa a correr diuturnamente e como por encanto, ganha muitos acompanhantes, quais adeptos que o reverenciam como um líder.

Em uma época como a nossa, tão cheia de indefinições e angústias, muitas pessoas seguem alguém que demonstre perseverança, firmeza de propósito.

Ao criticar o racismo, mostra a ternura do ser humano, não importando a cor da pele e demonstrando que existe espaço para os sentimentos nobres, altruísticos, se conseguirmos ultrapassar as figuras estereotipadas que a sociedade cria e solidifica.

Ao criticar o militarismo é contundente sem se ferir. Mostra que podemos nos sobressair em um modus vivendi adverso ao nosso, se apenas e tão somente seguirmos a lei maior do ambiente. Nesse caso, mostra que um excelente soldado nada mais é que um cidadão obediente.

Ao criticar a corrupção, toca em um dos maiores traumas americanos deste século: o processo de impeachment de Richard Nixon. Deixa claro que não se pode compactuar com atos ilícitos, ao tomar a iniciativa de telefonar ao jornal Washington Posto informando uma “certa movimentação suspeita no edifício Watergate”.

Ao criticar o materialismo, deixa claro que uma pessoa pode ser milionária sem ser apegada aos bens acumulados ao longo da vida. E mais: é possível ser feliz mesmo com poucos recursos materiais.

Forrest Gump anuncia também a instabilidade dos valores morais nos dias que correm. E assume o papel de bobo da corte sem resvalar para o pastelão, manifesta-se emotivo, sem fazer concessões à pieguice.

Afirma que algo pode estar errado em um tempo em que ser sincero, honesto, íntegro, signifique ser imbecil, beócio, lunático. Feitas essas considerações, o filme tem uma fotografia surpreendente e a música é parceira fiel ao enredo proposto.

O Forrest Gump de Tom Hanks é irrepreensível, desde o ar um pouco desligado do personagem-título, até a maneira como contas as histórias de sua história, temos a impressão de estar diante de um personagem que não ficará perdido no celulóide mas sim, de alguém que poderá ser um referencial poético da odisséia humana nesta terra de granito.

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