31 de outubro de 1996. Estou em Asunción, no Paraguai, quando recebo da secretária brasileira a fatídica notícia: um avião da TAM caiu em São Paulo, morreram 97 pessoas, incluindo o Sr. Mohamad Shaykhzadeh. De imediato senti o drama. E o que parecia ser uma manhã tranqüila de final de outubro transformou-se em passos apressados pelos necrotérios, corações descompassados de dor de familiares e amigos das vítimas e o estranho vazio que uma centena de pessoas deixa quando parte para não mais voltar.

Novos telefonemas começo a receber: queriam saber se eu continuava vivo pois havia um Washington na lista dos passageiros. Alívio para uns, dor para os familiares do outro Washington, que depois ssaberia, teve sua vida interrompida aos 34 anos de idade. Enquanto isso, penso na fragilidade da vida humana. Para morrer basta apenas estar vivo. O consolo é que o mesmo não ocorre do ponto de vista espiritual: a morte física, como ensinou o sábio persa ‘Abdu’l-Bahá (1844-1921), assemelha-se ao vôo do pássaro que rompe os limites da gaiola alçando vôo pelos domínios do invisível. É isso mesmo, por paradoxal que possa parecer: aquele que morre ao perder a vida, este nunca esteve vivo.

Busco os jornais ávidamente tentando entender uma tragédia que surge como fato consumado inexorável. Inútil aguardar mais informações. Logo saberemos da existência dos famosos inquéritos — rigorosos, afirma-se — para buscar os culpados e o interminável disse-me-disse da mídia confirmando algumas hipóteses, descartando outras. Mas meu coração já tinha detectado o ponto: Foad, Fariba e Faezeh terão que se acostumar com a idéia de que seu pai Mohamad não mais lhes telefonará diariamente para saber notícias, desejar boa noite ou apenas avisar que estará lhes visitando logo mais. Sua esposa, a doce Shoghieh Khanum, perdeu o parceiro de toda uma existência.

Parceiro de ideais: eles acreditavam (e ela continuará a acreditar) também que servir a humanidade é o objetivo maior da existência humana. E, como ocorre com as tragédias, logo chegará aquele momento da absoluta ausência de fatos novos que possam colocar o assunto no prato do dia dos telejornais e da imprensa escrita e as imagens de um avião em chamas na capital paulista deixará de nos aterrorizar.

Há menos de duas semanas havia conversado com Mohamad ao telefone. Seu jeito alegre e inconfundível de me chamar de “meu filho” ainda parece ecoar em meus ouvidos. E a força de sua integridade também. Era um homem íntegro, correto, apegado ao ideal da “coisa justa”. Prestativo, chegado a gentilezas como a de me conduzir, mais de uma vez, em seu automóvel por quase duas horas de Mogi Mirim ao Aeroporto de Cumbica, em São Paulo. E atencioso. Nunca me encontrava em alguma conferência sem mostrar interesse pela saúde de meus filhos ou de minha esposa. E era assim com os amigos: leal, cortês. É uma pena que fazemos balanços de nossos relacionamentos quando já não podemos usufruir dos muitos créditos acumulados ou mesmo se penitenciar dos desconfortáveis débitos, aquelas amizades que morriam antes de fincar raízes profundas nos corações.

Recebo os semanários e curioso, logo localizo as fotos coloridas da tragédia do Fokker-100 da TAM. Na mesma reportagem o desconforto de ver registrado esse desastre em meio aos excelentes números de seus balanços financeiros e aos prêmios que lhe reputavam como “a melhor companhia de aviação regional do mundo”. Isso mesmo: do mundo.

Isso me faz recuar no tempo e a pensar no Titanic. O mais aperfeiçoado transatlântico do mundo, em 1912, começava sua viagem inaugural sob a marca da engenhosidade humana, do perfeccionismo marítimo em meio à alvorada do corrente século que ora se despede de nós. Alguém para louvar essa conquista da tecnologia naval assegurava que o navio era tão seguro “que nem mesmo Deus poderia afundar”. Mas Deus ou a arrogância humana provou o contrário: milhares de vidas desapareceram na escuridão do alto mar. E esta que deveria ser a esperada viagem inaugural foi também a sua última.

Um ponto em comum entre o Fokker-100 da TAM e o Titanic era, sem dúvida, a boa performance financeira de seus empreendimentos. Começo a pensar em algum futuro – que espero seja próximo – quando a aferição do sucesso empresarial venha a transcender a dança dos números e os vetores ascendentes dos gráficos econômicos e então busque contemplar a observância das normas de segurança e o seu programa de desenvolvimento de recursos humanos e também o nível de satisfação dos seres humanos que com a empresa interagem.

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