TODOS aqueles que têm se dedicado à proteção dos direitos humanos das populações indígenas, conhecem bem as dificuldades envolvidas nesta tarefa. O dilema crucial criado entre as posturas paternalistas ou românticas e a exploração e a perseguição impiedosas aponta para a necessidade de novas formas de atuação, que ajudem os próprios indígenas a reconhecerem seu valor e a terem voz e força para defender seus direitos. Para muitas cabeças pensantes, o problema indígena terá solução com uma FUNAI bem aparelhada, sensível aos an-seios de seus tutelados, assistencialista em essência.

Uma “casa de farinha”, aqui e outra mais adiante, passagens aéreas para transporte de índios enfermos entre capitais do País, um centro de distribuição de sementes para favorecer a agricultura das aldeias. Para outras cabeças, também pensantes, a solução está na realização de incontáveis reuniões e seminários, visando arrecadar boas quantias de recursos financeiros. Uma nova Fundacão dos Povos da Floresta, um Fundo Amazônico, tudo isso lastreado por shows ecológicos e outras pirotecnias, com bom potencial para a transmissão de imagens por satélite. Permito-me afirmar que índio não quer show e muito me–nos novas fundações, por melhores que sejam como idéias. Imagine-se alguém chegar a uma UTI de hospital e buscar salvar os pacientes com tais expedientes. São muitas as necessidades prementes. Algo muito mais simples, os índios desejam: eles querem ser ouvidos. Nada mais.

Mas, o que o índio tem a dizer? Ah! Ele tem muito a dizer. Vejamos:

Espoliação e desespero

Somos uma nação subjugada pelos potentes, uma nação espoliada, uma nação que está morrendo aos poucos, sem encontrar o caminho, porque aqueles que nos tomaram esta pátria, não têm dado condições para nossa sobrevivência. — Marçal, Tribo Guarani

O que reinvindicam

Não queremos emancipação, nem integração. Queremos o nosso direito de viver. Jamais o branco compreenderá o índio. Queremos ser um povo livre, como antigamente. O índio está cercado, amordaçado por uma burocracia que não funciona. Por isso nós vamos a campo. — Tupay, Tribo Guarani

Resgate de sua espiritualidade

Éramos um povo sem lei, mas nos dávamos muito bem com o Grande Espírito, criador e legislador de tudo. Vocês, brancos, diziam que éramos selvagens. Vocês não entendiam nossas preces e nem procuravam entender. Quando cantávamos para o Sol, a Lua ou o Vento, diziam que estávamos adorando ídolos. Sem compreender, nos condenavam como almas perdidas, só porque nossa forma de adoração era diferente da de vocês. — Tatanga Mani, Tribo Stoney

Direitos sobre a terra

Quando fomos criados, recebemos nossa terra para viver e datam desse tempo nossos direitos. Tudo isto é verdade. Tinhamos o peixe, antes dos missionários chegarem, antes do homem branco chegar. Fomos postos aqui pelo Criador e este direito é tão antigo quanto a lembrança do meu avô. Não fui trazido e nem cheguei aqui de um país estranho. Fui posto aqui pelo Criador. — Wenincock, Tribo Yakima A ação dos ditos civilizados Antes, eu pensava que era o único homem que insistia em ser amigo do branco, mas desde que eles vieram e acabaram com nossas tendas, cavalos e tudo o mais, é difícil para mim acreditar ainda nos brancos. — Motavato, Tribo Cheiene

O homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na alma do seu povo. — Carmindo Maxacali, Tribo Juruna

Falta de sensibilidade

Os que ainda não têm problemas de terra, vão ter. É preciso garantir primeiro. Passar uma estrada em cima de uma aldeia é um crime. Porque não desviar? O Brasil é grande. Isto é triste! —Txibaibou, Tribo Bororó

Lembrança de massacres

O que foi feito em minha terra, eu não quis, nem pedi. Os brancos percorrendo minha terra . . . Quando o homem branco vem ao meu território, deixa uma trilha de sangue atrás dele. Os homens que o Pai Grande (o governo) nos manda não têm sentimentos nem coração. — Mahpia Luta, Tribo Sioux

Pacifistas sempre

Quando povos entram em choque, é melhor para ambos os lados reunirem-se sem armas e conversarem sobre isso, e encontrarem algum modo pacífico de resolver. — Sinteh Galeshka, Tribo Sioux Brulés

O início de seu sofrimento

Nosso sofrimento começou com o primeiro navio que chegou ao Brasil. — Sampré, Tribo Xerente

Causas do genocídio

Onde estão muitas outras tribos de nosso povo, antes poderosas? Desapareceram diante da avareza e da opressão do homem branco, como a neve diante de um sol de verão. Vamos deixar nos destruir, por nossa vez, sem luta, renunciar a nossas casas, a nossa terra dada pelo Grande Espírito, aos túmulos de nossos mortos e a tudo que nos é caro e sagrado? Sei que irão gritar comigo: Nunca! Nunca! — Tecumseh, Tribo Shawnee

Filosofia indígena

Nós usamos o remédio das plantas. Temos crenças, benzedores. Acreditamos que Deus colocou a natureza para o homem aproveitá-la. Deus criou todas as coisas, todos os animais, para o índio serví-Lo. Nosso povo não pode esquecer da tradição. Interessa-nos só o que é nosso. O que é importante em nossa vida é nosso costume.— Eugênio, Tribo Bororó

Direito à autodeterminação

Os índios são povos livres, que há milhares de anos vi-vem nestas terras. Não podemos aceitar que outro povo decida os caminhos que devemos trilhar.— Xangré, Tribo Kaingang

Nós preferimos morrer livres a viver como escravos. Para muita gente, nós somos apenas uma coisa. — Txibae Euroró, Tribo Bororó

As palavras de lideranças indígenas, acima referidas, constituem apenas uma gota da sabedoria de nossos ancestrais comuns. Mas, nelas pode-se sentir o aroma da verdade, em uma época tão marcada pela hipocrisia e vaidade intelectual. São ilhas de sensatez sinalizando por justiça, uma justiça que lhes escapa do seu destino nestes últimos quinhentos anos – desde que Colombo aportou em São Salvador, em 1492. Nestes cinco séculos (1492/1992), bem poderíamos refletir sobre as palavras de Carl G. Jung. Ele esteve em contato com os índios Pueblos, do México.

Registrou daquela sua memorável viagem a entrevista com o cacique dos Pueblos, Ochiwei Biano, que havia dito que os brancos “estão sempre ansiosos, à procura de algo incessantemente”; afirmara que o problema dos brancos “é que eles pensam com a cabeça e por isso são como loucos.” Jung então lhe perguntou se não deveríamos pensar com a cabeça e como eles pensavam. Biano lhe respondeu que “nós pensamos aqui” e apontou para seu coração. É bastante interessante a reflexão final de Jung: “Aquilo a que damos o nome de civilização, missão junto aos pagãos, expansão da civilização, etc . . . tem uma outra face, a de uma ave de rapina cruelmente tensa, espreitando a próxima vítima, face digna de uma raça de larápios e piratas. Todas as águias e outros animais rapaces que ornam nossos escudos heráldicos, me parecem os representantes psicológicos apropriados de nossa verdadeira natureza.” Quando poderemos, em uníssono, dizer a nossos “condenados da terra”, como os cognominou Jean-Paul Sartre, estas palavras eloquentes da renomada escritora bahá’í, Rúhíyyih Rabbaní: “Vocês são uma raça grandiosa; seu povo no Mundo Novo, antes da chegada do homem branco, levan-tou grandes cidades e templos lindos. Vocês fizeram com suas próprias mãos estátuas maravilhosas e vasos de cerâmicas, de ouro e de prata, jóias . . . Outras pessoas no mundo estão estudando cada vez mais a história indígena, descobrindo cidades e templos antigos escondidos nas selvas, nas montanhas e nas planícies, desenterrando-os, para que as pessoas possam visitá-las e se maravilharem com a grandeza da obra dos índios.” O que podemos fazer, para resgatar nossos índios dessa imensa solidão de espírito a que temos lhes confinado? É urgente e vital um novo posicionamento da sociedade brasileira, visando proteger a integridade étnica, moral e cultural de seus descendentes, hoje tão escassos e vivendo em condições sub-humanas, vítimas potenciais de nossa elevada corrupção mo-ral, guerras e conflitos ruinosos. Um bom começo seria a implementação do artigo 231 de nossa já tão envelhecida Constituição, apesar de ter sido proclamada há apenas tão pouco tempo e que diz em seu caput:

São reconhecidos aos índios sua organização, costumes e línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

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